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Irmãos Tsarnaev: de estudantes universitários a terroristas

por Gabriel Bonis publicado 19/04/2013 18h42, última modificação 20/04/2013 08h27
A dupla que teria colocado as bombas na linha de chegada da Maratona de Boston tinha uma vida normal até a semana passada
Dzhokhar

Foto: FBI

*Atualizado às  8h20 de sábado 20.

A cidade de Boston, em Massachusetts, Estados Unidos, parou na sexta-feira 19. O sistema público de transporte, o comércio e importantes universidades fecharam. À população foi recomendado ficar em casa com as portas trancadas. Enquanto isso, do lado de fora, um cenário surreal se desenhava com a perseguição e prisão de Dzhokhar Tsarnaev, de 19 anos.

O jovem é um dos dois suspeitos de terem realizado o atentado que matou três pessoas e vitimou mais de 170 na Maratona de Boston, na segunda-feira 15. O outro suspeito, seu irmão, Tamerlan Tsarnaev, de 26 anos, foi morto em um conflito com a polícia.

Acredita-se que os irmãos tenham ido da região da Chechênia, na Rússia, para os EUA em 2002. A república é predominantemente muçulmana e vive um grave e violento conflito com o governo de Moscou. Em uma rede social russa, ambos defendiam a independência da antiga república soviética e se diziam muçulmanos.

De jovens comuns a suspeitos de terrorismo em apenas dois dias, a dupla têm um perfil atípico para este tipo de ação. Ambos são estudantes universitários, jovens e sem nenhuma informação conhecida de envolvimento com atos de terror.

Dzhokhar se formou no ensino médio em 2011 e era um lutador de destaque em sua escola. Ganhou naquele mesmo ano uma bolsa de estudos de 2,5 mil dólares da cidade de Cambridge, próxima a Boston, para estudantes promissores. Especula-se que estudava na Universidade de Massachusetts.

Amigos disseram que Dzhokhar se vestia e agia como qualquer outro jovem. “Ele nunca apareceria como alguém capaz de fazer algo deste tipo”, afirmou Ashraful Rahman, um ex-colega de colégio, ao jornal NY Times. Não tinha sotaque e rezava em mesquitas.

O outro suspeito, Tamerlan Tsarnaev, de 26 anos, era boxeador. Gostava de rap russo e certa vez disse não ter nenhum amigo americano. Chegou a estudar engenharia na Bunker Hill Community College. Era devoto ao Islã, não bebia e não fumava. Embora mais reservado, não teria atividades que o colocassem na lista de suspeitos de terrorismo.

Ainda não se sabe se havia mais pessoas envolvidas na execução ou na organização do atentado, mas a estrutura de trabalho em pequeno grupo chama atenção, embora essa tática tenha se tornado comum nos últimos anos. “Esses atos em grupos menores fazem sentido levando em conta os esforços feitos por vários governos de se infiltrar e destruir grupos mais coordenados como a al-Qaeda”, diz Kai Enno Lehmann, professor de Relações Internacionais da USP e especialista em terrorismo.

A estrutura mais enxuta difícultaria a identificação e facilitaria à organização de atos de terror, acredita Lehmann. “Torna o controle e o trabalho dos agentes de polícia mais complexos. Mesmo gastando bilhões de dólares em sistemas de detecção e inteligência é impossível para um Estado fiscalizar todo mundo.”

E isso pode ser um problema ainda maior. “O número de pessoas não é a variável mais importante. É preciso saber se a pessoa tem alguma relação com terrorismo ou se é suspeita. Nos atentados de 11 de setembro, o terrorista Mohamed Atta não tinha histórico ou passado nenhum registrado [em relação ao terrorismo]”, afirma Reginaldo Mattar Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP e especialista em terrorismo.

Sem saber o verdadeiro grau de periculosidade de Dzhokhar, as autoridades paralisaram Boston na caçada do jovem. A ação é questionada por Nasser. “Como compreender que a CIA e o FBI precisem de toda essa ação para prender dois jovens não treinados?", questiona. "É um espetáculo da indústria do medo, um exagero das ameaças que gera uma demanda por empresas de segurança privadas e do governo no Congresso por mais orçamento aos serviços de inteligência.”

Num cenário em que os ataques de grandes proporções têm diminuído, a tendência é que esses tipos de "lobo solitário" se tornem cada vez mais comuns como estratégia de terrorismo.

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