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Meio Ambiente

Fukushima ainda luta contra sequelas do acidente

por Deutsche Welle publicado 17/11/2014 05h25, última modificação 17/11/2014 09h33
Mesmo após mais de três anos, a região no Japão ainda sofre as consequências da catástrofe na usina atômica
SHIZUO KAMBAYASHI / POOL / AFP
Fukushima

Área contaminada próxima a reatores nucleares

Policiais patrulham o caminho para Fukushima, usando máscaras de proteção, luvas e um dosímetro para medir a intensidade da radiação a que estão expostos. Eles monitoram a equipe de televisão estrangeira, telefonam vez por outra para se certificarem da autenticidade das licenças. Não sabem que a exposição à radiação muda com apenas alguns passos. Em gramados e nas florestas, ela é muito mais elevada do que na rua, como mostra a reportagem de TV de 45 minutos. O pior é que a radioatividade é invisível.

Os policiais não são da região, mas foram designados para a zona contaminada. Já Ranga Yogeshwar e seus colegas estão voluntariamente no local. "Nós, jornalistas, temos o dever de olhar mais de perto", justifica o repórter da TV alemã sua viagem ao reator de Fukushima, em que corre risco de contaminação nuclear.

Em 2011, a usina de Fukushima foi em grande parte destruída, houve fusão do reator, imensa quantidade de radioatividade foi liberada, contaminando o meio ambiente, obrigando 100 mil pessoas a deixarem suas casas e provocando uma guinada na política energética da Alemanha. Menos de seis meses antes, a chanceler federal Angela Merkel havia reiterado sua confiança na energia nuclear e anunciado a extensão da vida útil dos reatores do país.

Trabalhos nas ruínas do reator

Na usina nuclear de Fukushima, hoje trabalham 6 mil pessoas, incumbidas da limpeza e descontaminação, até onde a radiação permite. Cada turno dura apenas duas horas, pois é exaustivo operar com roupas de proteção radioativa.

A empresa responsável, Tokyo Electric Power Company (Tepco), elaborou um plano meticuloso para os jornalistas da Alemanha. Cada membro da equipe recebe um dispositivo para medir a radiação, a qual varia muito. A equipe de TV também recebeu vestes especiais contra radiação.

"Látex, algodão e látex novamente", diz Yogeshwar olhando para a câmara, enquanto ainda é reconhecível. Ele coloca três pares de luvas uns sobre os outros, além de um colete com pacotes de refrigeração para reduzir o calor, um jaleco de proteção branco, máscara protetora. Tudo é hermeticamente selado, para evitar que partículas radioativas cheguem ao corpo. As câmeras também são embaladas. A comunicação só é possível através de megafone.

Um ônibus transporta a equipe pela área. Entre fachadas destruídas, escombros e destroços, aparece uma gigantesca construção nova. "A radiação aqui é tão alta, que não é possível se fazer a limpeza", relata um dos especialistas que acompanham a equipe de reportagem alemã.

Os prédios esverdeados dos reatores foram rapidamente pintados, para fixar a poeira radioativa nas fachadas. Chapas grossas de aço cobrem o chão para impedir que a radiação se propague para cima. Os visitantes da Alemanha medem 87 microsieverts (mSv) por hora. Para efeito de comparação: um morador da Alemanha é exposto por ano a apenas quatro millisieverts.

Métodos inéditos combatem radiação

Em torno o prédio do reator número quatro, a companhia Tepco construiu um andaime de aço de 50 metros de altura, pois a construção corria risco de desmoronar. Dentro, detritos haviam caído na piscina de combustível irradiado do reator, na qual as 1.500 barras de combustível depositadas para resfriamento quase se fundiram, devido ao corte de energia. A maioria delas já foi removida num contêiner construído especialmente para esse fim.

A equipe de reportagem visita a sala de controle no bloco um, "equipada com tecnologia dos anos 70", segundo Yogeshwar. Aqui, a equipe de plantão viveu a catástrofe. Primeiro, a terra tremeu. Depois, ondas de 15 metros de altura bateram contra os diques de proteção do reator.

A água entrou na usina, fez parar os sistemas de resfriamento, de energia de emergência e os acumuladores de eletricidde. Uma explosão destruiu partes da instalação. No escuro, a equipe de plantão não percebeu que as barras de combustível altamente radioativas não estavam mais sendo resfriadas: foi essa a pior catástrofe.

Ainda hoje, as barras de combustível derretidas têm que ser resfriadas com grandes quantidades de água. Vários metros cúbicos entram no sistema, a cada hora. Para se evitar que o líquido contaminado vaze pelas rachaduras e contamine as águas subterrâneas, ele tem que ser bombeado para fora.

Dia após dia, 700 metros cúbicos de água altamente radioativa são armazenados em grandes tanques no exterior do bloco. Já estão cheios 350 tanques, contendo 1 milhão de litros de água contaminada, cada um. Um sistema para descontaminação da água está sendo construído. Até que esse complexo de filtragem, inédito no mundo, esteja pronto, vão ser sempre necessários novos tanques.

Décadas de trabalho

Será preciso décadas, diz o jornalista Yogeshwar, até que os engenheiros nucleares do Japão consigam resfriar as barras de combustível fundidas que ainda estão nos vasos de pressão do reator. A radiação nos recipientes danificados contendo combustível de urânio ainda é tão elevada, que até mesmo os robôs param de funcionar nas suas proximidades.

"Na região em torno do reator também ainda vigora o estado de emergência", diz Rangar Yogeshwar. Cerca de 146 mil pessoas foram retiradas e ninguém poderá viver lá por décadas. Em outra área, mais distante da usina, a contaminação radioativa é mais baixa. Lá as pessoas têm pelo menos permissão para permanecer durante o dia.

A reportagem mostra que toda a vida na região é marcada pelas consequências do acidente nuclear. Um dos símbolos disso são os sacos negros cheios de terra, acumulados aos montes por toda parte. Cinco centímetros do solo estão sendo retirados de toda a zona, a fim de remover a camada contaminada por partículas radioativas.

Onde antes havia plantações de arroz e pomares, hoje crescem ervas daninhas. Os moradores foram forçados a deixar a região. "Eu me sinto como numa guerra", diz uma mulher, com dignidade e tranquilidade tipicamente japonesas. Ela perdeu tudo, diz. E sorri, embaraçada.

A viagem passa por cidades-fantasmas e canteiros de obras. Homens escovam, raspam a poeira radioativa de telhados, paredes, muros. Na cidade de Fukushima, a 62 quilômetros do reator, vivem 300 mil pessoas. Como a chuva trouxe iodo e césio radioativos, todos os edifícios têm que ser descontaminados, um a um. Os japoneses se decidiram a reconquistar a região. E cogitam colocar novamente em operação as usinas nucleares desativadas.

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