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Síria

Rebeldes lançam grito de angústia

por AFP — publicado 23/02/2012 09h42, última modificação 06/06/2015 18h58
Segundo militantes em Homs, quem não morreu nos bombardeios vai morrer de fome e sede
Síria

Mais de 500 crianças morreram desde o início da rebelião, em março de 2011, segundo a comissão. Foto: ©AFP / Bulent Kilic

Os militantes sírios lançaram nesta quinta-feira um "último grito de angústia" dos bairros rebeldes da cidade de Homs (centro) bombardeados pelas forças do regime, no momento em que a comunidade internacional procura estabelecer uma trégua para levar ao país ajuda humanitária emergencial.

Pelo 20º dia consecutivo, bairros de Homs foram violentamente bombardeados, principalmente Baba Amr, que sofreu com explosões "aterrorizantes", segundo os militantes.

"Nós lançamos um último grito de angústia. As pessoas, se não forem mortas nos bombardeios, vão morrer de fome e sede", afirmou à AFP Omar Chaker, um militante.

Os ataques são tão intensos que torna difícil a comunicação com os militantes.

Todas as pessoas contactadas pela AFP não sabiam fornecer informações sobre o local onde estão os corpos de Marie Colvin e Rémi Ochlik.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) tenta se comunicar com seus contatos em Homs, mas "como os bombardeios são particularmente intensos, ninguém consegue subir no telhado para utilizar telefones via satélite", explicou um porta-voz.

O regime sírio negou nesta quinta-feira qualquer responsabilidade no caso, justificando que os dois jornalistas assumiram os riscos ao entrarem clandestinamente no país.

"Recusamos as declarações que responsabilizam a Síria pela morte de jornalistas que se infiltraram em nosso território sob a própria responsabilidade", informou o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

"O Ministério dos Negócios Estrangeiros reafirma a necessidade de os jornalistas respeitarem as regras do trabalho jornalístico na Síria e evitarem infrações ao entrarem [clandestinamente] em território sírio", acrescenta.

Mas, segundo militantes e o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), o edíficio transformado em "centro de imprensa" onde estavam os jornalistas foi deliberadamente atingindo, depois que os aviões de reconhecimento "captaram sinais de transmissão".

A comissão de investigação internacional sobre a Síria denunciou, na quinta-feira 23, que o governo sírio fracassou em proteger seu povo.

"Desde novembro de 2011, as forças sírias cometeram sérias e sistemáticas violações dos direitos humanos", afirma a comissão, que interrogou 136 novas vítimas desde novembro, data do relatório anterior.

A comissão concluiu em seu primeiro relatório que as forças de segurança sírias cometeram crimes contra a humanidade na repressão brutal da revolta no país.

A violência já causou a morte de pelo menos 7.600 pessoas, a maioria civis, em pouco mais de 11 meses de contestação, de acordo com o OSDH.

"As pessoas morrem aos milhares (...), o regime de Assad continua agindo impunemente", declarou o chanceler britânico William Hague nesta quinta-feira à BBC.

Ele indicou que deseja discutir durante o encontro de Túnis, que reunirá na sexta-feira os representantes de mais de 50 países, com a exceção notável da Rússia, o "envio de uma mensagem clara" para Damasco e pedir que a oposição se una em vista de um eventual reconhecimento.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que recebeu na quarta-feira em Genebra membros do Conselho Nacional Sírio (CNS), principal coalizão da oposição, fez um apelo por tréguas diárias de duas horas para permitir a entrada de ajuda humanitária, uma ideia aprovada pela Rússia, que continua a se opor aos "corredores humanitários" propostos por Paris.

Damasco acusou na quarta-feira as sanções econômicas ocidentais e os rebeldes de serem responsáveis pela deterioração da situação sanitária do país.

Diante do aumento da violência, o CNS pediu a criação de "áreas de proteção" e sua porta-voz, Basma Kodmani, estimou que uma intervenção militar "pode ser a única opção".

 

Mais de 500 crianças morreram desde o início da rebelião, em março de 2011, segundo a comissão, que cita uma "fonte confiável". Dezembro foi o mês mais violento, com 80 crianças mortas, seguido de janeiro de 2012 (72 mortes).

O balanço da violência na Síria, segundo os ativistas, chega a 7.600 mortos, na grande maioria civis.

Comunicações cortadas
Ainda na quinta-feira 23, os bairros rebeldes da cidade de Homs foram bombardeados violentamente pelas forças do regime sírio, especialmente no bairro de Baba Amr, onde as comunicações foram cortadas.

"Baba Amr, assim como parte do bairro de Inchaat, foram bombardeados a partir das 7 horas. Disparos de morteiro afetaram Khaldie", afirmou à AFP Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

"Ouvimos explosões pavorosas", disse Hadi Abdallah, um militante local da "Comissão Geral da Revolução Síria".

"Hoje não conseguimos nos comunicar com militantes, nem por meio do Skype nem com o telefono por satélite", completou.

O vigésimo dia de bombardeios acontece após a morte de dois jornalistas estrangeiros na quarta-feira 22, a americana Marie Colvin, do Sunday Times, e o francês Rémi Ochlik, fotógrafo da agência IP3 Press, no ataque contra uma casa que funcionava como centro de imprensa dos militantes.

"Acreditamos que o centro foi tomado como alvo porque 11 projéteis caíram sobre a casa ou nos arredores. As forças do regime captaram um sinal de transmissão", declarou Abdallah.

*Com informações da Agência Lusa

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