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G-20 se reúne na Rússia à sombra da Síria e da NSA

por Deutsche Welle publicado 05/09/2013 09h24, última modificação 05/09/2013 12h46
Impasse sobre ataque ocidental contra o regime de Assad e espionagem americana devem dominar reunião, que pretendia focar no balanço da reforma dos mercados e nos atuais perigos ao setor de finanças
Anton Denisov / AFP

Os preparativos estão concluídos. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não poupou gastos nem esforços para ser o perfeito anfitrião da cúpula do G-20, que começa nesta quinta-feira 5 na cidade histórica de Strelna, às margens do Golfo da Finlândia, devidamente blindada de manifestantes.

As centenas de jornalistas convidados atravessarão o mar de barco, vindos de São Petersburgo, até o local da conferência. Sua tarefa é noticiar sobre uma cúpula harmônica, em que as 20 principais nações industrializadas e emergentes debaterão sobre como propiciar mais empregos e prosperidade para o mundo.

Isso é, pelo menos, o que Putin desejaria. O atual panorama dá motivos para antecipar que este sétimo encontro do G-20 será tudo, menos harmônico. O conflito em torno da Síria, apesar de não estar na pauta oficial, deve ser o tema dominante – à sombra também do mal-estar causado pelo escândalo em torno da NSA (Agência de Segurança Nacional americana).

A presidenta Dilma Rousseff já está na Rússia, e há rumores de que ela possa cobrar diretamente o presidente americano, Barack Obama, a explicar a denúncia de que a NSA monitorou sistematicamente as comunicações do Planalto. O Brasil exigiu de Washington um esclarecimento até o fim desta semana.

Encontros bilaterais em aberto. Como foi divulgado na sexta-feira, a União Europeia de fato não tencionava tematizar a crise da Síria em São Petersburgo. No entanto, o próprio Putin decidiu-se por discutir o assunto.

Permanece em aberto se haverá uma conversa a portas fechadas entre ele e Obama. O relacionamento entre os dois esfriou bastante desde o início das revelações feitas por Edward Snowden.

Mas, segundo sua própria definição, o G-20 não é um fórum para política externa, e portanto o grupo não deve fugir das questões econômicas. Um dos tópicos é o balanço da reforma dos mercados financeiros, pois a crise econômica global – desencadeada com a bancarrota do banco americano Lehman Brothers, cinco anos atrás – aproximou bastante os membros do G-20.

Numa vídeo-mensagem, no fim de semana, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, confirmou que o assunto central em São Petersburgo será economia e finanças. No entanto, também a agenda de desenvolvimento será abordada.

Segundo Merkel, justamente a cúpula do grupo na Coreia do Sul, há três anos, cuidou para que não se ignorasse que "existem países mais pobres, que talvez não estejam permanentemente representados no processo do G-20, mas que a economia mundial só pode funcionar bem se o desenvolvimento dos países mais pobres também for fomentado".

Paralelamente, contudo, também se discutirão temas de política externa. "Neste ano também, com certeza, o tema Síria", antecipou a chefe de governo a partir de Berlim.

Perigo ainda à vista nas finanças. Até certo ponto, os chefes de Estado e de governo podem contemplar satisfeitos a reforma dos mercados de finanças, introduzida na conferência de cúpula de Londres, em 2009. Ali se alcançaram alguns progressos, como destaca Martin Faust, professor da Frankfurt School of Finance and Management.

"Sem dúvida, algo foi feito. Hoje, os bancos estão dotados com capital próprio, de forma mais sólida", diz o especialista. Por outro lado, afirma, ainda há o problema de que algumas instituições ainda são grandes demais. Caso uma delas entre em dificuldades, segue cabendo aos Estados – e, portanto, aos contribuintes – salvá-las.

"Nesse ponto não se foi suficientemente consequente. Existe essa concepção de too big to fail [grande demais para fracassar]. Aqui, na verdade, se deveria ter reduzido condizentemente os grandes bancos, ativos internacionalmente", apontou Faust.

Também o eurodeputado verde e crítico da globalização Sven Giegold considera que a regulamentação do setor financeiro se encontra em bom andamento. Entretanto o setor não está, em absoluto, fora de perigo. É certo de que agora os bancos dispõem de mais capital próprio, que a obscura zona dos derivados financeiros vai se tornando gradualmente mais transparente, e que os fundos hedge estão, pelo menos submetidos a supervisão.

"Mas os perigos da crise não estão afastados, pois o excesso de endividamento continua tão elevado como antes", afirma Giegold. "Estamos pousados sobre a mesma bolha de dívidas, e ela pode, a qualquer hora, levar a grandes anormalidades, em diversos lugares."

Segurança acima de tudo. Na cúpula de Toronto, em 2010, o G-20 já se ocupou da redução do endividamento. Sem muitos resultados concretos – exceto na Alemanha, a qual, contudo, é frequentemente instada a se justificar por sua política de contenção exagerada.

Já em São Petersburgo o tema endividamento praticamente não terá relevância, dando antes lugar às presentes turbulências econômicas nos emergentes como Índia e Brasil. Também deverá ser aprovada uma iniciativa do G-20 contra a evasão fiscal por parte das multinacionais. Além disso pretende-se, nos próximos anos, ganhar controle sobre o assim chamado shadow banking – o bilionário sistema bancário "das sombras".

Enfim: há campos de ação suficientes para as 20 principais economias industriais e emergentes do mundo. E Vladimir Putin cuidou para que elas possam trabalhar sem ser perturbadas: as leis relativas a manifestações já foram drasticamente endurecidas, e as medidas de segurança são extremamente rigorosas. Até mesmo o aeroporto internacional de São Petersburgo estará isolado, com a suspensão do tráfego aéreo regular desta quarta até sexta-feira.

  • Autoria Henrik Böhme (av)
  • Edição Rafael Plaisan

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