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Feliz Oriente Novo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/02/2011 10h30, última modificação 28/02/2011 16h02
Com duas ditaduras a menos, o mundo árabe começa a mudar de feição. Até que ponto?
Feliz Oriente Novo

Com duas ditaduras a menos, o mundo árabe começa a mudar de feição. Até que ponto? Por: Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Mohammed Abed/AFP

Com duas ditaduras a menos, o mundo árabe começa a mudar de feição. Até que ponto?

Com hosni mubarak, o Egito tinha uma ditadura de fato sob as aparências de um Estado de Direito, com presidente eleito (em eleições fraudadas), Parlamento (monopolizado pelo governista Partido Nacional Democrático) e Constituição (ditada por Anuar Sadat e Mubarak). Agora, tem uma democracia em gestação sob as aparências de uma ditadura militar que, pressionada pelo povo nas ruas, expulsou o presidente, dissolveu o Parlamento e suspendeu a Constituição. Ou seria essa uma descrição excessivamente otimista dos fatos?
 As primeiras fissuras já aparecem no movimento. É muito mais fácil unir movimentos políticos e sociais em torno de um “não” ao status quo do que em torno do “sim” a qualquer projeto alternativo. O enfrentamento entre as forças que concorrem por dar um sentido ao “não” costuma ser mais longo e amargo do que a inicial, e está apenas começando.
Por que a luta  da Praça Tahrir foi vitoriosa quando as da Praça Tiananmen (Pequim, 1989) e da Praça Enghelab (Teerã, 2009) deram em nada? Segundo o soció-logo Michael Schwarcz, porque conseguiu de fato parar o Egito. Travou de imediato o turismo, vital para o país, e espalhou-se para todas as principais cidades, onde instituições públicas, a começar pela polícia, foram sitiadas, queimadas ou ocupa-das. Nos últimos dias do regime, trabalhadores das indústrias e serviços – inclusive o vital Canal de Suez – também começaram a parar, o que parece ter sido o golpe de misericórdia no velho ditador.
Ao que tudo indica, foi do setor civil do regime – forças policiais, filiados do PND e, principalmente, banqueiros e empresários nas boas graças de Mubarak – que partiu a resistência mais desesperada à revolução. O inesperado e inútil “digo ao povo que fico” da noite da quinta-feira 10, quando já dera a entender à Casa Branca, aos militares e ao partido do governo que renunciaria, parece ter resultado dos esperneios do filho mais novo, Gamal.
Desde 2000, Gamal era o herdeiro e principal conselheiro do pai, além de representar o setor mais agressivo, globalizado e financeirizado do empresariado egípcio. Banqueiro de investimentos, que trabalhou no Bank of America e criou um fundo de investimentos em Londres, escolheu entre seus protegidos o ministério que administrava o país desde 2004, a começar pelo primeiro-ministro Ahmed Nazif, cuja política neoliberal foi responsável por grande parte da deterioração da imagem do regime nesses anos. Tanto que Hosni, ao ver as manifestações explodirem, o trocou, tarde demais, por um “gabinete de guerra” liderado pelo marechal-do-ar Ahmed Shafik.
Gamal e seu círculo,  incluindo o magnata do aço e líder do PND Ahmed Ezz, tinham muito a perder com o fim do regime. Mas, para a grande maioria dos empresários menos comprometidos, continuar o impasse seria desastroso e um massacre, mais ainda. Mesmo que o Exército quisesse jogar fora seu prestígio, seria o fim do turismo e de muitas outras atividades, por muito tempo.
 Logo após o pronunciamento de Mubarak na tevê, o comandante das Forças Armadas, marechal Mohamed Hussein Tantawi – que, segundo mensagens vazadas pelo WikiLeaks, desaprovava as reformas neoliberais –, conversou com ele por duas ou três horas e o forçou a ceder. No fim da tarde do dia seguinte, o vice Omar Suleiman leu na tevê a nota na qual Mubarak renunciava e entregava o poder ao comando militar liderado por Tantawi. O único papel de Suleiman foi o de menino de recados, apesar de a revista Veja ter informado, erradamente, que os militares o tinham posto na Presidência – e escrito que “a liberdade do Egito agora depende- de um campeão da violência”, após descrever admirativamente como ele comandou a tortura de supostos terroristas e matou um deles com as próprias mãos.
