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Guinada à italiana

por Mino Carta publicado 11/01/2013 12h17, última modificação 06/06/2015 18h42
O centro-esquerda é favorito das próximas eleições políticas. Se alcançar 40% dos votos, terá maioria absoluta na Câmara e no Senado
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Protagonistas. Bersani, o mais forte. Monti, o contraditório. Berlusconi, o tragicômico. Fotos: AFP, Alberto Pizzoli/AFP e Tiziana Fabi / AFP

A hipótese de que o centro-esquerda venha a governar a Itália sem precisar de alianças parlamentares parece neste momento, ao faltarem cerca de 40 dias para as eleições políticas, um tanto arriscada, mas não pode ser descartada. Como se daria esta situação, inédita ao longo de toda a Segunda República? Caso o Partido Democrático de Pierluigi Bersani e a esquerda de Nichi Vendola, juntos conseguissem 40% dos votos, o que lhes garantiria o chamado “prêmio de maioria” previsto pela atual lei eleitoral.

Definida como porcellum, o porco, segundo seu próprio criador, o leghista Roberto Calderoli, que a serviu de bandeja ao então premier Silvio Berlusconi, confere aos chefões partidários o poder de, concluído o pleito, escolherem seus deputados e senadores. Trata-se, de certa forma, de uma eleição indireta dentro da direta. Ainda assim, o porcellum estabelece o tal “prêmio”, de sorte a entregar ao vencedor, por dois quintos dos votos, ou mais, a oportunidade de governar com maioria absoluta.

O Parlamento que, depois da queda de Berlusconi provocada pela manobra magistral do presidente da República Giorgio Napolitano, sustentou o “governo técnico” de Mario Monti até dezembro passado, não logrou, ou não quis, enterrar o porco, conquanto o assunto estivesse em pauta. E o único partido que se dispôs a enfrentar o suíno debochado foi o PD, com a participação da esquerda vendoliana, ao convocar em duas etapas prévias para a escolha preliminar dos candidatos, a primeiro-ministro e a deputados e senadores. Ambas as iniciativas foram bem-sucedidas além das ­expectativas. A primeira, que consagrou Bersani, teve mais de 3 milhões de eleitores, a segunda mais de 1 milhão.

O líder do PD, nascido da aliança entre ex-comunistas e ex-democrata-cristãos de esquerda como se tivessem sido unidos pelo legado do compromesso storico deixado por Aldo Moro e Enrico Berlinguer, é uma das três personagens mais vistosas deste enredo e certamente a mais forte. Assim como Mario Monti é a mais contraditória e Silvio Berlusconi a mais tragicômica.

Ao tomar posse há mais de um ano no comando do chamado governo técnico, Monti, recém-nomeado ­senador vitalício pelo presidente Napolitano, declarou que não se deixaria picar pela mosca azul do poder e que, cumprida a tarefa, não pretenderia manter-se no cargo a reboque do partido disposto a lhe compartilhar as ideias. Ao cabo, esqueceu a promessa com a impávida solenidade a lhe caracterizar a fala e os gestos. O professor da Universidade Bocconi de Milão porta-se sempre como tal.

Depois de impor sacrifícios imponentes aos italianos, bem mais aos pobres e remediados do que aos ricos, em nome da recuperação econômica e em atendimento às diretrizes da União Europeia, Monti compôs uma “agenda” de princípios, ideias e propósitos prontamente endossada pelo UDC de Pier Ferdinando Casini, a congregar ex-democrata-cristãos, e pelo FLi, de Gianfranco Fini, ex-neofascista e ex-parceiro de Berlusconi, com quem clamorosamente se desentendeu quando o sultão peninsular ainda governava. Tanto Casini quanto Fini defendiam havia tempo um Monti-bis, ou seja, a transformação de um premier “técnico” em político.

Não é tudo. A composição, apresentada como centrista, conta em primeiro lugar, com o apoio deslumbrado de uma consistente porção do empresariado, capitaneada por Luca Cordero di Montezemolo, boss da Ferrari, por muitos encarado como o sucessor de Gianni Agnelli na admiração da burguesia italiana, ainda à procura, senão de um príncipe, ao menos de um avvocato, como Agnelli era respeitosamente conhecido. Tudo dentro dos conformes, e mais ainda o apoio do Vaticano, manifestado de forma mais ampla e irrestrita do que se dava no pós-Guerra. Quando os párocos pregavam do púlpito a favor do Partido Democrata Cristão.

