Internacional

Estado Islâmico

"Há uma espécie de guerra civil na Turquia"

por Deutsche Welle publicado 27/07/2015 09h59, última modificação 27/07/2015 10h21
Ancara ataca pela primeira vez posições do "Estado Islâmico" na Síria. Para a especialista Gülay Kizilocak, troca de golpes tem a ver com fato de o governo estar enfraquecido e a sociedade, dividida
Yasin Akgul/AFP
Manifestação-Turquia

Manifestantes turcos fazem manifestação em denúncia ao ataque contra curdos no dia 24

Por Daniel Heinrich 

Após milicianos do "Estado Islâmico" (EI) dispararem contra um posto militar turco, a Turquia bombardeou pela primeira vez posições do grupo extremista em território sírio, informou o governo turco nesta sexta-feira 24.

Gülay Kizilocak, especialista do Centro de Estudos Turcos em Essen, na Alemanha, atribui em parte a escalada da situação na região ao fato de o governo turco estar enfraquecido no momento. Desde as eleições parlamentares em junho, o primeiro-ministro Ahmet Davutoğlu tenta formar uma coalizão.

Além disso, há a ameaça do EI, que controla áreas do território sírio na fronteira com a Turquia, assim como a divisão da sociedade em setores pró e anticurdos, numa "espécie de guerra civil".

DW: A Força Aérea da Turquia está atacando posições do "Estado Islâmico" (EI) na Síria. A situação na região está se agravando?

Gülay Kizilocak: Trata-se de uma situação altamente explosiva, logo após as eleições parlamentares de junho. O governo ainda está ocupado com a formação de uma possível coalizão, e a sociedade está dividida em dois campos de batalha: um pró-curdo e outro anticurdo. A isso se soma a constante ameaça dos terroristas do EI. Assim, é possível dizer que uma espécie de guerra civil está em curso no sudeste da Turquia.

DW: Quanto às eleições parlamentares, como avalia a influência delas sobre os atuais acontecimentos?

GK: Para mim está claro que nesta situação de insegurança há muitos que tentam se aproveitar da situação, porque no momento o governo atua apenas como negociador. O AKP [partido conservador islâmico do presidente Recep Tayyip Erdogan] deve que aceitar claras derrotas, e até hoje, mais de dois meses depois [das eleições], não foram tomados passos razoáveis no sentido de formar um governo. Todos os partidos que poderiam agora entrar em questão bloqueiam uma possível coalizão de governo, e muitos tentam se aproveitar dessa insegurança.

Manifestação-Turquia
"Trata-se de uma situação altamente explosiva", afirma especialista | Crédito: Ozan Kose/AFP

DW: A senhora atribui os acontecimentos atuais ao fato de o governo estar enfraquecido?

GK: Sem dúvida. Além disso, o governo turco tolerou as ações do EI até agora. Isso também se viu no ano passado, quando houve ataques em Kobane, diretamente na fronteira [da Síria] com a Turquia. E agora, como o governo está enfraquecido, a situação se agrava ainda mais.

DW: O vencedor das eleições foi o partido curdo HDP. Qual o papel da legenda na situação atual?

GK: O HDP tem o papel mais difícil no momento, acho, porque ele nasceu em consequência dos acontecimentos políticos dos últimos anos. O HDP não é mais apenas um porta-voz dos curdos no sudeste [da Turquia], mas também um ponto de convergência da esquerda intelectual contra o partido conservador islâmico do governo, o AKP. Muitos [eleitores de outros partidos] votaram no HDP por questões estratégicas e querem ver agora se o HDP realmente vai fazer diferença, sobretudo diante do contexto dos atuais ataques no sudeste do país.

DW: Em termos de política externa, a senhora vê no comportamento do governo turco e agora também na interação com os americanos uma nova etapa das relações Turquia-Estados Unidos?

GK: Acho que as relações turco-americanas sempre estiveram num nível razoável. É verdade que nos últimos tempos ocorreram algumas discordâncias, mas nunca houve uma distância grave entre a Turquia e os EUA. Por isso, não se trata de uma "nova" aliança. Mas é importante ter os EUA como aliado forte, que dá suporte na luta contra o EI.

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