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Eleições no Peru

Humalinha paz e amor

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/04/2011 09h57, última modificação 15/04/2011 14h17
Com menos cara de Chávez e mais de Lula, a esquerda parece próxima de uma vitória eleitoral. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Humalinha paz e amor

Com menos cara de Chávez e mais de Lula, a esquerda peruana parece próxima de uma vitória eleitoral. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Ernesto Benavides/ AFP. Matéria publicada na edição 641 de 8.04.2011

Matéria publicada na edição 641 de 8.04.2011

Com menos cara de Chávez e mais de Lula, a esquerda parece próxima de uma vitória eleitoral

Em 2006, Ollanta Humala concorreu à Presidência do Peru com um perfil chavista (se não mais duro) e perdeu. Em 2011, vai de “Humalinha paz e amor”. Troca o vermelho pelo branco, usa o slogan “a esperança vencerá o medo”, escreve uma “carta aos peruanos” para acalmar as Reginas Duartes locais (na qual promete, entre outras coisas, manter os compromissos com as empresas privadas e a independência do Banco Central) e recorre à assessoria dos petistas Luís Favre e Valdemir Garreta e do marqueteiro de Lula na reeleição de 2006, João Santana.

O nervosismo dos especuladores e as oscilações das bolsas e dos títulos de dívida, à medida que sua vitória parece mais provável, repetem o alarmismo do Brasil de 2002. As pesquisas publicadas em 3 de abril, última data permitida antes das eleições do dia 10, deram a Humala o primeiro lugar, com 25% a 30% dos votos e significativa diferença em relação ao segundo colocado, o ex-presidente Alejandro Toledo, nas pesquisas IMA e CPI, e Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, para os institutos Datum, Ipsos e Imasen. Sua aliança deve também ter a maior bancada parlamentar, ainda que em minoria.
Em 2006, Humala conseguiu 30,6% dos votos válidos ante 24,3% do atual presidente Alán García e também a maior bancada do Congresso, mas o segundo colocado venceu o segundo turno, como também aconteceu em 1990, quando Vargas Llosa, vencedor do primeiro turno, foi derrotado por Alberto Fujimori no segundo. Nesses dois casos, os derrotados se uniram contra o vencedor do primeiro turno que estava na ponta direita de seu espectro político no caso de Vargas Llosa, e na esquerda no de Humala.

O cenário pode se repetir, mas há diferenças: em 2006, Humala chegava às vésperas do primeiro turno em queda em relação a março (de 27% a 32% para 24% a 28% das preferências) e agora está em ascensão (tinha 9% a 11% em dezembro e 18% a 22% no fim de março). Hugo Chávez trocava insultos com García e ameaçava romper relações com o Peru se ele fosse eleito, enquanto nesta eleição esforçou-se prodigiosamente para manter a boca quase fechada. E se as pesquisas do final do primeiro turno de 2006 indicavam que Humala perderia no segundo turno, as de agora são ambivalentes.

Segundo a última pesquisa Ipsos para o segundo turno, Humala venceria Pedro Pablo Kuczynski, o PPK (ex-ministro de Toledo conhecido pela atuação em favor de petroleiras e mineradoras transnacionais), empataria com Keiko, mas ficaria um pouco atrás de Toledo ou do ex-prefeito de Lima Luis Castañeda, que em dezembro era favorito e agora é o último dos cinco principais candidatos. Este insiste em que, se não for ao segundo turno, Humala vencerá, enquanto PPK, que subiu à sua custa, assegura que Humala prefere Toledo no segundo turno. Partidários do próprio Humala dizem, porém, preferir PPK e ver Toledo como o adversário mais difícil.

Faz mais sentido: PPK é o candidato mais programaticamente neoliberal. Facilitaria a Humala polarizar a disputa e buscar apoio no centro. Castañeda tem um perfil político semelhante, mas preferiu apresentar-se como “trabalhador” e “tocador de obras”, o que lhe deu menor rejeição no início, mas hoje, com a campanha mais polarizada, significa menos entusiasmo por parte dos eleitores. Além disso, ele foi sucedido na prefeitura de Lima pela prefeita de centro-esquerda Susana Villarán, que contesta sua imagem de honestidade e eficiência com implacáveis auditorias de suas obras. Toledo e Keiko são vistos como neoliberais mais pragmáticos ou “centristas”, mas, se os Fujimori têm a preferência de uma porção autoritária do eleitorado pelos “chinos de mão forte”, que supostamente combaterão o crime como o fizeram com a guerrilha, também são rejeitados pela maioria.

Aos olhos de todos, Keiko é a “laranja” do pai, Alberto, e tratará de libertá-lo da prisão se for eleita, embora o negue (Castañeda, em busca do voto fujimorista, prometeu explicitamente indultá-lo). O pai foi condenado a 25 anos por corrupção, espionagem ilegal e crimes contra a humanidade. A maioria deles em colaboração com seu ex-braço direito Vladimiro Montesinos, que começou a cair quando se envolveu em um milionário contrabando de armas para as Farc contra a vontade dos EUA. Pouco depois, um jornalista peruano divulgou os “vladivídeos” feitos por Montesinos nas instalações do Serviço de Inteligência, no qual subornava líderes empresariais, políticos e de empresas de comunicação, o que levou à queda de ambos. Apesar dos esforços de FHC, que meses antes vetara as sanções ao Peru propostas pela OEA por causa da fraude declarada na terceira eleição de Fujimori (contra Toledo).

