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Michel Rocard

Hollande irá muito longe

por Gianni Carta publicado 11/05/2012 15h06, última modificação 06/06/2015 18h59
Um grande socialista aponta a dimensão global da eleição francesa
Rocard

"É preciso encontrar uma fórmula para criar maior crescimento. O alvo não é polarizar, e sim definir uma ideia comum", diz Rocard

Michel Rocard, o mais popular premier socialista francês da história moderna, julga François Hollande, o presidente eleito na França capaz de lançar uma campanha para promover o crescimento em uma União Europeia até pouco tempo atrás adepta da austeridade fiscal como único meio para tirar o bloco de sua maior crise econômica. Hollande, 57 anos, quer renegociar o tratado orçamentário aprovado pelos integrantes da UE, proposto pelo derrotado Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã, Angela Merkel, dupla favorável ao rigor fiscal e mais conhecida como Merkozy.

“Hollande não poderá renegociar um tratado aprovado, mas poderá adicionar complementos”, diz Rocard em entrevista a CartaCapital. A própria Merkel, sustenta Rocard, tem interesse em modificar seus planos, visto que a economia alemã dá sinais de estagnação no último trimestre. É preciso chegar a um consenso. E nesse quesito o discurso coletivo do Partido Socialista é unânime e homogêneo. “Trabalhamos na economia de mercado para melhor gerir o capitalismo”, diz Rocard. “Mas não há varinha mágica.”

CartaCapital: A França votou em Hollande, que acredita em relançar o crescimento sem desrespeitar o tratado orçamentário aprovado em 30 de janeiro por todos os países da UE. A proposta de Hollande de “gerar crescimento” é promessa eleitoral ou ele irá até o fim?
Michel Rocard: Ele irá muito longe. Mas toda a Europa neste momento tem um crescimento insuficiente. Não somente políticas de austeridade implementadas na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália provocaram recessões, mas o crescimento em todos esses países está em declínio. E o crescimento na Alemanha no último trimestre também estagnou. Mas, claro, é preciso pagar as dívidas para que os mercados financeiros continuem a ter confiança. Ao mesmo tempo, não podemos diminuir as despesas públicas porque elas são o financiamento do futuro. Certos investimentos são necessários. Crucial agora é chegar a um consenso e assumi-lo. O caminho para chegar a ele é difícil.

CC: Os aliados naturais de Hollande nas legislativas de junho são os radicais de esquerda, os sindicatos, os ecologistas e os comunistas. A esquerda tem chances de vencer as legislativas?
MR: Seria surpreendente se a esquerda perdesse. Temos um sistema de escrutínio de dois turnos que leva à maioria, à concentração. Além disso, o pleito presidencial demonstrou uma necessidade de mudanças. Não há razão para os eleitores mudarem de opinião com tanta rapidez. É uma tradição francesa: nas legislativas a seguir uma eleição presidencial os cidadãos optam por uma maioria parlamentar fiel ao presidente eleito. Mas não haverá uma grande maioria de esquerda. A eleição presidencial foi um movimento claro à esquerda, no entanto moderado.

CC: Há quem diga que Merkel espera uma derrota dos socialistas nas legislativas de junho, pois isso colocaria em xeque o projeto de Hollande de gerar crescimento. O senhor acredita no fim da austeridade imposta pela dupla Merkozy?
MR: Não devemos endurecer e brutalizar as coisas dessa maneira. A senhora Merkel espera as legislativas e isso me parece compreensível. Dito isso, ela sabe que as exportações alemãs estão ameaçadas. Ela precisa encontrar uma solução. Hoje, os vocabulários são contraditórios, mas até o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, demonstra sua preocupação em estimular o crescimento. Um novo lance de investimentos, uma melhora do clima bancário e o subsequente financiamento pelos bancos da economia são possíveis. As políticas públicas não podem contradizer essas possibilidades.

CC: Hollande falou em uma renegociação do tratado orçamentário com Merkel...
MR: É difícil renegociar um texto que acaba de ser assinado, mas podemos imaginar que haverá complementos. Isso porque faz pouco tempo que a ameaça da recessão tomou uma dimensão mais forte. E a Alemanha, repito, está na mesma situação de outros países europeus. É preciso se preocupar em encontrar uma forma institucional e procedural para criar maior crescimento. O objetivo não é polarizar, e sim definir uma ideia comum.

CC: Mas a Europa atravessa uma crise, tem uma enorme dívida, o nível de desemprego é alto, a recessão ameaça. Qual seria a fórmula para promover o crescimento?
MR: Não há uma varinha mágica nem uma fórmula única. Mas, visto que o crescimento diminui, é preciso lidar com o problema. Por exemplo, acelerar a qualidade e a produção de automóveis elétricos para que as pessoas se transladem de forma mais econômica é imperativo. Ao mesmo tempo, haverá redução do efeito estufa, de ácido carbônico. E utilizaremos menos petróleo. Este, diga-se, será um mercado enorme. No caso dos carros elétricos, não é possível deixar que a economia de consumo nos proíba de fornecer os necessários meios suplementares. É necessário encorajar essa e outras atividades porque elas criam empregos e assim geram atividade econômica. Por tabela, é também um meio para pagar a dívida.

CC: Assim como Draghi, do BCE, Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, parece também ter descoberto toda a importância do crescimento. Uma descoberta tardia, não?
MR: A chave dessa história é a evolução da conjuntura. No entanto, o efeito das frases por ela pronunciadas tem grande repercussão. Mas, atenção! No pensamento do senhor Hollande, o aspecto “poder aquisitivo” talvez seja mais importante do que para a senhora Lagarde e o senhor Draghi.

CC: O presidente eleito propõe, entre outros, impostos mais elevados para os ricos, mas ele não é contra a economia de mercado. A social-democracia venceu na presidencial?
MR: A França nunca teve uma verdadeira social-democracia. A social-democracia é uma referência na qual se verifica uma relação forte entre os partidos de esquerda ou de centro-esquerda com as organizações sindicais. Isso não existe na França. Mas nesta eleição presidencial desapareceu a rejeição do capitalismo e da economia de mercado. Por muito tempo essa rejeição foi o caso de uma influente metade da esquerda francesa. Podemos dizer que agora nos aproximamos da social-democracia na França, mas este país será sempre um caso diferente. De qualquer forma, a esquerda francesa está tomando uma responsabilidade na economia de mercado. E isso é novidade para a esquerda francesa.

CC: Acredita que Hollande poderá ser o líder desse movimento por maior crescimento na UE e menor austeridade para lidar com a crise europeia?
MR: Não é impossível. Mas o movimento destinado a evitar políticas de recessão que fazem muitos estragos na Europa será apoiado também pelos sindicalistas alemães, britânicos etc. O debate para lidar com a crise sem enfraquecer o crescimento não envolve somente nações.

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