 Ao deixá-lo de lado, os militares mostraram mais bom senso que a Veja – pôr o torturador-em-chefe na Presidência seria acirrar a fúria das massas –, mas isso não significa necessariamente adesão sincera à democracia. No domingo, terminado o carnaval da vitória (o fim de semana no Egito, como em muitos países muçulmanos é sexta e sábado), a primeira providência foi despejar os últimos manifestantes que insistiam em ocupar a Praça Tahrir até todas as suas exigências serem satisfeitas, inclusive o fim do estado de emergência, a libertação dos presos políticos, um cronograma eleitoral e a demissão do governo Shafik. Talvez mais importante, proibiram greves e manifestações sindicais, sem serem, até agora, atendidos. Além de reivindicações políticas, os sindicatos querem um salário mínimo de 1.200 libras (205 dólares).
A “Coalizão 25 de Janeiro”,  formada por jovens que lideraram as primeiras manifestações, protestou em nota publicada nos jornais, mas a Fraternidade Muçulmana e os principais partidos da oposição laica fizeram silêncio. Wael Ghonim, executivo da Google e garoto-propaganda da revolução ligado a Mohamed El-Baradei, manteve o apoio aos militares. Tratam de fazer o papel de parceiros confiáveis na transição, do ponto de vista da junta militar, do empresariado e, em boa medida, do Ocidente.
 Até certo ponto. El-Baradei, líder da Frente Nacional da Mudança ou Kefaya (“Basta!”), disse que Tel-Aviv “fez um tratado com Mubarak, não com o povo egípcio”. Ayman Nour, líder do partido liberal centrista El-Ghad (“Amanhã”), integrante da frente, prometeu rever o tratado de paz com Israel ao se tornar o primeiro candidato explícito à Presidência. O partido Tagammu ou Nacional-Progressista (socialista e tido como o maior da oposição laica) é crítico das relações com Washington e Tel-Aviv e as reservas da Fraternidade Muçulmana às relações com o Estado judeu são bem conhecidas.
Os militares mostram respeito, talvez preferência, pelos islamitas. Ao assumirem o poder, deixaram o presidente da Suprema Corte, Farouk Sultan, na chefia interina (e nominal) do Estado, conforme propôs a Fraternidade, em vez do presidente do Parlamento, Fathi Sorour (sucessor constitucional, mas demasiado comprometido com o PND e Mubarak), ou de El-Baradei, o interino preferido da oposição laica.
A junta também nomeou oito juristas para redigirem uma reforma constitucional, a ser apresentada em dez dias e aprovada em referendo em dois meses, para ditar as regras da eleição a ser celebrada em seis meses. E o chefe da comissão, Tareq el-Bishri, é um islamita moderado, assessor do movimento Kefaya, mas bem visto pela Fraternidade. Outro integrante é Sobhi Saleh, proeminente ex-deputado da Fraternidade. Há um juiz copta, Maher Youssef, e os outros cinco são juízes e professores  sem filiação política conhecida. O próprio cronograma acelerado favorece grupos enraizados em relação a El-Baradei, que viveu as últimas décadas na Europa.
A Fraternidade não pretende lançar um candidato próprio à Presidência ou espera controlar a maioria do Parlamento, mas seu apoio a um líder laico pode ser decisivo. Sua força vem de redes de assistência social, da difusão por países muçulmanos, da presença de militantes leigos em várias camadas sociais e do papel de referência para os destituídos por décadas nas quais não existiu oposição parlamentar laica. É possível um governo islâmico moderado vigiado por militares, a exemplo da Turquia.
Uma guerra é improvável, mas o esfriamento das relações com Israel é quase certo. Na impossibilidade de dar resposta rápida aos problemas mais concretos do povo revoltado – pobreza, desemprego, salários baixos, alta dos preços dos alimentos –, qualquer governo se sentirá tentado a compensar isso com satisfações simbólicas, tais como uma política externa que ao menos pareça mais independente, altiva e solidária para com o mundo árabe.
O único líder civil  a prometer manter os laços com Israel é Amr Moussa, que foi chanceler de Mubarak nos anos 90 e desde 2001 representante do Egito e secretário-geral na Liga Árabe, cargo que deve deixar nos próximos dias. Mesmo ele contrariou Tel-Aviv, pressionando na ONU pelo fim do bloqueio a Gaza e visitando a faixa controlada pelo Hamas, mas é o mais próximo de um “candidato da continuidade” com chances e foi apontado pelo jornalista Seymour Hersh como o “plano B” dos EUA. Terá chances em uma eleição livre, na qual suas ligações com o antigo regime serão abertamente debatidas?
Moussa também disse que os demais governos árabes nada têm a temer da revolução egípcia, mas essa promessa é vazia. A queda de Mubarak encorajou a oposição a outros regimes autoritários na região.
