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Irã flexiona os músculos no Golfo Pérsico

por Gianni Carta publicado 04/08/2011 11h38, última modificação 05/08/2011 17h39
País tornou-se a maior potência militar da região e lutará pelos interesses xiitas, revela analista político Hesam Houryaband
Irã flexiona seus músculos no Golfo Pérsico

País tornou-se a maior potência militar da região e lutará pelos interesses xiitas, revela analista político Hesam Houryaband

Com a retirada das forças militares americanas do Iraque, o Irã defenderá os interesses de xiitas, diz o analista político iraniano Hesam Houryaband. Para Washington a situação é preocupante nesse momento em que o Irã tornou-se a maior potência militar do Golfo Pérsico, segundo o site Global Fire Power. No entanto, sauditas e iranianos estão a negociar um acordo, revela o especialista iraniano ‘’A estabilidade da região depende desse acordo’’.

CartaCapital: O fato de as forças americanas estarem deixando o Iraque implicará numa maior influência por parte do Irã na comunidade xiita daquele país?

Hesam Houryaband: Desde a invasão dos Estados Unidos no Iraque, e da subseqüente formação do governo iraquiano, o Irã tem tido tremenda influência naquele país. Isso a despeito da enorme presença militar e política dos Estados Unidos. Portanto, é natural assumir o óbvio: com uma influência americana reduzida, principalmente na área militar, o Irã é o principal país para preencher esse vácuo. Do ponto de vista geoestratégico e militar do governo iraniano, Teerã quer exercer maior influência no Iraque para evitar outra guerra com este país. Essa influência do Irã sobre o Iraque não é, a meu ver, desestabilizadora. Em relação aos xiitas no Iraque, até agora as políticas de Teerã e de Washington convergiram. O Irã usou sua influência sobre os partidos políticos xiitas, pressionando-os a forjar um acordo político com os sunitas. Mas, claro, com a retirada das forças militares americanas, Teerã poderia mudar de tática para satisfazer e cumprir seus fins políticos. Esse cenário reacenderia a rivalidade do Irã com a Arábia Saudita e os Estados Unidos.

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CC: O ataque de forças iranianas contra curdos no Iraque, na semana passada, demonstra o desejo do Irã de dominar o Iraque?

HH: O Irã não estava visando curdos. Seu alvo era a agremiação curda radical, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK em curdo). É uma organização separatista que busca, via insurreições e atentados, a formação do Curdistão, a envolver partes da Turquia, Iraque, Síria e Irã.  E não é somente o Irã que luta contra esses grupos, mas também a Turquia. O PKK, ademais, representa uma pequena fatia da população de curdos. Mesmo no interior do Curdistão iraquiano, o PKK não se entende com os principais partidos políticos curdos. Além disso, tiveram vários confrontos violentos com as forças do governo regional curdo. Ao atacar o PKK, o Irã queria proteger sua integridade territorial.

CC: Mas há quem diga que Teerã quer exercer maior controle sobre o Iraque, assim como a Síria dominou anos a fio o Líbano...

HH: Não prevejo um cenário como aquele no qual a Síria manteve controle sobre o Líbano. Os motivos são dois. Primeiro: o Iraque não é politicamente e militarmente tão fraco como o Líbano nos anos 80. Segundo: uma invasão do Iraque seria uma provocação muito arriscada para o Irã, e poderia resultar em retaliações da comunidade internacional.

CC: O senhor acredita em qualquer reação contra o Irã por parte do Conselho de Cooperação de Golfo (CCG), com, talvez, a ajuda dos Estados Unidos?

HH: Não podemos descartar a hipótese de Washington, após sua retirada militar do Iraque, querer ver seus aliados na região preencher o vácuo deixado pelas forças militares americanas. Para Washington, essa poderia ser uma maneira de evitar que o Iraque caia nas mãos de Teerã. Mas esse cenário depende da aquiescência iraquiana, e da capacidade militar dos integrantes do CCG. E como reagiria o Irã também faz o CCG pensar duas vezes antes de tomar uma decisão bélica.

CC: O Irã interferiu, em março, na revolta xiita no Bahrein. O CCG reagiu, dizendo para Teerã por um fim nas ‘’provocações’’.

HH: Não é nenhum segredo que o governo iraniano apóia há anos os xiitas no Bahrein. Uma das diretivas oficiais da política estrangeira do governo iraniano é apoiar muçulmanos, e em particular causas xiitas mundo afora. Politicamente e historicamente, isto não é nada fora do ordinário. A França e os Estados Unidos apoiaram milícias cristãs no Líbano politicamente, militarmente, e financeiramente. A Arábia Saudita apóia grupos extremistas sunitas como os salafitas e os wahabbitas. Riad atua em pelo menos quatro países: Argélia, Marrocos, Paquistão, e Afeganistão. O Irã, portanto, não deve ser condenado pela sua atuação no Bahrein, onde a maioria da população é xiita, como no Iraque. Além disso, no Bahrein a maioria xiita tem status de minoria. O Irã, portanto, se sente obrigado a agir contra o abuso sistemático contra os xiitas. E defende os xiitas no Bahrein também para satisfazer uma demanda do povo iraniano.

CC: De que forma o Irã apóia os xiitas no Bahrein?

HH: Principalmente em duas áreas: financeira e política. O governo de Bahrein foi até agora incapaz de oferecer qualquer evidência concreta do suporte militar iraniano aos xiitas. E isso apesar da presença militar saudita no Bahrein. Se o governo do Bahrein tivesse provas de uma intervenção militar iraniana no seu território, já as teriam usado para angariar o suporte da comunidade internacional.

CC: O CCG acusa o Irã de ter células de espionagem nos países do Golfo Pérsico...

HH: Tem havido muitas acusações de espionagem por parte dos iranianos, todas infundadas. A maior parte dessa propaganda barulhenta tem origem nas capitais de países do mundo árabe. Estão todos interessados em escamotear suas próprias falhas, e assim desviam o foco de atenção para o Irã. Isso os ajuda a lidar com tensões nos seus próprios países. E, por tabela, conseguem, pelo menos temporariamente, evitar protestos do povo como aquele que aconteceu – e voltou à tona – no Egito.

CC: O Irã tem mísseis capazes de atingir poços de petróleo na Arábia Saudita. Como devem agir os sauditas diante da maior potência bélica do Golfo Pérsico?

HH: Mísseis iranianos não atingirão poços de petróleo sauditas. Mesmo assim, a animosidade entre a monarquia sunita em Riad e Teerã tem potencial para levar os dois países a um conflito. A Arábia Saudita, diga-se, tem sido a maior rival do Irã na região em parte para satisfazer exigências de Washington. Mas o quadro parece ter mudado. Riad estaria atrás de algum tipo de acordo com o Irã. A pedido dos sauditas, o presidente paquistanês Asif Ali Zardari estaria mediando entre Riad e Teerã. A estabilidade regional depende desse acordo.

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