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México

Guerra contra cartéis transforma jornalismo em profissão perigo

por Gianni Carta publicado 03/09/2011 18h31, última modificação 04/09/2011 03h00
Desde 2000, 83 repórteres foram eliminados no país. Na sexta-feira 2, os corpos de mais duas jornalistas foram encontrados em um bairro da Cidade do México

“É uma guerra em torno do nada”. Foi o que me disse Ed Vulliamy, correspondente do semanário The Observer, ao se referir à guerra entre os cartéis da droga e as autoridades corruptas mexicanas. A guerra, retratada no livro de Vulliamy, Amexica, se estende ao longo dos 2.100 milhas da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Entre 2006 e 2010, o presidente mexicano Felipe Calderón lançou uma campanha anticartéis. Resultado: 24 mil pessoas perderam a vida por conta dessa guerra. Não está claro quem mata os civis. Seriam os sicários dos cartéis, ou os do governo a matá-los? Vai saber.

Jornalistas, é óbvio, também constam da lista dos assassinados. Desde 2000, 83 repórteres foram eliminados. E na madrugada de sexta-feira 2, os corpos de mais duas jornalistas foram encontrados em Iztapalapa, bairro da Cidade do México.

Marcela Yarce e Rocio Gonzalez Trapaga tomavam um café quando foram sequestradas. Os assassinos ataram seus pés e mãos, as desnudaram e as estrangularam.

Fundadora e diretora do semanário Contralinea, Yarce era conhecida pelas suas investigações sobre a violência e a corrupção. Gonzales Trapaga, ex-repórter da rede Televisiva, cobria os mesmos temas para diversos meios de comunicação. Semana passada, Humberto Salazar, diretor de um diário online, também a cobrir a corrupção no México, foi encontrado morto.

Vulliamy acredita que a violência provocada pelo tráfico de drogas “é um resultado direto da privação e miséria causada pela globalização da economia”. Ou seja, o controle dos cartéis da droga está entre os pioneiros da globalização – e, claro, traz benefícios para os traficantes. Tem mais: alguns desses cartéis de drogas têm receita superior aos de várias corporações. Em suma, os cartéis mexicanos são responsáveis por 90% de todas as drogas nos EUA. Segundo Vulliamy, o mercado anual da droga nos EUA é de 323 bilhões de dólares.

Vulliamy, eu o conheço de outros carnavais.  E o admiro. Em 1991, Vulliamy descobriu os campos de concentração de muçulmanos em Omarksa, na Bósnia. Em 2003, ele foi cobrir a guerra no Iraque, mas não “embedded”, ou seja, a integrar o batalhão dos marines, como a vasta maioria dos correspondentes. Ele quis cobrir o evento sozinho.

Indaguei a Vulliamy quais os riscos, para um repórter, no México. “No México, você não vai ser morto tão facilmente como no Iraque. Mas você, provavelmente, será torturado. E, considerados os métodos de tortura, melhor ser morto.”

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