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Governo é acusado de acobertar neonazistas

por Redação Carta Capital — publicado 16/11/2011 17h16, última modificação 16/11/2011 18h02
Serviço secreto conhecia histórico de criadores de grupo de extrema direita responsável por dez mortes, mas ignorou suas atividades por 13 anos
Alemanha

Após se matar dupla de supostos neonazistas contou com a ajuda de uma complice para explodir o flat que dividiam. Foto: Robert Michael

 

Um grupo neonazista colocou o serviço secreto alemão no epicentro de uma das mais maiores polêmicas envolvendo o governo de Angela Merkel. Evidências sugerem que o órgão acobertou, ou não se interessou em combater, a ação de uma célula terrorista de extrema direita responsável por ao menos dez mortes (incluindo uma policial), 14 assaltos a banco e dois atentados com bombas em 13 anos.

As investigações contra o grupo neonazista Subterrâneo Nacional Socialista tiveram início quando os suspeitos dos crimes Uwe Mundlos, de 38 anos, e Uwe Böhnhardt, de 34 anos, morreram em um suposto pacto suicida. Pouco depois, o apartamento da dupla na cidade de Zwickau foi explodido por uma suposta cúmplice, Beate Zschäpe, de 36 anos.

Em meio aos escombros da residência, foram encontradas evidências incriminadoras, como a arma da policial Michele Kiesewetter, de 22 anos, supostamente morta em Heilbronn em 2007. Além disso, havia um DVD saudando o grupo por uma série de homicídios não resolvidos conhecidos em toda a Alemanha.

Os casos, que alvejaram majoritariamente imigrantes turcos entre 2000 e 2006, foram atribuídos pelo governo como de responsabilidade de gangues turcas.

Os dois homens e a mulher, que se entregou à polícia após a explosão, seriam os criadores do grupo, também apelidado de Facção do Exército Marrom (cor das tropas nazistas). O trio era conhecido da policia em sua cidade natal, Jena, no leste da Alemanha. Em 1998, uma fábrica de bombas foi descoberta na garagem de Zschäpe. Além disso, o escritório de inteligência de Thuringian teria 24 amplos arquivos sobre o trio.

Extensão

As investigações das atividades do grupo se estenderam na terça-feira 15 para abrigar casos não resolvidos em todo o país, sobre a suspeita de que uma rede de apoiadores pode ter ajudado a realizar os atos terroristas. As ações incluem ataques em Colônia e Düsseldorf entre 2000 e 2004, com mais de 30 feridos, a maioria estrangeiros.

A chanceler Angela Merkel descreveu a situação como "mortificante” para a Alemanha, embora os críticos acusem o governo de concentrar forças apenas em grupos terroristas de esquerda e na ameaça de extremistas islâmicos, ignorando a existência de grupos neonazistas. "É uma vergonha que isso tenha acontecido em nosso país", disse Merkel, que prometeu investigar "profundamente" o que caso.

O ministro do interior, Hans-Peter Friedrich, pediu um registro nacional listando todos os neonazistas. O banco de dados deve ter informações sobre extremistas de direita potencialmente violentos ou atos de violência politcamente motivados por extremistas de direita.

Segundo a revista Der Spiegel, evidências sugerem que a célula terrorista neonazista pode estar planejando ataques contra políticos, incluindo dois membros do Parlamento. A lista inclui ao todo 88 nomes com endereços, dos quais pelo menos dois são de integrantes do Parlamento.

A lista, que traz nomes de representantes de organizações turcas e muçulmanas e dois membros do Partido Verde defensores de medidas contra grupos de extrema direita, começa em 2005.

Não há confirmação se a lista contém alvos ou apenas oponentes políticos, mas o número 88 é usado pelos neonazistas como um código para uma abreviação de "Heil Hitler" (H é a oitava letra do alfabeto).

Participação do governo?

O escritório do Serviço de Inteligência Interno da cidade de Hessen admitiu na terça-feira 15 que um de seus agentes estava presente na cena de um dos assassinatos do grupo. Em abril de 2006, um policial disfarçado estava em um café quando um jovem turco de 21 anos foi morto a tiros.

O homem foi preso e interrogado como suspeito do crime, após testemunhas na loja afirmarem que ele foi o único cliente a não ligar para a polícia. O agente, abertamente defensor de uma visão política de extrema direita – inclusive, era conhecido no vilarejo onde cresceu como “pequeno Adolf” – foi libertado depois de revelar sua identidade.

O agente acabou transferido para um departamento menos sensível, mas ao invadir a sua residência, a polícia encontrou um exemplar de Mein Kampf, um livro anti-semita de Hitler. Além disso, segundo o diário britânico The Guardian, o homem foi visto em outras três cenas de assassinatos neonazistas.

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