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Internacional

Ucrânia

Incerteza política aumenta tensão entre grupos étnicos da Crimeia

por Deutsche Welle publicado 02/03/2014 09h04
Enquanto maioria russa teme o fortalecimento de grupos extremistas, tártaros e ucranianos interpretam como conspiração as ameaças de ocupação por parte da Rússia
Yury Kirnichny / AFP
Ucrânia

Manifestantes seguram cartazes onde se lê "Crimeia é Ucrânia" durante ato em Kiev, em 1 de março de 2014

Não há como ignorar a analogia: assim como os deputados do Parlamento ucraniano estão sendo observados pelos autoproclamados "Defensores da Euromaidan", também os parlamentares da península da Crimeia tomam suas decisões sob uma vigilância especial. Isso é o que provavelmente imaginaram as "Unidades Russas de Autodefesa da Crimeia" na última quinta-feira (27/02), ao invadirem os prédios do Parlamento e do Conselho de Ministros na capital Crimeia, Simferopol.

Para enorme satisfação dos manifestantes pró-Rússia na capital, no mesmo dia os deputados da assembleia regional decidiram autorizar um referendo sobre a situação da Crimeia no dia 25 de maio, simultaneamente às eleições presidenciais da Ucrânia (posteriormente a data foi antecipada para 30 de março). À noite, homens armados e portando bandeiras russas invadiram os aeroportos de Simferopol e Sevastopol.

Temores russos

A maioria da população na República Autônoma da Crimeia é russa e, desde a recente troca de poder em Kiev, boa parte dela fala de uma conspiração do Ocidente contra o Leste Europeu. O ativista Alexei, de cerca de 50 anos, acredita que ele e seus companheiros precisam defender a "civilização russa" contra os nacionalistas ucranianos.

Ele considera especialmente ameaçador o grupamento ucraniano Setor de Direita, que estava bem ativo na Praça da Independência (Maidan) de Kiev. "Eles dizem que precisam lutar contra nós, russos, e os judeus. Devemos assistir a isso de braços cruzados?", questiona o ativista.

Muitos dos russos que se reúnem na praça em frente ao Parlamento da Crimeia temem, sobretudo, por seus direitos e por seu idioma – apenas há pouco elevado a língua regional pelo ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovytch. "Cresci na antiga União Soviética, minha língua é o russo", ressalta Dimitri, na faixa dos 30 anos de idade. Ele critica o fato de a nova maioria do Parlamento em Kiev ter anulado a lei do idioma.

Dimitri está convencido de que, com o novo governo ucraniano, não haverá um caminho comum. "Eles estão trazendo o nacionalismo e o caos. Eles tentam gerar a discórdia entre gente de diferentes religiões."

O que está acontecendo agora na Crimeia é apenas uma reação de defesa, diz. "Quem começou isso foram os três cabeças vazias: o Oleh Tyahnybok [presidente do partido de extrema direita Svoboda], o [primeiro-ministro] Arseniy Yatsenyuk e esse lutador, o Vitali Klitschko [líder do partido pró-europeu Udar]", opina o manifestante.

Tártaros contra a independência

Tanto Dimitri quanto Alexei garantem que não há qualquer conflito entre os grupos étnicos da Crimeia. No entanto, as imagens de confrontos entre russos e tártaros, transmitidas pela televisão nesta semana, desmentem a afirmação.

Os tártaros – que o ditador soviético Josef Stalin chegou a extraditar para a Ásia Central, na década de 1940 – respondem por 14% da população da Crimeia. De acordo com Leyla Muslimova, integrante da representação política dos tártaros denominada Medchlis, eles são os únicos povos verdadeiramente originários na península.

Para os tártaros, a elaboração de um referendo para definir a situação da península soa como uma conspiração russa. Eles criticam que o governo em Kiev simplesmente se cale, quando no parlamento em Simferopol pratica-se abertamente o separatismo.

Apoio ucraniano ao Euromaidan

Em contrapartida, os tártaros e os ucranianos parecem estar se dando muito bem. Diferentemente dos russos, que defendem a independência da península, ambos os grupos defendem que a Crimeia continue pertencendo à Ucrânia.

Os ucranianos, porém, são minoria na península. Muitos apoiaram as recentes manifestações pró-europeias em Kiev. Entre eles, Andrei Chekun, coordenador do movimento Euromaidan da Crimeia, que desde o início deu apoio aos protestos na capital ucraniana.

Ele lamenta que grupos pró-russos tenham frequentemente atrapalhado seu movimento. "Fomos chamados de os traidores da Crimeia. Havia vídeos difamatórios sobre a gente, que eram mostrados em estabelecimentos públicos e em ônibus", conta Chekun em entrevista à Deutsche Welle.

O ativista considera infundado o medo da população de origem russa de que a troca de poder em Kiev possa tirar a autonomia da península. Ele acredita que Moscou está por trás dos últimos distúrbios na península, e que as forças pró-russas na Crimeia se deixaram instrumentalizar pelo Kremlin.

Medo de escalada de violência

Diante dos distúrbios ocorridos nos últimos dias, alguns moradores da Crimeia temem que possam eclodir conflitos armados. "Não descartaria uma guerra neste momento, mas não por causa dos protestos. Isso é tudo cortina de fumaça. Na verdade, a questão aqui são os grandes interesses militares e econômicos", afirma o advogado Ivan, de idioma russo.

"Não se deve ter receio nenhum. Aqui não haverá guerra, nem separação", garante uma empresária natural de Kiev. "Com esses truques tipo KGB [antigo serviço de inteligência soviético], Moscou quer garantir a sua base militar no Mar Negro. A Crimeia foi tomada como refém para que Kiev se comporte direitinho."

  • Autoria Mikhail Bushuev (msb)
  • Edição Augusto Valente
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