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Genocídio Armênio: o flagelo da impunidade

por Luís Carlos Magaldi Filho — publicado 23/04/2015 04h09, última modificação 24/04/2015 18h31
No dia 24 de abril, é lembrado o centenário de um trágico evento até hoje não reconhecido e negado pela Turquia e por diversos outros países, inclusive o Brasil
MARK RALSTON/AFP
Andrea Marootian

Andrea Marootian afirma ter perdido dez familiares no Genocídio, e mostra o seguro de vida de seu tio

Em abril de 2014, escrevi um artigo para CartaCapital tratando do Genocídio Armênio. Em linhas básicas, o genocídio armênio foi o primeiro holocausto ocorrido no século XX.

Amplamente embasado e relatado em documentação histórica, esse genocídio foi uma política de erradicação friamente calculada e sistematicamente colocada em prática dentro das fronteiras do Império Otomano entre os anos de 1915 a 1924.

No período, aproximadamente 1,5 milhão de armênios foram mortos, expatriados e tiveram os bens confiscados pelo então governo da Turquia, crime que chamou atenção principalmente por sua ferocidade e brutalidade e ainda choca quem se inteira do assunto. Estupros em massa, pessoas crucificadas ao longo de quilômetros de estradas, deportação em trens semelhantes ao que se viram anos depois no Holocausto judaico, tudo documentado em fotos e relatos.

Diversos interesses estimularam o genocídio. Além de óbvios interesses econômicos e políticos (o Império Otomano estava se esfacelando e temia-se uma luta por autonomia pela Armênia), marcantes diferenças religiosas e culturais entre turcos e armênios serviram para justificar as ações, pois os armênios eram um enclave cristão em meio a um desejo de formação da Pan-Turquia, de esmagadora maioria muçulmana.

Cabe aqui uma importante observação: nos tempos atuais, em que radicais fazem uma interpretação equivocada e tendenciosa do Alcorão, praticando atos que chocam a razão por sua barbárie e primitivismo, muitos colocam todos os praticantes da religião muçulmana em um só balaio, julgando que são todos cruéis ameaças. Esta é uma atitude equivocada, posto que a grande maioria dos muçulmanos busca a paz e a iluminação interior, anseios da alma que todas as religiões têm como objetivo atingir.

Concomitantemente com a Primeira Guerra Mundial, o Genocídio foi ignorado pelas principais potências do planeta devido a interesses particulares. A impunidade resultou em consequências terríveis nos diversos acontecimentos do século XX (teve grande influência na decisão de Adolf Hitler em perpetrar o Holocausto Judaico), e todos nós, em todos os cantos do planeta, fomos afetados por isso.

No dia 24 de abril de 2015, é a data lembrada, com eventos importantes no mundo todo, da memória do centenário do Genocídio, até hoje não reconhecido e negado pela Turquia e por diversos outros países, inclusive o Brasil.

Além de todos os sofrimentos causados, um grande e terrível legado do Genocídio permanece e é um dos grandes flagelos que assolam a humanidade: a impunidade.

Para que se instaure a paz no seio de toda uma nacionalidade que foi brutalizada, o reconhecimento do Genocídio é o primeiro e principal ato. Para que as famílias recuperem a dignidade de poder caminhar sem o estigma de se sentirem humilhadas e ultrajadas. Como escrevi no posfácio de meu livro, “houve um crime, terrível e brutal, e esse crime precisa ser denunciado. O não reconhecimento do genocídio, por parte da Turquia, remete-nos à deplorável situação de visualizarmos, constantemente, um cadáver insepulto. Causa náuseas, constrangimento e a sensação de algo por fazer”.

A sensação de impotência diante de acontecimentos que lesam materialmente e moralmente cada um de nós, e de sua impunidade, gera insegurança e um justo sentimento de revolta. Qualquer um que é injustiçado e não tem como fazer prevalecer a verdade e a justiça sabe o que é isso.

É preciso que se institua urgentemente, no mundo todo, uma atitude de punição e coibição de tudo aquilo que não é lícito. É necessário que o conceito de justiça, que é muito mais amplo que o conceito de leis, seja aplicado e vivenciado em nosso cotidiano.

Que a memória do Genocídio Armênio nos ajude a entender, em profundidade, as mudanças que são necessárias.

Luis Carlos Magaldi Filho é engenheiro agrônomo e escritor e autor de “O Grito do Cordeiro”, sobre a trajetória de uma sobrevivente do Genocídio Armênio