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França muda discurso sobre expulsão de ciganos

por Envolverde — publicado 10/09/2010 11h03, última modificação 10/09/2010 15h27
"A França não ataca nenhuma comunidade em particular, mas sim a imigração ilegal", diz ministro da Imigração Eric Besson

Por A. D. McKenzie*

A França tenta ganhar aliados para o que passou a chamar de “batalha” contra a imigração de pessoas sem documentos e as redes de tráfico humano após a chuva de críticas que recebeu pela expulsão de ciganos. O ministro da Imigração, Eric Besson, reuniu-se esta semana com ministros e funcionários de vários países, entre eles Canadá, Bélgica, Grã-Bretanha, Grécia e Itália, para discutir políticas comuns de asilo.

Também teve de responder perguntas da imprensa internacional sobre a política da França para os ciganos. “Respeitamos nossos valores republicanos”, disse o ministro aos jornalistas. “Nossa ação está de acordo com a legislação da União Europeia”, assegurou. A polícia francesa desmantelou, nas últimas semanas, acampamentos de ciganos e enviou centenas de pessoas aos seus países de origem, a maioria da Bulgária e Romênia. Aproximadamente, 11 mil foram expulsos no ano passado.

A maioria dos expulsos “optou por serem repatriados de forma voluntária”, afirmou Besson. Grande parte dos ciganos não tem documentação em dia. A França não ataca nenhuma comunidade em particular, mas sim a imigração ilegal, acrescentou. “Pode me indicar um país do Oriente Médio ou da África onde alguém pode viver sem autorização?”, respondeu o ministro ao ser perguntado sobre a hipocrisia da política europeia sobre migrações. “Queremos promover a imigração legal”, acrescentou.

A reunião que manteve como os ministros tinha o objetivo de unir uma política migratória comum da União Europeia (UE) que promova a integração. Contudo, o encontro ficou ofuscado pela condenação local e internacional da França pela rigidez de sua política migratória, que inclui a decisão do presidente Nicolas Sarkozy de tirar a nacionalidade francesa dos cidadãos naturalizados que tentarem matar, ou matarem, funcionários públicos ou policiais.

Milhares de manifestantes caminharam pelas ruas de Paris e outras cidades francesas no dia 4, protestando contra a deportação de ciganos. A previsão é de que alguns representantes políticos vão recomendar uma condenação formal contra a França no Parlamento Europeu. O Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial das Nações Unidas mostrou-se preocupado pelo “aumento de incidentes e episódios violentos de natureza racista contra os ciganos” na França.

Em uma tentativa de restabelecer sua imagem manchada, a França procura mudar seu discurso e aponta para o que chama de “imigração irregular”, dizem organizações de direitos humanos. “As medidas adotadas pelas autoridades dispararam episódios de discriminação contra ciganos e outros imigrantes”, denunciam.

“É extremamente preocupante a política de estigmatizar uma comunidade”, disse à IPS o porta-voz do capítulo francês da Anistia Internacional, Patrick Delouvin. “O chefe de Estado participa da estigmatização e as pessoas recebem a mensagem de que podem discriminar uma comunidade. Há um clima perturbador na França em matéria de direitos humanos”, acrescentou.

Os ministros que participaram da reunião evitaram comentar a expulsão de ciganos. “É um assunto francês”, disse James Brokenshire, secretário de Estado da chancelaria britânica, acrescentando que a Grã-Bretanha “acredita no livre trânsito de pessoas dentro da UE”.

Os 27 ministros do bloco devem harmonizar suas leis e aplicá-las de maneira uniforme, disse Melchior Wathelet, secretário do Ministério de Migração e Asilo da Bélgica, que ocupa a presidência rotativa da União Europeia. “Estes intercâmbios nos ajudam a ser mais solidários e avançar para uma política de asilo responsável”, disse.

Delegados dos países-membros se reunirão em Bruxelas nos dias 13 e 14, para tratar desses assuntos. Entre as propostas, há uma iniciativa para criar um escritório europeu de asilo, que, segundo o ministro do Interior da Itália, Roberto Maroni, tentará “fazer da UE um lugar de acolhida e boas-vindas para pessoas que fogem de uma guerra”.

Eric Besson se reúne há meses com funcionários da Itália e da Grécia para “reforçar” as fronteiras da UE do Mar Mediterrâneo. Cerca de 82% das pessoas que entram na União Europeia sem documentos em ordem o fazem pela Grécia, disse o secretário de Estado grego, Spiros Vougias. A Grécia quer “dar as boas-vindas aos que buscam asilo de forma legítima”, mas não tem recursos para combater a imigração ilegal. “Esperamos maior cooperação europeia”, afirmou.

Resta ver se a cooperação inclui os dez milhões de ciganos, discriminados e perseguidos em muitos países europeus.

*Matéria originalmente publicada na RadioAgênciaNP

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