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Fim da era Kirchner se anuncia

por Deutsche Welle publicado 29/10/2013 16h56, última modificação 29/10/2013 17h02
O partido da presidente argentina conseguiu, de fato, manter uma maioria apertada nas eleições do fim de semana. Mas resultado das urnas mostrou também que seu modelo político se esgota.
AFP
cristina

A classe média não peronista nascente quer menos intervenção estatal

*Por Mark Koch, de Buenos Aires

O "modelo Kirchner", uma mistura de controle estatal interno maciço e isolamento externo, já é obsoleto. Dois terços dos argentinos sinalizaram isso com o seu voto, neste fim de semana. Somente os próprios interessados – a presidente Cristina Fernández de Kirchner e sua coalizão de governo da Frente para a Vitória (FPV) – ainda não querem perceber.

Senão, como explicar que, após a avassaladora derrota, altos funcionários da FPV se vangloriaram de ser a principal força política do país, deduzindo a partir daí que deveriam dar prosseguimento ao "modelo". Essa forma da perda de realidade faz lembrar a teimosia dos funcionários do governo da antiga era soviética.

Resultado de uma política arrogante

O bom desempenho do peronista de direita Sergio Massa na importante província de Buenos Aires, e do prefeito conservador da capital, Mauricio Macri, não significam, de forma alguma, que a Argentina tomou o caminho da direita.

Nas cinco províncias em que o governo perdeu a eleição, ele foi superado por todo o rol de forças políticas nacionais, abrangendo até mesmo aquelas bem à esquerda. Não foram somente eleições com vista a um recomeço, foi também um voto contra uma década sob o regime de um clã e seus seguidores devotos.

Com sorte e também com habilidade, há dez anos Néstor Kirchner, esposo e antecessor da atual presidente, conseguiu tirar a Argentina da falência. No entanto, o mais tardar desde a ascensão de sua esposa, Cristina, ficou cada vez mais claro o que está por trás do chamado "kirchnerismo": a mera manutenção e ampliação do próprio poder – disfarçada como política abertamente esquerdista, voltada também à inclusão dos desfavorecidos da população. Na realidade, o nome "Kirchner" designa uma política arrogante, dogmática e agressiva, cujo pensamento "em preto-e-branco" dividiu profundamente o país e o isolou bastante do exterior.

Programas bilionários de bem-estar social para os pobres não alcançaram nada mais do que melhorias de curto prazo. A longo prazo, a pobreza na Argentina piorou. Em vez de demonstrar um intento construtivo, tem características de vingança a perseguição dos supostamente ricos com novas restrições, proibições e regulamentos, prejudicando enormemente as médias empresas.

O fato de este país imenso e rico ter de pagar pelos caprichos políticos de seus líderes, conta entre os momentos trágicos em sua história. A política energética do governo Kirchner, nacionalista e totalmente equivocada, fez com que a Argentina rica em petróleo tivesse de importar a matéria-prima a preços altos. E, em contrapartida, o país não dispõe da tecnologia para explorar suas próprias fontes de petróleo.

A responsabilidade do vencedor

A lista das falhas kirchnerianas é longa: ela vai da má gestão, da infraestrutura miserável e inflação, passando pela corrupção e indo até um cinismo indiferente frente à crescente criminalidade. Agora, o governo está pagando a conta. Mas a derrota da situação não é por si só uma solução.

A responsabilidade que cai sobre os vencedores da eleição Massa e Macri é enorme. Eles ainda não precisam se preocupar muito com o próximo passo: o governo está muito de distante de uma maioria de dois terços que possibilite uma mudança constitucional. Assim, está descartada uma eventual reeleição de Cristina Kirchner.

Massa e Macri anunciaram – um com uma mensagem clara, o outro com insinuações enigmáticas – suas candidaturas para as eleições presidenciais de 2015. De acordo com as pesquisas de opinião, quase metade dos argentinos não quer como chefe de Estado nenhum peronista e tampouco um kirchnerista.

A classe média não peronista nascente quer menos intervenção estatal. E ela também não quer políticos que abusem do Estado como se ele fosse uma loja self-service. Isso deve ser levado a sério pelos candidatos. De outra forma, a era deles pode chegar ao fim antes mesmo de ter começado.

Publicado originalmente em Deutsche Welle

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