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Haitianos veem São Paulo como 'terra prometida'

por AFP — publicado 22/02/2012 14h54, última modificação 22/02/2012 15h01
Haitianos enxergam a capital paulista como uma terra de oportunidades, devido às obras da Copa do Mundo, e se dizem bem acolhidos
Haiti Brasil

Haitiano torcendo para o Brasil na Copa do Mundo em junho de 2010. Foto: ©AFP / Thony Belizaire

SÃO PAULO (AFP) - São Paulo, uma megacidade formada por sucessivas ondas de imigrantes, está abrindo as portas para os haitianos que fogem da economia arruinada na nação devastada pelo terremoto.

Não há dados oficiais sobre o número de haitianos morando na região metropolitana de 20 milhões de pessoas, mas sabe-se que pelo menos 4.000 chegaram ao Brasil pelas fronteiras da região norte do País, desde o terremoto de janeiro de 2010, que devastou o Haiti.

Em entrevistas à AFP, alguns haitianos exultantes por obter vistos de permanência depois da odisseia pela América do Sul, louvaram excessivamente o governo brasileiro e descreveram São Paulo como a "terra prometida."

"Eles fizeram muito por nós enquanto outros países como Peru, Bolívia, Equador, até os Estados Unidos, viraram as costas", disse Luckner Doucette, que chegou recentemente, depois de oito meses na região norte.

Doucette, de 31 anos, que deixou sua esposa de 27 anos na cidade de Manaus, disse que não recebeu ajuda alguma das autoridades e que não quer isso.

"Eles já fizeram o suficiente por nós. Eu falo português, estou na casa de amigos e estou muito confiante de que vou conseguir um emprego em breve na área da construção," disse à AFP.

O Brasil se tornou a escolha dos imigrantes haitianos atraídos pelo grande crescimento da área de construção e pela infraestrutura das obras relacinadas à Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016.

Os haitianos sabem que São Paulo é a capital econômica do Brasil e acreditam que podem encontrar empregos facilmente aqui, disse Doucette.

Para os recém-chegados, a primeira parada na capital paulista é com frequência a Casa do Migrante, um abrigo dirigido por missionários no bairro de Glicério.

A paróquia local assistiu os imigrantes italianos na década de 40, depois os migrantes brasileiros e agora, exilados de todo o mundo.

Carla Aparecida Silva Aguilar, uma assistente social que administra a Casa do Migrante, disse que o abrigo tem atualmente 43 haitianos entre 112 estrangeiros de 20 nações.

Um complexo similar a um mosteiro, localizado próximo ao bairro japonês da Liberdade, o abrigo oferece acomodação, comida, ajuda psicológica, aulas de português e ajuda com questões de emprego e saúde.

Os moradores não têm dinheiro e toda manhã, depois do café, eles deixam o local para procurar emprego, regressando apenas às 16h30.

Não há limite de quanto tempo eles podem ficar. "É caso a caso. Alguns ficam duas semanas outros muitos meses," de acordo com Silva Aguilar.

No mês passado, o abrigo suspendeu temporariamente as visitas de repórteres depois de o jornal O Globo descrever o fluxo de imigrantes como "invasão".

Suzanne Legrady, porta-voz da Missão Scalabriniana Nossa Senhora da Paz que fiscaliza a Casa do Migrante, insiste que os haitianos não tiram o trabalho dos brasileiros.

"Falta trabalhadores em São Paulo, particularmente na construção e nos trabalhos domésticos," explicou. Estes são trabalhos que os brasileiros evitam com frequência.

O artigo do jornal O Globo se seguiu à decisão de Brasília no mês passado de restringir a entrada de haitianos enquanto oferece vistos humanitários para os 4 mil que já estão no país.

Depois que a matéria foi publicada, a Casa do Migrante foi inundada de e-mails de empresas locais e pessoas oferecendo trabalho a eles como trabalhadores ou empregados domésticos, disse Silva Aguilar.

Muitos haitianos que vicem no abrigo são bem instruídos, fluentes em francês, espanhol ou inglês e considerados de classe média no país deles.

Eles dizem que deixaram a terra natal usando as próprias economias ou dinheiro oferecido por parentes, por causa da falta de oportunidades.

Micheline Charlton, uma haitiana de 32 anos, chegou aqui no final de dezembro depois de uma jornada tortuosa pela Bolívia e o Peru que a trouxe para a cidade fronteiriça de Tabatinga em junho.

Ela ainda tem que conseguir um emprego, destacando que não vai aceitar trabalhos domésticos porque "eu tinha empregadas no Haiti."

"Estou procurando trabalho em escritórios, mas eu não falo português e normalmente é difícil para nós mulheres encontrar empregos," disse à AFP.

Charlton, que deixou para trás o marido e três filhos, disse que ela não está desencorajada. "Eu amo esse país, eu quero ficar aqui e trazer minha família", disse ela.

Além dos 4 mil haitianos que estão recebendo visto humanitário de permanência, há mais 1.100 haitianos morando legalmente no Brasil, de acordo com o ministério da justiça.

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