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Oriente Médio

França e EUA reforçam pressão para ataque contra Assad

por Redação — publicado 02/09/2013 17h33, última modificação 02/09/2013 17h40
Governos tentam convencer políticos e a opinião pública de que o regime sírio foi responsável por ataque químico em 21 de agosto
AFP

Está em curso uma aparente tentativa por parte dos governos da França e dos Estados Unidos para ganhar a opinião pública e conseguir alguma legitimidade para uma possível retaliação contra o regime de Bashar al-Assad, por conta do ataque realizado em Ghouta, subúrbio de Damasco, no último dia 21. Os dois países afirmam que o ataque foi químico e deve ser punido pela comunidade internacional.

Na noite de domingo 1º, o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, somou mais um detalhe ao relatório divulgado por Washington na semana passada – segundo os Estados Unidos, o gás usado foi o sarin. Nesta segunda-feira 2, a França divulgou a mesma informação e apresentou um relatório ao Parlamento que afirma a existência de "evidências" que comprovariam que Assad está por trás do ataque.

O documento de nove páginas (confira a íntegra em francês), apresentado pelo primeiro-ministro da França, Jean-Marc Ayrault, lembra que a Síria tem um dos maiores arsenais de armas químicas do mundo e que estaria utilizando-o em pequena escala em batalhas recentes contra seus opositores, nomeadamente em abril deste ano. Segundo o governo francês, o regime sírio pode fazer uso dos agentes químicos em larga escala, por meio de mísseis, mas vem buscando alternativas para alocá-las em equipamentos menores, cuja precisão é maior.

De acordo com o material fornecido pela França, todo o arsenal químico de Assad é controlado pelo Centro Sírio de Pesquisas e Estudos Científicos (CERS, na sigla em francês), no qual se destaca o chamado Escritório 450, cuja responsabilidade é abastecer as munições militares com agentes químicos e fazer a segurança dos estoques. Este ramo do CERS tem apenas alauítas (a mesma ramificação do islã à qual pertence Assad), reconhecidos pelo "alto nível de fidelidade ao regime". Ainda segundo o governo francês, apenas Assad e alguns membros influentes de seus clã podem dar ordens para o uso de armas químicas. Essas e outras informações, diz o relatório, "levam a acreditar que em 21 de agosto de 2013 o regime sírio lançou um ataque a certas áreas do subúrbio de Damasco dominadas por unidades da oposição, usando uma combinação de armas convencionais e o uso maciço de armas químicas".

Uma diferença fundamental entre os relatórios de Inteligência da França e dos Estados Unidos é saliente. Enquanto Washington relatou mais de 1,4 mil mortes, Paris fala em 281 mortes confirmadas naquele dia 21.

Alemanha fala da "ligação" e Assad, em "guerra regional"

Na semana passada, ao apresentar o que chamou de provas da culpa de Assad, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, citou uma ligação que comprovaria sua tese, mas não deu detalhes. Nesta segunda-feira, a revista alemã Der Spiegel afirma que este pedaço de inteligência foi obtido pelo Serviço Federal de Inteligência da Alemanha (o BND) e seria uma ligação entre um integrante do Hezbollah, a milícia libanesa que apoia Assad, e a embaixada do Irã, principal aliado do regime sírio. Na conversa, o agente libanês daria detalhes de como Assad convenceu seus comandantes militares a usarem armas químicas no ataque.

Outras informações do governo da Alemanha corroboram o que franceses e norte-americanos estão dizendo. Segundo a Spiegel, as evidências coletadas pelo BND apontam que apenas o regime poderia ter realizado um ataque nas proporções daquele registrado em 21 de agosto.

Em entrevista ao jornal francês Le Figaro, o ditador sírio negou que seu governo tenha sido responsável pelo ataque. De acordo com Assad, seria "ilógico" seu Exército realizar um ataque químico, justamente por conta da repercussão internacional que o ato teria. Assad se recusou a falar sobre retaliações a uma possível ofensiva ocidental, mas disse ver um risco de o conflito sírio se tornar uma "guerra regional" no Oriente Médio.

Lobby

A divulgação de informações por parte dos governos ocidentais, em especial os da França e dos Estados Unidos, é uma tentativa de mobilizar a opinião pública a favor de uma intervenção. No sábado, o ímpeto da Casa Branca a favor de um ataque sofreu um baque, e o presidente Barack Obama decidiu levar a questão ao Congresso. No próximo dia 9, os congressistas norte-americanos se reúnem e devem votar o apoio à entrada no conflito. Ainda que o apoio seja rejeitado, Obama pode optar por atacar sozinho.

No caso francês, o presidente François Hollande tenta convencer a opinião pública de que o ataque é uma decisão correta. Pesquisas de opinião publicadas no fim de semana apontaram que cerca de 64% dos franceses são contra uma ofensiva.

O impacto da opinião pública contra o ataque foi sentido pelo governo do Reino Unido. Na semana passada, o premier David Cameron buscou no Parlamento uma autorização preliminar para usar a força contra Assad, mas acabou derrotado, inclusive com os votos de seus colegas conservadores. Nesta segunda, o governo britânico afirmou que não tentará obter outra autorização, descartando a participação na ofensiva.

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