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Greenwald: EUA espionam por vantagens comerciais

por Deutsche Welle publicado 07/08/2013 10h21, última modificação 08/08/2013 15h40
Jornalista que publicou informações de Edward Snowden afirma que vigilância de Washington visa dados comerciais e industriais, nas áreas da energia e petróleo
Adriana Lorete
Glenn Greenwald

Jornalista que publicou informações de Edward Snowden afirma que vigilância de Washington visa dados comerciais e industriais, nas áreas da energia e petróleo

O jornalista americano Glenn Greenwald disse na terça-feira 6 durante uma audiência pública conjunta do Senado e da Câmara dos Deputados, em Brasília, que os dados que divulgou até agora sobre os documentos secretos que recebeu do ex-consultor da CIA (serviço secreto americano), Edward Snowden, sobre um esquema de espionagem internacional dos EUA, não se restringem apenas ao combate ao terrorismo internacional.

Greenwald, que publicou as primeiras reglportagens sobre o programa de vigilância das comunicações eletrônicas da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, da sigla em inglês) a partir das informações do delator Snowden, ressaltou que, desde o ataque às torres do World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos têm usado o combate ao terrorismo como justificativa para muitas ações, incluindo as técnicas de espionagem.

Mas, para Greenwald, o principal objetivo do governo americano com a espionagem é a obtenção de informações comerciais e industriais, como na área de energia e petróleo. Segundo ele, está claro que essa é uma maneira de ganhar mais poder através da obtenção de dados sobre negociações econômicas, estratégias políticas e competitividade de empresas. "Em geral, o propósito desse programa é esse [de obter vantagem]."

Ele citou como exemplo a reportagem publicada na última semana pela revista brasileira Época – publicação para a qual Greenwald também escreve – que traz dados sobre como espionagem norte-americana de oito países, incluindo o Brasil, influenciou a aprovação de sanções contra o Irã em 2010 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Esclarecimentos de empresas brasileiras

Na avaliação de Greenwald, que vive no Brasil desde 2005, é "difícil acreditar" que empresas de telecomunicações e de internet que atuam no Brasil não saibam o que acontece com os dados coletados no país. "É importante saber exatamente quais empresas americanas têm acessos a quais sistemas para olhar com mais atenção sobre o que está acontecendo exatamente com esses sistemas", opinou.

A coleta e a transferência de dados, segundo o relato do jornalista, são possíveis porque operadoras brasileiras de telecomunicações estariam trabalhando com uma grande empresa americana que fornece dados para a NSA. Greenwald ainda está investigando os fatos a respeito dessa cooperação.

Segundo a Agência Brasil, o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil) negou que as empresas do setor forneçam ou facilitem informações que possam quebrar o sigilo de seus usuários, a não ser que haja uma ordem judicial no âmbito da lei brasileira para isso.

O blogueiro e ex-advogado disse não ter como forçar as empresas brasileiras a fornecerem informações, mas que o Parlamento e os órgãos do Executivo podem fazê-lo. "Deve haver duas ou três opções de empresas de telecomunicações que podem estar nessa lista", afirmou Greenwald, ao ressaltar que essa é a informação mais protegida pela Agência de Nacional de Segurança. "O que a NSA está protegendo mais é a identidade das empresas que trabalham com eles (...). Eles estão usando codinomes para tudo."

Em resposta ao apelo do jornalista americano, o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, senador Ricardo Ferraço, afirmou que já tem requerimentos aprovados para solicitar a presença dessas empresas em audiências públicas para prestarem esclarecimentos.

Ponta do iceberg

Greenwald ainda afirmou, durante a audiência no Senado, que as informações que divulgou a partir dos documentos que recebeu de Edward Snowden representam uma parte muito pequena do que ainda está por vir. O delator passou cerca de 20 mil documentos a Greenwald – este disse que os dados ainda estão sendo analisados.

"Estamos trabalhando com muitas organizações no Brasil e no mundo todo para publicar mais documentos. É difícil falar sobre os documentos que ainda não publiquei, mas com certeza vai ter muito mais revelações sobre a espionagem do governo dos Estados Unidos", disse o jornalista.

Durante o depoimento, Greenwald disse que precisa ser cuidadoso nas suas declarações por causa de ações judiciais contra Snowden nos Estados Unidos – por isso, tem restrições quanto ao teor das informações que pode divulgar.

Destituído do passaporte dos EUA, Snowden conseguiu, na semana passada, um asilo de um ano na Rússia, depois de um mês confinado na zona de trânsito do aeroporto Sheremetyevo, em Moscou.

Muito além dos metadados

Sobre a alegação, por parte do governo norte-americano, de que a NSA apenas acessa os chamados metadados – ou informações básicas sobre dia, horário e destinatário de mensagens –, Glenn Greenwald afirmou que os Estados Unidos têm capacidade de interceptar o conteúdo dessas mensagens se quiser.

"O governo americano tem sistemas para invadir muitos e-mails, não só metadados, mas coisas que você fala por e-mail, ou coisas que você está falando pelo telefone", disse Greenwald, ao classificar o sistema XKeyscore, programa de busca em bancos de dados de informações que circulam pela rede, como "assustador" e "o mais poderoso" sobre o qual ele já escreveu.

Uma grande preocupação de Greenwald é que o sistema é acessado por milhares de analistas que não ocupam cargos muito altos na hierarquia da NSA, o que deixa vulneráveis informações pessoais – isso tudo sem a necessidade de autorização judicial.

"Esse sistema vai mostrar quase tudo o que as pessoas estão fazendo na internet. É muito mais do que metadados. E o mais assustador, na minha opinião, sobre esse sistema é que ele é muito fácil de usar", afirmou.

A maior prova disso, exemplificou Glenn, é o que fez Edward Snowden. "Qualquer pessoa pode invadir uma informação muito privada sem justificar, e é muito difícil para descobrir. E a evidência disso é que Snowden tomou 15, 20, 25 mil documentos supersecretos e ninguém sabia, porque esse sistema é grande demais, é enorme e ninguém pode controlar isso", disse.

Autoria: Ericka de Sá, de Brasília
Edição: Renate Krieger
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