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Francisco adverte Igreja para risco de se tornar uma ONG

por Redação Carta Capital — publicado 14/03/2013 19h50, última modificação 14/03/2013 19h50
Em sua primeira homilia como papa, argentino usou metáfora para dizer que se a Igreja não for edificada sobre pedra, virá abaixo

CIDADE DO VATICANO (AFP) - Francisco, o primeiro papa latino-americano da história, advertiu nesta quinta-feira 14, em seu primeiro dia de pontificado, para o risco de a Igreja Católica se tornar uma ONG caso se distancie dos preceitos de Jesus.

"Se não nos confessarmos a Jesus Cristo, nos tornaremos uma ONG piedosa, não uma esposa do Senhor", afirmou durante uma missa 'Pro Ecclesia' na Capela Sistina. Os 114 cardeais que o elegeram no conclave estavam presentes.

"Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar muitas coisas, mas se não nos confessarmos a Jesus Cristo, a coisa não vai", acrescentou.

Na homilia, baseada na ideia de que os três pilares da Igreja são caminhar, edificar e confessar, Francisco usou um tom didático para se dirigir aos cardeais. "Quando não edificamos sobre pedra, o que acontece? Acontece o mesmo que com as crianças na praia quando constroem castelos de areia, tudo vem abaixo."

O novo Papa terá nos próximos dias uma agenda apertada. Na sexta-feira 15, receberá todo o colégio cardinalício na Sala Clementina e no sábado 16 se apresentará aos jornalistas.

           

No domingo 17, rezará o primeiro Angelus da janela do estúdio pontifício, antes da grande missa de entronização da terça-feira 19 (dia de São José, patrono da Igreja), na qual são aguardados líderes mundiais, entre eles as presidentas do Brasil, Dilma Rousseff, e da Argentina, Cristina Kirchner.

A eleição de Jorge Bergoglio, de 76 anos, proclamado Papa para a surpresa de muitos na quarta-feira 13, após dois dias de conclave, contradisse todos os prognósticos de vaticanistas e especialistas que apontavam uma disputa entre o italiano Angelo Scola e o brasileiro Odilo Scherer.

Em seu primeiro dia como Papa, Francisco também assegurou que espera contribuir para o "progresso das relações entre judeus e católicos" em carta endereçada ao rabino da comunidade judaica de Roma.

O papado dele começou sob o sinal da humildade, com uma breve oração matutina na basílica romana de Santa Maria Maior, onde dezenas de curiosos o aguardavam para saudá-lo. Dentro do templo, fez uma oferenda de flores à Virgem em uma pequena capela e ao sair, saudou as crianças de uma escola próxima.

Em seguida, segundo o Vaticano, foi buscar as malas na Casa Internacional do Clero, onde vivia antes do conclave, e pagou a conta antes de partir. "Para dar o exemplo", explicou Lombardi.

O Vaticano revelou alguns detalhes dos momentos que se seguiram ao aparecimento do novo Papa, na quarta-feira, na Basílica de São Pedro. Saindo do local, Francisco não quis usar o carro oficial e preferiu retornar à Casa Santa Marta, sua residência durante o conclave, da mesma forma que chegou, a bordo de um micro-ônibus com o restante dos cardeais.

O Vaticano informou que o novo Papa fala pelo menos cinco idiomas (espanhol, italiano, alemão, inglês, francês, além de um pouco de português) e diminuiu importância ao fato de que quando jovem tenha tido que extirpar parte de um pulmão.

Também confirmou que Francisco ligou esta quinta-feira para seu antecessor, o Papa emérito Bento XVI, que está instalado em Castel Gandolfo, com quem terá que conviver durante o papado.

Lombardi, a face do Vaticano para a imprensa desde a renúncia histórica de Bento XVI, confessou sua emoção ao ver um jesuíta como ele chegar ao trono de Pedro, algo inédito na história da Igreja, assim como a escolha do nome Francisco. "É algo extraordinário, algo que nenhum de nós teria imaginado. Na nossa espiritualidade, nosso serviço não é a diocese, nem a Igreja universal, mas uma atitude de obediência às missões", explicou.

Autoridades políticas e religiosas de todo o mundo receberam com surpresa e satisfação a escolha do novo Papa, apesar de em sua Argentina natal a imprensa ter questionado seu papel durante a ditadura militar no país (1976-1983)."É um pastor de doutrina sólida e realismo concreto", ressaltou o vaticanista Sandro Magister, recordando que sempre se manteve " boa distância" da Cúria, o governo da Igreja.

Com esta eleição se encerram quatro agitadas semanas na história moderna da Igreja, depois da renúncia inesperada de Bento XVI, alegando "falta de forças" para continuar com sua missão, um feito sem precedentes nos últimos sete séculos.