Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Indígenas contra o índio

Internacional

Bolívia

Indígenas contra o índio

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 29/09/2011 21h00, última modificação 30/09/2011 12h55
O fracasso em negociar estrada na Amazônia põe em questão a legitimidade de Evo Morales

Seria inimaginável no primeiro mandato de Evo Morales. O país e o governo em crise e não pela rebelião das tradicionais elites criollas, mas por situação similar à que levou à queda de Sánchez de Lozada em 2003 e abriu caminho aos movimentos populares que levaram o MAS ao poder em 2006: excesso na repressão a indígenas. E estes se rebelam em nome da preservação de sua reserva e do meio ambiente, bandeira que o atual governo sempre empunhou no país e no exterior como defensor intransigente da Pacha Mama (Terra Mãe), como diz Evo, na ONU e nos fóruns ambientais internacionais.

Em 3 de junho começou a construção dos trechos 1 e 3 de uma estrada de 306 quilômetros que ligaria Cochabamba a Bení. A obra tem custo estimado em 415 milhões de dólares, 322 milhões dos quais financiados pelo BNDES. A construtora é a brasileira OAS, única empresa a participar da licitação em 2008. A obra do trecho 2, de 177 quilômetros e 40% do valor, começaria em agosto de 2012 e atravessaria o Tipnis (Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure), reserva de 1,091 milhão de hectares onde vivem 13 mil indígenas das etnias moxeño, yurakaré e chimane. Não houve consulta prévia aos indígenas, nem estudo de impacto ambiental.

Em 5 de agosto, após semanas de debates, os líderes locais decidiram não permitir a estrada nas suas terras, acusando a OAS e o Brasil e dizendo que a rodovia trará colonizadores, cocaleros, madeireiras e petroleiras. Mudar o traçado custaria de 60 milhões a 250 milhões de dólares e, segundo o governo e a OAS, seria inviável construí-la sem atravessar a reserva.

Evo, aimará de Oruro, representa a maioria dos indígenas do Altiplano, tanto os camponeses quanto os incorporados às massas urbanas. Compartilha seus valores e seu sentimento de espoliação secular pela elite colonizadora de origem espanhola e fala sua língua – mas não a dos indígenas das terras baixas. No início da crise os chamou de “inimigos da pátria” e sugeriu a líderes cocaleros conquistarem as mulheres da reserva para apoiar a obra, enfurecendo tanto os indígenas locais quanto as feministas.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 666 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 30

registrado em: