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Investigação explosiva

por Gianni Carta publicado 25/11/2010 10h18, última modificação 25/10/2011 13h37
O julgamento dos assassinos de Rafik Hariri causa tensão no Oriente. O Hezbollah ameaça cortar as mãos de quem ousar prender seus integrantes. E há quem tema uma guerra civil.
Investigação explosiva

O julgamento dos assassinos de Rafik Hariri causa tensão no Oriente. O Hezbollah ameaça cortar as mãos de quem ousar prender seus integrantes.Por Gianni Carta.Foto: Marco Di Lauro/Getty Images/AFP

O julgamento dos assassinos de Rafik Hariri causa tensão no Oriente
A lista de indiciados por um tribunal internacional nos subúrbios de Haia a investigar o assassinato do ex-premier sunita libanês Rafik Hariri em 2005 poderá provocar guerra civil no Líbano –  com repercussões no Oriente Médio e mundo afora. Os prováveis acusados no inquérito tentam convencer o atual primeiro-ministro, Saad Hariri (filho de Rafik) a rejeitar as investigações da Corte das Nações Unidas. Oficialmente, Saad Hariri, de 40 anos, se diz favorável ao prosseguimento do inquérito e ao veredicto dos magistrados.
Na linha de frente daqueles a pressionar o premier está a agremiação xiita Hezbollah, financiada pela Síria e o Irã. Nestes meados de novembro, Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, cujo braço militar é tido como heróico defensor na luta contra a invasão israelense de julho de 2006, lançou a seguinte ameaça: vai “cortar as mãos” de quem ouse prender integrantes de sua agremiação. Para Nasrallah, o Tribunal da ONU é parte de um complô dos Estados Unidos e de Israel para desestabilizar o Líbano.
Em busca do apoio  de Paris, o general cristão libanês Michel Aoun – e aliado do Hezbollah – teve um encontro com Nicholas Sarkozy no Palácio do Élysée. O ex-premier do Líbano parece não ter recebido as garantias esperadas. Sem maiores explicações, o general Aoun anulou uma entrevista à imprensa no centro da capital francesa marcada para depois de seu encontro com Sarkozy.
Num comunicado, o presidente francês lembrou a “importância, no período atual, da unidade dos libaneses em torno das instituições e autoridades libanesas, às quais a França confere total apoio”. A agremiação Corrente Patriótica Livre, do general Aoun, e o Hezbollah, vale sublinhar, integram a coalizão formada, em novembro de 2009, sob a liderança de Saad Hariri.
Certamente, o general Aoun e seus aliados do Hezbollah não ficaram felizes com o fato de a França apoiar o Tribunal Especial para o Líbano. Ou seja, Paris aguarda o julgamento dos responsáveis pela explosão, em 14 de fevereiro de 2005, de um caminhão que provocou a morte de Rafik Hariri e outros 22 civis. O atentado ocorreu no centro de Beirute.
Logo após o atentado do velho Hariri, cuja fortuna foi feita na reconstrução do Líbano após a guerra civil (1975-1990), Saad acusou a Síria de estar por trás da morte do pai. Paris e Washington concordaram.
A Síria recusou o envolvimento na morte do ex-premier, que condenava a influência de Damasco sobre o Líbano. Os sírios ordenaram, porém, a retirada de suas tropas instaladas no Líbano desde os primórdios da guerra civil. Deu como justificativa a intenção de promover segurança para o país.
Na esteira da retirada das tropas sírias surge, sob a liderança de Saad Hariri, a Aliança 14 de Março, nome a celebrar uma demonstração anti-Síria. Os tempos pareciam promissores. Mas nos anos seguintes atentados em zonas cristãs sacudiram Beirute. Em maio de 2008, homens armados do Hezbollah invadiram a capital à beira de uma guerra civil. O jovem Hariri foi forçado a aceitar a formação política xiita na Aliança 14 de Março.
Atualmente, o Hezbollah  pode vetar decisões governamentais, graças a acordos com outras legendas. A popularidade do braço militar do Hezbollah – tido pelos Estados Unidos e outros países como uma organização terrorista –, é grande entre os xiitas. E até entre os não xiitas, a começar pelo cristão Aoun. Esses partidários continuam a ver o grupo formado e dirigido pelo Irã desde 1982 como um aliado na luta contra Israel.
Desde o início do inquérito no Tribunal em Haia, em março de 2009, o influxo de armas de Damasco e Teerã para o Hez-bollah tem aumentado. A visita oficial do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Beirute, em outubro, fez crescer a suspeita, entre sunitas libaneses e em Washington, de que Teerã estaria usando a crise no Líbano para atacar Israel.
Embora a Síria não esteja no banco dos réus em Haia, Damasco ameaça procuradores e policiais libaneses que teriam oferecido falsos testemunhos (vários deles confirmados como dúbios pelos investigadores) ao Tribunal da ONU. O governo sírio preserva grandes poderes de persuasão em Beirute.
 Em entrevista ao diário Asharq Al-Awsat em 6 de setembro, Saad Hariri declarou ter “cometido erros” ao acusar a Síria pelo “assassinato do primeiro-ministro mártir”. Saad disse ainda que aquela acusação política “não faz mais parte da atual agenda”.
Se o jovem Hariri se mostra favorável ao prosseguimento do inquérito em Haia, ele segreda aos dirigentes do Hezbollah que insistirá no julgamento apenas de integrantes marginalizados da organização xiita. Facilita, claro, o fato de Imad Mughniyeh, líder das “operações especiais” do Hezbollah e acusado por vários atentados, ter sido assassinado em fevereiro de 2008. Mughniyeh teria sido a ponte entre o Hezbollah e a Guarda Revolucionária do Irã.
Antes de Ahmadinejad  ser recebido no Líbano no ano passado, Saad Hariri visitou o presidente sírio, Bachar Al-Assad. A visita de Hariri a Al-Assad cimentou a reconciliação da Síria com a Arábia Saudita. Saad nasceu em Riad, e lá o pai acumu-lou parte de sua fortuna. Para o Ocidente é bem-vindo o novo elo entre a Síria e a Arábia Saudita. Riad é ponto de apoio do Ocidente no Oriente Médio.
Mais preocupante para Washington é uma guerra civil e um subsequente confronto entre os EUA e Teerã. Diante de tal perspectiva, o Congresso norte-americano aprovou 100 milhões de dólares para o Exército libanês. A soma visa arrefecer a dependência do Líbano da facção armada do Hezbollah. Ao mesmo tempo, é simbólica porque mostra o apoio de Washington às instituições do país.
As iniciativas são positivas, mas parecem migalhas no atual contexto. Nasrallah não para de mencionar a iminência de uma agressão de Israel contra o Líbano. Tel-Aviv teria finalizado preparações militares e logísticas para perpetrar o ataque. Segundo o Asharq Al-Awsat, o ex-ministro francês do Exterior Bernard Kouchner confirmou a possibilidade de uma possível agressão israelense.

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