Em 12 de janeiro, 3 mil argelinos saíram às ruas e 30 mil policiais foram mobilizados para contê-los, enquanto o governo prometia suspender a lei de emergência e tomar outras medidas de abertura. Mesmo assim, manifestações maiores continuaram a ser convocadas para 19 de fevereiro.
Nos dias seguintes, viram-se milhares continuarem a enfrentar a polícia na capital e em várias cidades do Iêmen, em um movimento de crescimento mais lento que o do Egito, mas muito firme. Idem na Jordânia, onde a substituição do gabinete não satisfez a oposição. Na Tunísia, onde ministros continuaram a cair e manifestantes a enfrentar a repressão do governo interino, enquanto migrantes na miséria aproveitam a brecha na ordem para chegar à Itália em pequenas embarcações. No Iraque, onde milhares saíram às ruas de Kut e no Curdistão e houve cinco mortos. Na Líbia, centenas fizeram protestos contra Muammar Kaddafi em Bengazi e Al-Bayda, onde a repressão fez mais 14 mortos.  No Sudão, mulheres saíram às ruas pedindo a libertação de filhos e maridos presos.
A Autoridade Palestina pôs as barbas de molho: dissolveu o ministério, destituiu o negociador Saeb Erakat (desmoralizado pelo vazamento das concessões a Israel pela Al-Jazira) e prometeu eleições até setembro – de legitimidade problemática, uma vez que o Hamas, que controla Gaza, se recusa a participar. Até Israel reverteu medidas de austeridade, portando-se mais como país árabe do que como europeu.
No Irã, o governo festejou  a queda de Mubarak – que coincidiu em 11 de fevereiro com o 32º aniversário da revolução de Khomeini – e a considerou uma vitória, mas na segunda 14, alguns milhares de militantes da oposição saíram às ruas igualando a revolução egípcia aos protestos oposicionistas iniciados em 2009, enfrentando uma repressão que deixou dois mortos. Nesse caso, as manifestações ainda não parecem ameaçar seriamente o regime, que ainda mostra capacidade de mobilização social.
Não houve nada digno de nota na Arábia Saudita, apesar da preocupação do Ocidente e do próprio rei Abdullah, que para manter Mubarak chegou a oferecer ao Egito substituir a ajuda de 1,5 bilhão de dólares anuais que Obama ameaçou suspender se os militares não o fizessem ceder. Na Síria, apesar da torcida ocidental em sentido oposto, também não se vê maior mobilização. No Marrocos, as manifestações restringiram-se à internet.
Proporcionalmente impressionante é, porém, o movimento no Bahrein. A morte de dois dos primeiros manifestantes mobilizou dezenas de milhares a ocupar a praça principal da capital em um país com área e população comparáveis às da ilha de São Luís, mas de importância estratégica, visto ser a principal base naval dos EUA no Golfo Pérsico e importante centro financeiro. As forças da repressão atacaram brutalmente os manifestantes na madrugada, deixando seis mortos e centenas de feridos. Os protestos partem dos xiitas, marginalizados desde o século XVIII, apesar de somarem 70% da população, e sua vitória traria provavelmente o fim da monarquia sunita e um governo mais simpático ao Irã.
É cedo para avaliar  o alcance dessas revoluções, mas é certo que a vontade dos povos da região não mais poderá ser de todo ignorada e submetida a líderes autoritários. Uma nova ordem vai se articular na região, com consequências para todo o mundo.
Pode-se esperar o crescimento da influência de Ancara e Teerã (ao menos enquanto a teocracia não for abalada) e um maior isolamento de Israel. Sem o respaldo do Egito e com instabilidade em vários países árabes, dificilmente haverá clima para um ataque ao Irã que, para testar sua nova liberdade de movimentos,enviou navios de sua Marinha ao Mar Vermelho e à Síria, no Mediterrâneo, esperando passar por Suez.
A médio prazo, o pan-arabismo sonhado por Nasser pode ressuscitar mais sólido e eficaz, criando associações fundadas em instituições democráticas e não no carisma de líderes passageiros. No plano militar, a região tende a se afastar da órbita da Otan – à qual são formalmente coordenados, atualmente, Egito, Jordânia, Argélia, Tunísia, Marrocos e Mauritânia, além de Israel –, e no econômico, da tutela do FMI, Banco Mundial, EUA e União Europeia, talvez seguindo modelos comparáveis aos da esquerda sul-americana (provavelmente com maior influência religiosa). O mundo árabe será mais um bloco relativamente autônomo em um mundo cada vez mais multilateral.

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