Fujimori foi julgado culpado pelo assassinato de 15 inocentes em um churrasco de 1991 (confundido com uma reunião esquerdista por seu esquadrão da morte “Colina”), pelo sequestro e morte de nove estudantes e um professor da Universidade La Cantuta no ano seguinte e pelo sequestro e prisão ilegal do jornalista Gustavo Gorriti (correspondente do El País) e do empresário Samuel Dyer, supostos colaboradores do Sendero Luminoso. Isso é só uma pequena amostra do que foram os milhares de mortos, desaparecidos e sequestrados na “guerra suja”. No seu governo também se viu a esterilização forçada, de caráter eugenista, de 300 mil mulheres pobres, na maioria indígenas, com financiamento da Usaid, do Fundo de População das Nações Unidas e da Nip­pon Zaidan, fundação japonesa comandada por seu amigo Ayako Sono.

Ao contrário de Keiko e Castañeda, Toledo não tem apoio do presidente García nem de seu partido, mas estes estão tão impopulares que isso não é grande desvantagem. O Apra foi o maior partido peruano, mas deve conseguir 7% a 10% dos votos, o menor porcentual entre os seis principais blocos parlamentares. Sua candidata presidencial, Mercedes Aráoz, desistiu em janeiro com meros 3% das preferências.

Toledo tem amplo apoio empresarial: é o que recebe mais doações de campanha – de acordo com a lista oficial encabeçada pelas empreiteiras brasileiras Queiroz Galvão (pelas subsidiárias Recife SAC e Galvão Engenharia) e Camargo Corrêa – seguido de longe por Castañeda e Humala. Terminou o mandato anterior (2001-2006) muito impopular (menos de 10% de apoio), mas há quem queira lhe dar uma segunda chance. Como foi dada a Alán García, que termina o segundo mandato (2006-2011) com baixa popularidade, como já acontecera no primeiro (1985-1990). Aliás, essa tem sido a sina de todos os governos peruanos das últimas décadas – aos quais todos os candidatos, exceto Humala, estão ligados em maior ou menor grau.

Pode parecer um paradoxo, pois o país tem tido, ao menos desde o início dos anos 1990, um crescimento econômico entre os mais altos da América Latina. De 2003 a 2010, o crescimento médio anual do PIB foi de 6,4%, ante 4,0% no Brasil. García, em entrevista no ano passado, queixou-se do seu povo “naturalmente tristonho e desconfiado”, o que atribuiu às invasões dos “chavins, incas e espanhóis” e suspirou por não governar os brasileiros que “têm outro tipo de raça, de alegrias e de sol”, ao aludir à sua popularidade de melancólicos 29%, ante os 87% do ex-colega brasileiro – mesmo se o crescimento econômico médio do Brasil, em seus anos de governo, tenha ficado aquém do peruano. Para não falar da Venezuela, onde o crescimento tem sido baixo (4,5% na média 2003-2010, mas negativo nos últimos dois anos) e a inflação alta, mas o presidente Chávez tem uma popularidade de 50% e continua à frente nas pesquisas para a eleição presidencial de 2012.

Não faltou quem apontasse que o problema não era raça nem sol, mas os magros benefícios do crescimento peruano para as regiões e as classes menos favorecidas que, no Brasil, tiveram um crescimento “chinês”. De 1999 a 2011, o valor do salário mínimo subiu de 81 a 330 dólares no Brasil e de 105 a 216 no Peru, onde a informalidade é maior (73%, ante 28% no Brasil). No Peru, a previdência social cobre só 17% dos trabalhadores e é quase inexistente fora das grandes empresas e do serviço público (no Brasil, 67%) e praticamente não há serviço de saúde gratuito, salvo para crianças que frequentem a escola.

Apesar de elevadas taxas de crescimento, o desemprego e o subemprego também são altos. Nas regiões rurais, 60% a 70% continuam na pobreza e as tensões crescem. Registraram-se, em média, 234 conflitos sociais por mês no governo de García, que fizeram 80 mortos e 1,2 mil feridos. O mais grave foi o confronto com indígenas de Bagua, em junho de 2009, pela privatização em massa de terras da Amazônia, cujas repercussões nacionais e internacionais levaram à queda de todo o ministério.

Se o crescimento econômico do Peru é real, mas não chega às maiorias, e isso é a principal causa de tensão social e insatisfação política, parece lógico que se tente uma correção de rumo na direção de menos favorecimento aos investimentos transnacionais e mais bem-estar social, como aquela que Humala, entre os cinco candidatos viáveis, é o único a propor. Até o capital estrangeiro deveria compreender que a democracia e a paz social são indispensáveis para a prosperidade no longo prazo.

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