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Filha do favorito na eleição paquistanesa vai às ruas

por The Observer — publicado 30/04/2013 15h20, última modificação 30/04/2013 15h27
Maryam Sharif sente o amor da população enquanto pede votos para seu pai, que provavelmente será premier pela terceira vez
Nawaz Sharif

Nawaz Sharif durante comício na cidade paquistanesa de Murree, no domingo 28. Foto: AFP

Jason Burke, em Lahore, Paquistão

O comboio reduz a marcha. Homens dançam diante do veículo do candidato. Pétalas de rosa são atiradas dos telhados. Motocicletas transitam em enxame. “Vejam, vejam quem está chegando”, gritam os seguidores. Um tigre branco no topo de uma van boceja e estende uma pata. Uma criança pequena e um funcionário do partido de 90 anos são carregados pela multidão para oferecer guirlandas.

“É um lindo sentimento ser amado”, diz Maryam Sharif, recostando-se no assento do luxuoso carro esportivo-utilitário, no terceiro dia de sua primeira campanha eleitoral. “Meus ombros doem de acenar durante seis horas por dia. Preciso aprender a acenar sabiamente.”

O eleitorado de Sharif está no centro de Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão. Em duas semanas, a potência nuclear, tão crucial para a estratégia ocidental na região e a luta contra o extremismo islâmico em todo o mundo, vai realizar uma eleição geral. Pela primeira vez nos 66 anos desde a independência, um governo civil eleito democraticamente servirá todo o seu mandato e será substituído por outro.

Todos os dias bombas matam três, quatro, dez pessoas. A última eleição, realizada em 2008, foi adiada depois que Benazir Bhutto, a ex-primeira-ministra por duas vezes, foi assassinada por extremistas em um comício. Apesar da continuação da violência, as autoridades dizem que estas eleições se realizarão no prazo.

Maryam Sharif não é realmente candidata. Ela pede votos em nome do candidato do distrito 120 à Assembleia Nacional. Ele é Nawaz Sharif, presidente da Liga Muçulmana do Paquistão (Nawaz) ou PML-N, e o homem que, segundo preveem as pesquisas, será primeiro-ministro pela terceira vez quando os votos forem apurados. Ele foi eleito primeiramente por esse distrito em 1985, no início de sua carreira política. Maryam é sua filha.

“Eu não sabia o que esperar, mas a reação é maciça. Todas as casas estão nos banhando com pétalas, atirando guirlandas. É tão revigorante. Eu não conhecia o amor por Nawaz Sharif até que fui fazer campanha nas ruas”, ela diz.

Em Lahore, capital da província de Punjab, os Sharif estão em seu próprio campo. A família vive em uma extensa propriedade no sul da cidade. Nas eleições de 2008 eles conquistaram a cidade e o controle da província de Punjab, a parte mais rica e influente do Paquistão. O tio de Maryam, Shahbaz, foi ministro-chefe de Lahore até que as eleições foram convocadas no mês passado.

“Está nos genes, mas não é um caso de família”, diz rapidamente Maryam, de 39 anos. No Paquistão, as dinastias políticas não são raras. A mais famosa é a dos Bhutto. O pai de Benazir, Zulfikar Ali Bhutto, fundou o Partido do Povo do Paquistão (PPP) e conquistou o poder nos anos 1970, antes de ser deposto e enforcado pelo ditador militar Zia ul-Haq. Seu filho de 24 anos, Bilawal, formado recentemente em Oxford, é o presidente do partido. O viúvo de Bhutto, Asif Ali Zardari, é presidente e a líder efetivo do governo de saída do PPP. A ameaça de extremistas a Bilawal é tão grande que ele mal pode fazer campanha e se dirige a pequenos grupos de pessoas, sob forte segurança.

Maryam, que tem três filhos, se encontrou com Benazir Bhutto uma vez, durante o exílio de oito anos dos Sharif, após o golpe militar que pôs fim ao último período de seu pai como primeiro-ministro, em 1999. Apesar de suas diferenças ideológicas, a mulher mais velha deixou uma “marca indelével”, disse Maryam.

A carismática Benazir Bhutto, educada em Oxford e Harvard, instintivamente pró-ocidental, culturalmente muçulmana mais que pessoalmente devota, desfrutou de um profundo apoio nas capitais ocidentais. Mas Nawaz Sharif há muito tempo inspirava suspeitas no exterior, e a constante popularidade do magnata empresarial de 63 anos causava perplexidade em muitas pessoas.

Mas, segundo analistas, os próprios fatores que incomodam os diplomatas ocidentais são os que lhe garantem o apoio de grande número de paquistaneses. As pesquisas mais recentes indicam que o PML-N de Sharif terá 41% dos votos na próxima eleição. As previsões do partido são mais conservadoras, mas ainda apontam uma vitória significativa.

