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"Hong Kong entra em período de turbulência política", diz especialista

por Deutsche Welle publicado 30/09/2014 09h42
Uso de gás lacrimogêneo e subsequente escalada dos protestos marcaram uma virada no movimento pró-democracia. Situação pode evoluir para ainda mais violência, afirma cientista político
PHILIPPE LOPEZ / AFP
Hong Kong

Manifestantes pró-democracia têm sido alvo de gás lacrimogêneo e spray de pimenta pela polícia

Os protestos que pedem mais democracia em Hong Kong, inflados após a dura repressão policial do domingo 29, podem estar jogando o território num período de turbulência política, opina o cientista social Sonny Lo.

Segundo o especialista do Instituto de Educação de Hong Kong, o uso de gás lacrimogêneo e spray de pimenta pela polícia é uma prova de que o governo regional adotou uma posição mais linha dura.

"O governo deveria avançar com propostas de reformas o mais rápido possível", afirma.

Deutsche Welle: As autoridades usaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes, algo que raramente ocorre na região. Isso marca uma virada no movimento pró-democracia em Hong Kong?

Sonny Lo: Definitivamente, o uso de gás lacrimogêneo e spray de pimenta pela polícia, para lidar com os manifestantes pró-democracia, é uma prova de que o governo em Hong Kong adotou uma posição mais linha dura. Isso pode desencadear mais protestos e confrontos nos próximos dias e semanas.

A situação política em Hong Kong tornou-se bastante volátil e instável. Eu acho que isso pode até mesmo afetar como as agências internacionais avaliam as perspectivas econômicas de Hong Kong, ao menos no curto prazo. Assim, definitivamente, o uso da força contra intelectuais, estudantes e manifestantes pró-democracia no último domingo foi um sinal de que Hong Kong está entrando agora num período de turbulência política.

DW: Existem sinais de que o governo de Hong Kong esteja disposto a dialogar com os manifestantes?

SL: Até agora não houve qualquer sinal do governo. As autoridades de Hong Kong enviaram somente negociadores da polícia para conversar com os manifestantes. Em última análise, as autoridades responsáveis pelas reformas políticas precisarão ter um diálogo direto com os líderes do protesto, caso contrário a agitação vai continuar por semanas e meses, e isso certamente vai prejudicar as perspectivas econômicas de Hong Kong. Hoje, vimos o mercado de ações reagir negativamente ao caos político e ao impasse.

DW: Quais as dificuldades encontradas pelas autoridades para conter a situação

SL: Acredito que os organizadores dos protestos estão adotando táticas de guerrilha ao mover os manifestantes para fora do distrito central em direção a áreas congestionadas. Para se opor a isso, a polícia terá que lidar com uma situação mais difícil, que poderá escalar dependendo de como as autoridades reagirem.

Se a polícia usar mais força, qualquer acidente ou tratamento incorreto dos manifestantes seria desastroso. Esperamos que não haja morte durante os protestos; caso contrário, isso vai provocar um movimento de desobediência ainda maior em Hong Kong. Este, por sua vez, poderia mergulhar o território num longo período de incerteza política e crise econômica.

DW: O que se pode fazer para acalmar a situação?

SL: Os governantes de Hong Kong deveriam tentar convencer a polícia a adotar uma atitude mais contida. O governo deveria avançar com propostas de reformas o mais rápido possível e garantir que os candidatos democráticos para a eleição do chefe do Executivo [de Hong Kong] não sejam discriminados.

Eles também precisam ter um diálogo com líderes pró-democracia, direta ou indiretamente por meio de intermediários. Existem relatos de que ao menos um membro do Conselho Executivo próximo ao chefe do Executivo exigiu que o comissário de polícia explicasse ao Conselho por que ele permitiu o uso da força na noite de domingo. Portanto, parece que há algumas preocupações entre as autoridades governamentais sobre o que está acontecendo em Hong Kong. Mas temos que ver se a voz das autoridades a favor de um diálogo vai predominar.

DW: Existe qualquer sinal de que Pequim pode intervir?

SL: Pequim não quer intervir. Sua posição é clara: a decisão do Comitê Permanente não pode ser mudada. É lei, e Hong Kong tem que respeitar.

  • Autoria Gabriel Dominguez (ca)

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