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José Antonio Lima

Hamas celebra 25 anos ainda mais radical

por José Antonio Lima publicado 09/12/2012 09h00, última modificação 09/12/2012 09h22
Em visita a Gaza, líder do grupo no exílio prega destruição de Israel e defende a luta armada contra a ocupação
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Em Gaza, Meshal (o primeiro da esq. para a dir.) observa um garoto com uniforme militar e uma arma de brinquedo desfilar durante celebração dos 25 anos do grupo. Foto: Said Khatib / AFP

Após 45 anos sem pisar nos territórios palestinos ocupados, Kalhed Meshal, o líder do Hamas, esteve neste fim de semana na Faixa de Gaza, área controlada por seu grupo desde 2007. Meshal, de 56 anos (ele deixou a Cisjordânia com a família aos 11, após a Guerra dos Seis Dias), aproveitou o cessar-fogo com Israel e a autorização concedida pela Irmandade Muçulmana, agora governando o Egito, para cruzar a fronteira egípcia com a Faixa de Gaza. Consigo, Meshal levou um discurso de ódio.

Há três características do Hamas que Israel e boa parte da comunidade internacional condenam. O fato de o grupo ser antissemita, a pregação da destruição de Israel e a rejeição a todos os tratados de paz assinados até hoje por líderes palestinos. Em seu discurso, Meshal reforçou as duas últimas características de forma inequívoca.

"A Palestina é nossa do rio (Jordão) ao mar (Mediterrâneo), do sul ao norte. Não haverá concessões de uma polegada de terra. Nunca vamos reconhecer a legitimidade da ocupação israelense e, assim, não há legitimidade para Israel, não importa quanto tempo leve", afirmou Meshal em discurso na cidade de Gaza. A Palestina à qual Meshal se refere é a chamada Palestina histórica, onde estão hoje o Estado de Israel e os Territórios Palestinos Ocupados (Cisjordânia e Faixa de Gaza). Para Meshal, apenas esses territórios, que sobraram aos Palestinos após a guerra de 1967, são insuficientes. Israel deve deixar de existir.

"O Estado palestino de 1967 para o qual os negociadores palestinos trabalharam nos últimos dois anos foi morto por Israel. Precisamos de uma nova estratégia. Seguimos o caminho das negociações por 20 anos, sem ganhos. Primeiro deve vir a libertação, depois o Estado. O Estado será fruto da resistência, não das negociações", afirmou. Com essas palavras, Meshal está pregando a destruição de Israel. A "liberação de toda a Palestina", por meio da luta armada e da rejeição à diplomacia, continua a ser sua primordial causa.

Meshal não fez comentários antissemitas. Disse que a luta palestina não é travada contra os judeus, mas contra os sionistas, ideologia que estava na base da criação do Estado Judeu. Ainda assim, para muitos israelenses, defender o fim de Israel implica necessariamente em ser antissemita. Diante disso, o comentário de Meshal de que o Hamas não luta contra os judeus não servirá para amenizar em nada sua imagem em Israel.

Ao que tudo indica, o discurso de Meshal tem fins políticos. Até o recente confronto entre o Hamas e Israel, Meshal parecia ser um líder marginalizado. Seu papel importante na negociação do cessar-fogo, no entanto, o colocou novamente no centro político. Sua ambição é voltar de forma definitiva aos territórios ocupados (atualmente ele reside no Catar) e tornar-se líder de todos os palestinos.

Sinais desta possibilidade estavam no próprio discurso feito por Meshal. Ele afirmou que o Hamas é independente e luta em causa própria, e não com uma "procuração" do Catar, da Turquia ou, antes, da Síria. Mais importante, Meshal fez um apelo para que os palestinos de todas as facções se unam. A cisão entre o Hamas e o Fatah, iniciada em 2007, quando os dois partidos travaram uma guerra e dividiram o controle dos territórios, é motivo de vergonha para os palestinos. Ao promover um discurso de conciliação interna, Meshal tenta se posicionar como um possível líder da causa como um todo.

A fala bélica e anti-Israel de Meshal também pode ser entendida como um jogo eleitoral. A população da Faixa de Gaza, radicalizada pela ideologia fundamentalista do Hamas e pela opressão israelense, está vulnerável a esse tipo de discurso. O desespero provocado pela pobreza e pela violência e a falta de perspectivas cria um ambiente no qual o recurso à luta armada ganha ares de legitimidade e única alternativa. Na prática, a fala do líder do Hamas horroriza a população israelense, dá mais argumentos para a direita e a extrema-direita de Israel continuarem dominando a política local, e aliena governos que poderiam mediar a paz. Ao fazer este discurso Meshal está apenas contribuindo para que os palestinos continuam vivendo uma vida precária por muito tempo.

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