Na sede de campanha recém-reformada do partido no elegante subúrbio de Model Town, em Lahore, fileiras de jovens trabalhadores se sentam diante de telas a monitorar programas de TV ao vivo e mídia social. Eles não estão concentrados nos canais de notícias nacionais vistos principalmente pela elite, menos ainda na imprensa em inglês ou no Twitter, mas nos extremamente populares canais locais e publicações em língua urdu.

Os trabalhadores na campanha dizem acreditar que 20% dos 85 milhões que poderão votar daqui a duas semanas estão indecisos. Do voto principal do PML-N, somente um sexto está nas grandes cidades, dizem. A maioria está em cidades de médio porte, desconhecidas no Ocidente. E a fortuna de Nawaz Sharif é considerada algo a que se deve aspirar, e não criticar.

A família também conquistou reputação por seu conservadorismo religioso e social e por estar próxima do Jamaat-e-Islami, ramo local da Irmandade Muçulmana. O primeiro apoio veio de Zia ul-Haq, que lançou uma ampla campanha de islamização no Paquistão. Quando esteve no poder na década de 1990, Sharif impôs leis que reforçaram a lei islâmica tradicional no Paquistão, apesar de seus seguidores dizerem que o objetivo era superar a direita. Quando forçado ao exílio por um golpe militar, os Sharif receberam refúgio na Arábia Saudita.

Igualmente desconcertante para Washington, Nawaz Sharif negou o apoio do Paquistão na “guerra ao terrorismo” liderada pelos EUA e pediu o fim dos ataques de teleguiados na região oeste do país, que mataram dezenas de militantes da Al Qaeda nos últimos anos.

Mas se isto preocupa o Ocidente agrada a muitos eleitores paquistaneses, especialmente fora da elite urbana. O principal eleitorado, segundo estrategistas do partido, é formado por “pequenos comerciantes de cidades menores”. “Somos chamados de provincianos e de retrógrados. Mas está bem. Não somos. Nossa mensagem é: ‘Vamos continuar construindo um Paquistão melhor’. Tem a ver com suas esperanças”, disse um deles.

A principal oposição no Punjab não são mais os Bhutto e seu PPP, mas Imran Khan, o jogador de críquete que se tornou político. Seu Movimento pela Justiça no Paquistão atraiu muitos que querem mudanças, especialmente jovens. “Eles estão cansados dos mesmos velhos rostos. Sharif não fez nada para ajudar o povo de seu eleitorado. Suas necessidades básicas de educação, saúde e segurança não são preenchidas”, disse a doutora Yasmin Rasheed, uma ginecologista de 63 anos que faz campanha para Khan, contra Maryam e seu pai.

Os seguidores de Rasheed repetem conhecidas alegações de suborno e incompetência durante os primeiros tempos de Sharif no poder, quando, segundo se alega, os amigos receberam grandes empréstimos dos bancos estatais e tarifas manipuladas em favor dos interesses empresariais da família. As autoridades do PML-N negam as denúncias e apontam para o histórico de “administração competente” do partido, que segundo eles trouxe as estradas do país, melhores relações com a vizinha Índia e testes nucleares bem-sucedidos, embora polêmicos, em 1998. Eles também indicam o desenvolvimento mais recente de Lahore, como o ambicioso novo sistema de transporte Metrô-Ônibus. Os maciços cortes de energia são atribuídos ao governo federal.

A entrada de Maryam Sharif na política – e rumores de que ela poderia ser uma futura líder – também se chocam com outro problema de imagem: o de que o partido é masculino demais.

“Quando você vê a filha do líder se adiantar, isso mostra a mentalidade aberta da liderança, que dá espaço às mulheres em altos cargos”, disse Anusha Rehman, ex-parlamentar e importante autoridade do PML.

No entanto, poucos afirmam que os líderes do partido compartilham os sofrimentos da população comum do Paquistão. Talvez nem os eleitores o esperassem ou quisessem. Apesar de o eleitorado da AN-120 incluir as ruas recém-alargadas do centro de Lahore, há muitos bairros onde as famílias vivem em apartamentos escuros de um quarto, com eletricidade intermitente e saneamento mínimo. Os preços dos alimentos estão disparando e a desnutrição e a doença permanecem.

“Não é sua posição financeira que importa, é a vontade de fazer algo pelos outros. Na rua, eu faço parte de suas dificuldades. Não tem a ver com a classe a que você pertence… é a compaixão que você tem no coração”, disse Maryam.

Lá fora a multidão está mais densa que antes. Há vários açougues nesta rua e as pétalas que caem dos telhados pousam entre ossos e sangue. “Vejam quem está chegando”, gritam ativistas do partido. Os açougueiros sorridentes acenam com as mãos sujas. A sorridente filha do candidato retribui o gesto.

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