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Ibiza se une contra exploração de petróleo

por The Observer — publicado 22/06/2014 08h45, última modificação 22/06/2014 08h46
As águas ao redor da ilha nas Baleares são um patrimônio da humanidade
Pedro Armestre / Greenpeace / AFP
Ibiza

O protesto do Greenpeace em Ibiza: "Petróleo não"

Por Adam Vaughan, em Ibiza

Ibiza é mais conhecida pela cena noturna com DJs famosos como Pete Tong e Fatboy Slim, uma multidão de celebridades internacionais e festas incessantes, mas também abriga dois parques nacionais, ambientalistas que vivem com energia solar e é considerada de tal importância ecológica e cultural que a ONU nomeou a ilha no arquipélago das Baleares e seu entorno um sítio de patrimônio mundial.

Hoje, pessoas com interesses nos dois campos estão se unindo diante da perspectiva de exploração de petróleo a vários quilômetros do litoral, nas águas reluzentes do Mediterrâneo, onde vive a Posidonia oceânica, uma alga marinha gigante que só é encontrada na Europa. Baleias, golfinhos e tartarugas estão entre as espécies avistadas no Mediterrâneo ao redor de Ibiza.

Na semana passada, uma multidão se reuniu no porto principal da ilha não para entrar no clube chique do momento, mas com a intenção de fazer um passeio no Rainbow Warrior. O navio do Greenpeace chegou à ilha na quarta-feira 11 para unir a oposição sob uma bandeira que dizia simplesmente: "Petróleo não".

A empresa de exploração de petróleo escocesa Cairn Energy, cujos planos de procurar petróleo no Ártico a transformaram em alvo de ativistas verdes no passado, diz que embora tenha licenças para explorar petróleo no golfo de Valência, a noroeste de Ibiza, qualquer teste sísmico ou perfuração de poços de teste está muito distante. A companhia aguarda uma decisão sobre a avaliação de impacto ambiental feita por autoridades espanholas no último verão, que vai determinar se pode continuar. O governo diz que a Espanha importa mais de 99% de seu petróleo e gás, com grande custo, e que deve garantir a segurança energética.

Em fevereiro, mais de 10 mil pessoas marcharam pela cidade de Ibiza e cerca de 60 mil assinaram uma petição contra a exploração na região. Vinte pessoas posaram nuas cobertas por um imitação de petróleo, em uma obra de arte performática. A batalha foi parar na internet, com uma blitz de mídia social feita pelas celebridades que frequentam a ilha, incluindo as cantoras Dannii Minogue e Sophie Ellis-Bextor.

"Sou totalmente contra isso, completamente. Sim, é egoísta dizer 'somos contra' e depois usar carros e telefones, e não ser contra isso na África e em outros lugares. Mas este é nosso território. Não posso lutar pela África, por isso tenho de lutar aqui. Nós realmente não precisamos de petróleo", diz a moradora Ida Kreisman, que tem uma banca de bijuterias.

Rebecca Gil, que trabalha durante o verão em uma loja de roupas em Ibiza, diz que reconhece a necessidade de crescimento econômico da Espanha, mas explorar petróleo não é a abordagem certa. "Entendo o argumento a favor, mas não é a solução. A promessa de dinheiro do petróleo é uma grande mentira."

Uma pesquisa aleatória com garçons, motoristas de táxi, funcionários de hotel e artistas de rua revelou que todos são aparentemente contra essa perspectiva. "Eles estão loucos. É uma ilha linda. Isto é um paraíso", diz o camelô Juan Sanchez, à sombra da grande muralha medieval que cerca a catedral no alto do morro.

Até os políticos locais ficaram surpresos com o grau de unanimidade. "É a primeira vez que as pessoas falam em uníssono contra um projeto desse tipo. Não me lembro de outro. Isto é o início de alguma coisa", diz Vicent Serra, presidente do governo local da ilha, o Consell de Ibiza. Serra é membro do Partido Popular, que está no poder em Madri e defende a exploração de petróleo, mas ele diz que põe Ibiza em primeiro lugar. "Sou contra a prospecção de petróleo aqui. Fui votado para representar a população deste lugar."

Jaume Ferrer, seu homólogo em Formentera, uma ilha próxima com 212 quilômetros quadrados, é igualmente franco. "Sentimo-nos ameaçados, atacados, porque o turismo é a parte principal de nossa economia. O turismo se baseia em nossa conservação do meio ambiente. Nós dizemos não."

José Ramón Bauzà, presidente das ilhas Baleares – Mallorca, Menorca e Ibiza – disse a milhares de manifestantes no início deste ano: "Nosso petróleo é o turismo".

