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Homem do destino

por Gianni Carta publicado 06/04/2013 07h23, última modificação 06/06/2015 19h22
Dividido entre identidades nacionais, carreiras e uma complexa relação com o pai, Andreas Papandreou tornou-se o primeiro premier socialista da Grécia
Papandreou

Stan Draenos evoca uma figura decisiva na história recente da Grécia e do mundo em plena Guerra Fria. Foto: Keystone/ Getty Images

Em Andreas Papandreou: The Making of a Greek Democrat and Political Maverick (I.B. Tauris, 256 páginas, US$ 49), Stan Draenos retrata um homem dividido entre identidades nacionais, carreiras acadêmica ou política e uma complexa relação com um pai muito popular. Pela biografia, transparece que os dilemas de Papandreou (1919-1996) têm relação estreita com o contexto político a envolver os Estados Unidos e a Grécia durante a Guerra Fria. Em uma entrevista em Atenas, Draenos, Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de York (Toronto), informa como Papandreou respondeu em um questionário revelador: “Meu primeiro interesse era a ação, a política”. Se não pudesse seguir essa carreira, seria um acadêmico, e caso essa opção também não desse certo, “iria velejar”.

Escrito em um estilo fluido, Andreas Papandreou pode ser interpretado de diferentes ângulos. Graças à Doutrina Truman, concebida em 1947 inicialmente para apoiar a Grécia e a Turquia a conter a União Soviética, os políticos linha-dura norte-americanos tiveram um significativo impacto sobre a monarquia grega, bem como sobre os militares daquele -país e sobre George Papandreou, o pai centrista de Andreas, tido como aquele capaz de manter sob controle os comunistas. Na verdade, no pleito de 1966, George, contra a vontade do filho, capitulou diante das pressões norte-americanas e palacianas e forjou elos com a dominante legenda direitista, tática seguida, em 1967, pelo golpe de Estado apoiado pelos EUA.

Ao analisar decisões de Andreas como a ruptura com o pai em meados dos anos 1960, o leitor envereda pelo reino da psicobiografia. Historiador anos a fio da Andreas Papandreou Foundation, Draenos, que esteve em contato com o ex-premier, está ciente de algo fundamental: nesta área espinhosa de examinar o quadro psicológico do biografado, o historiador deve se ater aos fatos e evitar a especulação.

Jovem, Andreas viu a impotência do movimento de resistência contra o fascismo na Grécia, talvez uma das razões a levá-lo a emigrar para os Estados Unidos. Houve outros “dolorosos conflitos não resolvidos”, anota, sem se aprofundar, o biógrafo. Nos EUA, o jovem Papandreou se dedicou a uma carreira de sucesso acadêmica aplaudida por intelectuais como John Kenneth -Galbraith. Ele se naturalizou norte-americano em 1944, e seu casamento com a americana Margaret Chant cimentou a nova identidade nacional dele. Dois anos antes do casamento, Andreas disse que sentia “nostalgia (pela Grécia), mas não desejo de voltar”.

Ao presidir um departamento da Universidade da Califórnia, em Berkeley, ficaria claro o fato de Andreas ser o político, ou “homem de ação”, cujo papel de início havia rejeitado. De acordo com uma lei aprovada em 1950, todos os professores do estado da Califórnia tiveram de assinar um documento de lealdade anticomunista, que incluía uma cláusula segundo a qual eles tinham de prestar informações sobre as tendências políticas de seus alunos. Andreas conseguiu lidar com os legisladores reacionários, e, ao mesmo tempo, apoiou os colegas demitidos que, através de ações judiciais, recuperavam seus empregos. Enquanto isso, votava contra a lei. Como o pai, soube ser um pragmático, mas, ao contrário de George Papandreou, nada tinha de moderado, embora ocasiões surgissem para exigir posturas contemporizadoras.

   

Andreas nunca falou oficialmente sobre a Doutrina Truman. No entanto, quando votou pela primeira vez para presidente dos EUA, em 1948, seu candidato foi o esquerdista Henry Wallace, que deixou o gabinete de Truman exatamente porque se opôs à doutrina do então presidente. Ainda assim, ao obter bolsas de pesquisa na Grécia, com a provável intenção de sondar uma possível entrada na política de seu país de origem, Andreas escolheu posições ideológicas moderadas pelo menos por duas razões.

Primeiro, tratava-se de confirmar a percepção do governo norte-americano a respeito dele: Andreas era um norte-americano que poderia substituir a liderança do pai no Partido da União do Centro. Em segundo lugar, ele era o filho do avô de política grega, uma “faca de dois gumes”, ou, em outras palavras, “um rival para eclipsar bem como um modelo a imitar”. Terreno fértil para a semeadura de ciúmes. Konstantinos Mitsotakis, o futuro premier que esperava ser o sucessor de George Papandreou, descreveu Andreas como um “arrivista” empenhado em “explorar o pai”.  Alguns o chamavam de norte-americano, outros suspeitavam que ele também fosse um espião da CIA.

Como dita a sociedade patriarcal grega, George, que sempre tinha visto no filho o substituto perfeito para a dinastia por ele estabelecida, tentou atraí-lo de volta dos EUA. Descobrimos, no livro, um homem emotivo sujeito a distúrbios psicossomáticos. Em 1953, por exemplo, -Andreas -padeceu de terríveis dores mandibulares após uma reunião de família, em Atenas. Em outras ocasiões, teve problemas intestinais e até sofreu uma grave doença.

Após a posse do pai como primeiro-ministro, em 1964, Andreas foi eleito no Parlamento e se tornou assistente de primeiro-ministro. Ele devolveu o passaporte norte-americano, mudou a narrativa e assim fez crescer os temores de que politicamente se afastava da posição centrista do pai. Um dos slogans de Andreas, “a Grécia para os gregos”, parecia fazer sentido em um país que esteve sob tutela britânica e norte-americana desde a Segunda Guerra Mundial.

O “nacionalismo com orientação social reformista” de Andreas, argumenta Draenos, esteve em sintonia com aqueles tempos, visto que centenas de milhares de gregos deixavam o país onde prevalecia  “um sentido de alienação”. O novo discurso de Andreas, que incluía os resistentes de 1940,  “militantes comunistas excluídos da narrativa do establishment conservador”, foi essencial para a volta de Andreas às suas raízes gregas.

Atualmente, o reacionário grupo Aurora Dourada, com bancada parlamentar, usa as mesmas palavras para incitar o espancamento de estrangeiros. O nacionalismo, no caso, exaspera a  extremismo.

De todo modo, Andreas não foi o parceiro “americano” durante a Guerra Fria. Ele se opôs ao plano dos EUA para a divisão de Chipre entre gregos e turcos, e apesar de ser nacionalista, ele sensatamente acreditava que, me diz -Draenos, “o melhor interesse do helenismo era manter Chipre independente e unido”. Além disso, ao enxergar no establishment e na intervenção norte-americana do governo grego como as ameaças reais – e não uma aliança com os comunistas –, Andreas revelou não ser o filho que George esperava para substituí-lo.

Andreas era, como Draenos propõe, “um homem do destino”. Nos termos de Antonio Gramsci, tratava-se do “homem carismático” que aparece quando a classe hegemônica perde a confiança de seus cidadãos. Em 1974, Andreas fundou o primeiro Partido Social Democrático, o influente Pasok. E ele foi o primeiro premier grego socialista, eleito em 1981.

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