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Caso Strauss-Kahn e o preconceito contra mulher

por Gianni Carta publicado 24/08/2011 07h42, última modificação 06/06/2015 18h16
Liberado, ex-chefe do FMI se beneficia da lógica segundo a qual a vítima do estupro não tem "credibilidade" e a agressão, perdoada

Dominique Strauss-Kahn é um homem livre. Quase três meses após o ex-diretor geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), de 62 anos, ter sido acusado de estupro e abuso sexual de uma camareira de hotel em Nova York, e em seguida ter sido detido num cárcere e depois em prisão domiciliar, ele pode finalmente voltar a Paris. Nesta terça-feira 24, um juiz arquivou o processo criminal contra o ex-ministro francês das Finanças. Derrubadas, portanto, as sete acusações, entre elas tentativa de estupro, sexo oral forçado e sequestro. O motivo: a acusadora, Nafissatou Diallo, de 32 anos, como já havia alegado a promotoria, não tem "nenhuma credibilidade". No documento, apresentado pela promotoria no dia anterior à decisão do juiz Michael Obus da Suprema Corte de Manhattan, em Nova York, Diallo, imigrante da Guiné, foi inconsistente e mentiu nos interrogatórios. Ela teria, ainda, elos com criminosos. Nada disso, claro, invalida a tese de que houve agressão sexual. Mas assim funciona o incrível sistema jurídico americano.

Vitimas de DSK o qualificam de "chimpanzé" e homem "brutal"

Já o futuro de DSK, como ele já era conhecido na França e agora mundialmente, é permeado por incógnitas. Por exemplo, como os franceses o receberão, e qual será o futuro político desse homem apontado, antes do escândalo de 14 de março, como favorito para vencer a presidencial de 2012? Para numerosos franceses, DSK será, pelo menos por algum tempo, o truculento dono do poder capaz de agredir sexualmente uma camareira, como faziam os senhores da casa grande com suas escravas na senzala. E, consensual ou não, o ato revela o que sempre se soube na França: o ex-ministro socialista das Finanças dá maior prioridade ao seu apetite pessoal do que às suas tarefas como político ou chefe do FMI.

Cabe indagar: seria DSK, talvez ainda interessado em se candidatar às prévias socialistas para a presidência, em outubro, um chefe de Estado confiável?

A questão é pertinente porque nessa história aquela sem credibilidade, como vimos, reponde por Diallo, a camareira.  Leticia James, da National Organization for Women (NOW), indagou: "Existe uma vítima perfeita de estupro?" Ou seja, a mulher violada tem de ter os impostos em dia para obter justiça quando agredida sexualmente? Segundo a NOW, apenas 6% dos agressores sexuais são colocados atrás das grades nos EUA.

Como diz Kenneth Thompson, advogado de Diallo, o exame do corpo de Diallo durante as investigações revelou evidências forenses, médicas e físicas de que houve agressão sexual. Mas, essas evidências foram ignoradas pela promotoria e pelo juiz. De qualquer modo, no início de agosto Diallo abriu um processo civil contra o ex-patrão do FMI. Por sua vez, a escritora Tristane Banon também arquivou uma acusação contra DSK, em Paris. Segundo Banon, durante uma entrevista em 2003 ele a teria tentado violá-la como um "chimpanzé". À época, a mãe de Banon, Anne Mansouret, do Partido Socialista, aconselhou a filha a não processar o político porque isso prejudicaria sua carreira no partido. Pouco depois veio à tona a verdade: em 2000, Mansouret teve um encontro sexual com Strauss-Kahn. Mansouret qualificou a experiência como "consensual, mas brutal".

DSK e os franceses

Pelo menos dois médicos franceses observaram em conversais informais que o caso de Strauss-Kahn é patológico. "Sua obsessão por um sadismo sexual é como aquela do alcoólatra atrás de mais uma garrafa de vodca", me disse uma neurologista. Um ex-professor de DSK, que pediu anonimato, ofereceu: "Na faculdade, mulher nenhuma entrava no elevador com ele porque sabiam que ele poderia atracá-las".

Em março, quando l´affaire DSK veio à tona, uma senhora sentada ao meu lado num ônibus me viu lendo um artigo com o rosto do chefe do FMI (ele renunciaria dias depois). "Achei ótimo prenderem esse homem." Por quê? "Porque ele faria o que fez no FMI, com mulheres aqui na França e, agora com essa camareira em Nova York, só que na presidência." Uma mulher no banco de trás interveio: "Esse foi um plano de Nicolas Sarkozy para tirar o DSK do páreo para a presidencial".  A mulher ao meu lado retrucou, não sem ironia: "Ah, a senhora é daquelas que acredita em teorias de conspiração".

Quais seriam as expectativas políticas de DSK? Francois Hollande, o favorito nas primárias do PS para a presidencial, disse para a rádio RTL: "Independentemente do que foi dito, um homem com as habilidades de Dominique Strauss-Kahn pode ser útil para seu país nos próximos meses". Se DSK se candidatará ou não, emendou Hollande, dependerá dele.

Sua ex-rival Martine Aubry, atual secretária-geral do PS e mais à esquerda do que o centrista DSK, assinou um pacto de "não concorrência" com o ex-patrão do FMI. Aquele com maior nível de aprovação nas pesquisas retiraria sua candidatura e apoiaria o outro. Aubry, claro, viu-se forçada a se candidatar para as primárias socialistas quando viu o amigo atrás das grades. E agora, será que DSK apoiará Aubry? O mais provável é que ele seja uma eminência parda do PS na presidencial. Logo mais, quando os franceses esquecerem do episódio em Nova York, ou assim certamente espera o ex-chefe do FMI, ele poderá, quem sabe, voltar aos altos escalões da política francesa.

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