Católico fervoroso, Monti mantém calorosa relação com o papa Ratzinger, com quem conversou, em busca de conselho antes de optar por sua “subida à política”, como diz. Nestes dias, a congregação episcopal apressou-se a dar seu aval à “agenda Monti”. Como se vê, a Itália democrática continua a sofrer a interferência política da mais duradoura monarquia por direito divino.

Até ontem, aliás, o Vaticano apoiava Berlusconi, o pecador sempre inclinado a uma genuflexão. O tempo do sultão parece mesmo encerrado, mas ele não se emenda. Primeiro empurrxou seu partido, paradoxalmente batizado Povo da Liberdade, a forçar a demissão de Monti em dezembro passado e, portanto, a provocar a antecipação das eleições para 24 de ­fevereiro próximo. Depois de ter apontado em Angelino Alfano, ex-ministro da Justiça, seu candidato a premier, voltou atrás e declarou que o patriotismo o obrigava a exigir a candidatura para ele mesmo. Pôs em desespero vários entre seus mais fiéis apaniguados.

Desde este momento, moveu-se na direção de uma nova aliança com a Liga Norte, embora as lideranças leghiste o repudiem como candidato a primeiro-ministro. Admitiu então a possibilidade de mais uma vez dar um passo atrás para, quem sabe, assumir a pasta da Economia ou das Relações Exteriores em um futuro governo forjado no entendimento com a Liga, enfim alcançado na segunda 7. Acordo importante. Se o aliado ganhar a governança na Lombardia e no Vêneto, o que é provável, o país corre o risco de repetir a malograda experiência do­ ­segundo governo de Romano Prodi, surgido do pleito de 2006.

Por obra do porcellum, caso não consiga obter 40% dos votos, o favorito PD não contará com a maioria absoluta no Senado, de sorte a precipitar a necessidade de se compor com alguma outra agremiação em troca de variadas concessões. À moda brasileira, e até em condições piores. Brilha na escuridão a espada de Dâmocles. A despeito do favoritismo do PD, os vaticínios por ora não se recomendam. Somente a partir do próximo dia 14 virão à tona as primeiras pesquisas confiáveis. No mais, sobram as suposições.

Nada disso impede Berlusconi de se dizer dono desde já de 28% dos votos e de declarar, depois de selado o acordo com a Liga, que a questão da premiership será resolvida somente após as urnas. Há algumas indicações de que o movimento Cinco Estrelas do comediante Beppe Grillo, vincado pela afirmação da antipolítica, está em queda, bem como o prestígio de Antonio Di Pietro, ex-herói da Operação Mãos Limpas e atual líder do Partido Itália dos Valores. Em compensação, Massimo D’Alema, ex-líder do PD e ex-primeiro-ministro, profetiza a vitória total do seu partido, favorecido pela decisão de Monti, atropelado, segundo ele, por um erro fatal.

D’Alema é um dos tradicionais almirantes da nau democrática que acabam de desistir da candidatura ao Parlamento, em proveito de uma renovação profunda que Bersani logrou conduzir com determinação e habilidade. A vitória do PD teria consequências notáveis para a política da UE, desde que este vasto agrupamento de feições social-democráticas autênticas reivindica a valorização do trabalho e a reformulação de políticas de austeridade ditadas pelas conveniências de minorias cada vez mais privilegiadas. Justificada a linha (ou seria mesmo o caso de dizer a ideologia?) tanto mais em um país cuja Constituição reza no primeiro artigo ser a Itália uma república baseada no trabalho. Os pais fundadores estavam no caminho certo, não se tratava de neoliberais. Uma conjugação de esforços de Bersani e Hollande seria um dique às pressões de Angela Merkel.

Os fiéis do deus mercado tomam posição, obviamente, contra os esquerdistas da coligação a ser encabeçada por Bersani. Leia-se Vendola, a CGIL, a maior confederação sindical italiana, e a Fiom, a central dos metalúrgicos. Enquanto Berlusconi chama a todos, PD incluído, de comunistas e Monti de “conservadores” a Vendola e companhia, como se o funeral das ideologias tivesse sido celebrado em definitivo e ele não representasse uma delas, o papa Ratzinger, monarca de um reino riquíssimo e sede (santa?) de um banco especializado na reciclagem de ­dinheiro mafioso, percebe certas la­cunas na “agenda” e adverte em um pronunciamento do ano-novo: cuidado, não existe somente o spread financeiro, há o spread social. Entre ricos sempre mais ricos e pobres sempre mais pobres. Não se iludam, cuida apenas de sugerir retoques espertos ao programa montiano. Há um estranho parentesco entre Ratzinger e o príncipe de Salina. Mais sutis que Berlusconi, convergem no pensamento de que convém mudar alguma coisa para não mudar coisa alguma.

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