O sentimento é repetido por Joan Tur, presidente da Pimeef, a federação de 1.700 pequenas e médias empresas de Ibiza. "Noventa por cento da economia aqui é o turismo. A ilha é uma joia. Temos água pura e areia branca, somos cuidadosos com o meio ambiente. Não podemos assumir o risco de ter um incidente. Até o fato de ter uma plataforma de petróleo [próxima] significaria um valor menor para a ilha", diz ele.

O valor natural da ilha é evidente quando se viaja ao redor dela. A Posidonia, planta floral comumente chamada de capim-de-netuno, cria uma pradaria submarina de 5 milhas ao sul de Ibiza. Os conservacionistas dizem que ela fornece um local importante para os peixes procriarem e tem uma função ecológica ao limpar a água.

"A Cairn está querendo explorar petróleo em profundidades de 1.000 a 1.500 metros, o que significaria que sua plataforma tem as mesmas características de Deepwater [Horizon, a fonte do vazamento de petróleo da BP em 2010]. Se houvesse um vazamento, seria o 'problema das Baleares' por causa das correntes", diz Pilar Marcus, uma ativista do Greenpeace, falando a bordo de um dos botes infláveis do grupo enquanto dois ativistas na água seguravam cartazes que diziam: "Não à prospecção".

Em outros pontos da Espanha a exploração de petróleo está mais avançada. Em 2012 o governo restaurou a autorização de 2001 da companhia de petróleo espanhola Repsol para explorar petróleo nas ilhas Canárias, que tinha sido cancelada em 2004 pela Suprema Corte depois de processos legais. A medida provocou indignação de ambientalistas e moradores que tinham combatido os planos anteriormente. No final do mês passado, uma reavaliação ambiental deu à Repsol a luz verde de Madri para seguir com sua exploração ao largo de Lanzarote e Fuerteventura, ambos populares destinos de férias britânicos.

Cerca de mil pessoas protestaram em Telde, na Grande Canária, durante um discurso público do ministro da Energia e Turismo, José Manuel Soria, que apoia a prospecção. A polícia antimotins foi mobilizada e gravações em vídeo mostram um oficial agredindo um manifestante, levando a uma investigação de possível assalto.

Wim Geirnaert, um ativista do grupo Salvem as Canárias, disse que o governo não está escutando os moradores. "Ninguém quer essas plataformas de petróleo. A principal preocupação é que nossa indústria se baseia apenas no turismo. A outra é com a vida silvestre -- se você navegar onde eles têm licença para explorar, às vezes vê centenas de golfinhos."

Muitos nas Canárias temem que pesar de as Baleares poderem ter um alívio porque o Partido Popular predomina na ilha e está no governo em Madri, as Canárias – onde o partido Coalizão Canária detém o poder – não. "Há uma preocupação de que eles [o governo] encontrem uma desculpa nas Baleares, como que é 'perto demais da costa', mas não nas Canárias", disse Geirnaert.

Mas um membro do Ministério da Indústria disse ao Observer que a Espanha tem de cuidar da produção de petróleo em casa. "A Espanha é extraordinariamente dependente de importações de hidrocarbonetos: compramos no exterior 99% do petróleo que consumimos, o que significa uma conta de cerca de 100 milhões de euros por dia. Devemos pelo menos saber que tipo de recursos minerais temos".

Eles acrescentaram que era a primeira vez que uma avaliação ambiental tinha sido exigida antes do início de trabalhos sísmicos. "O governo espanhol endureceu as leis ambientais para encontrar hidrocarbonetos."

Um porta-voz da Aciep, associação que representa empresas de exploração de petróleo na Espanha, disse que compreendia as preocupações, mas acrescentou que a indústria de petróleo no país é segura e madura, com leis duras para o setor.

"Nas ilhas Baleares, é claro que o turismo é muito importante. Pode haver pessoas preocupadas com o impacto sobre o turismo e a indústria pesqueira, mas temos de dizer que não haverá impacto. É possível ter ambos e nenhum impacto, como demonstrou a Noruega. E também se trata de exploração, e não de extração, o que é simplesmente um barco no mar", disse o porta-voz.

A operação da Cairn Energy na Espanha insiste que a exploração de petróleo na região não é notável, afirmando que mais de 200 poços de petróleo foram perfurados no Mediterrâneo espanhol nos últimos 40 anos. "A exploração no Mediterrâneo espanhol não é nova", diz seu folheto.

Em Ibiza, Kreisman, que fecha sua barraca onde vende pulseiras, continua cética. "Tudo é seguro até que deixa de ser. Quem diz que isso é seguro?"

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