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Federer contra-ataca

por Gianni Carta publicado 22/09/2008 17h02, última modificação 25/10/2011 13h40
Federer não é exatamente o tenista imbatível de outrora. Não somente porque teve de lidar com a doença, mas também porque o jogo evoluiu

Federer não é exatamente o tenista imbatível de outrora. Não somente porque teve de lidar com a doença, mas também porque o jogo evoluiu

Com sua vitória no US Open na segunda-feira 8, Roger Federer contrariou vários críticos que anunciavam o fim de sua carreira. Aos 27 anos, o suíço coleciona, agora, treze troféus de torneios de Grand Slam – passa a ser o primeiro tenista na era do tênis profissional a colecionar cinco títulos consecutivos no US Open, e o primeiro de todos os tempos a ter vencido cinco vezes consecutivas o US Open e Wimbledon.

A julgar pelas suas performances ao derrotar Novak Djokovic e, na final, Andy Murray, este em velozes três sets, Federer está de volta. Parece certo que o suíço supere o recorde de catorze Grand Slams vencidos por Pete Sampras. No entanto, a feição do esporte mudou, e Federer não será mais o invencível tenista dos últimos cinco anos. Além de ter de enfrentar Rafael Nadal, que neste ano o humilhou na final de Roland Garros, e para quem também perdeu em épico embate na grama de Wimbledon, há dois novos fortes rivais: o sérvio Djokovic, terceiro no ranking da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), e o brilhante escocês Andy Murray, agora quarto. Felizmente, o tênis deixou de ser previsível. Ganham, por tabela, os amantes do jogo.

As críticas envolvendo Federer tinham – e têm – fundamento. O suíço começou o ano com o pé esquerdo por causa de uma febre glandular, uma mononucleose. Menos veloz e bastante impreciso, Federer perdeu nas semifinais do Aberto da Austrália para Djokovic. Após ter sido derrotado por Nadal em Roland Garros pela terceira vez, e ter perdido a primazia em Wimbledon, sua primeira posição na ATP passou para Nadal. Para piorar o quadro, perdeu jogos contra tenistas inexpressivos que havia batido facilmente até então.

Embora tenha tido lampejos notáveis na semifinal do US Open contra Djokovic (defendeu um smash com um smash/voleio que lobou o sérvio), Federer não é exatamente o tenista imbatível de outrora. Não somente porque teve de lidar com a doença, mas também porque o jogo evoluiu. Do fundo da quadra, Nadal, Djokovic e Murray executam violentas angulações carregadas de topspin outrora inimagináveis. Para complementar, o intenso trabalho físico torna tenistas como Nadal atletas de nível jamais visto numa quadra de tênis.

Não espanta, portanto, que Federer não possa mais dominar rivais como Djokovic de qualquer canto da quadra: seja do fundo, seja na rede. De fato, Federer adotou uma nova estratégia. Embora possa contar com sua direita, a qual John McEnroe chama de “o melhor golpe do tênis”, no US Open o suíço teve de ir mais à rede. Diga-se que nem todos os seus voleios foram eficientes. De fato, cometeu erros não forçados em quantidade superior àquela dos tempos melhores. Embora fluido, como todos os golpes de Federer, o voleio de direita às vezes foi medíocre. Melhor o de esquerda.

Federer também passou a depender mais de seu excelente serviço, ainda uma de suas maiores armas pelo seguinte motivo: invariavelmente o suíço lança a bola da mesma forma, independentemente do lugar onde queira servir. Resultado: seus oponentes não conseguem “ler” seu serviço e com freqüência são surpreendidos. No entanto, as devoluções também evoluíram e, portanto, até o saque de Federer deixou de ser uma ameaça fatal.

Nesse contexto tudo é possível. A confiança de Federer será capital para que ele continue no páreo. Seus sucessores – Nadal, Djokovic e Murray – são meia década mais novos que Federer, mas não parece que todos venham a ser longevos no mundo da bolinha. Apesar da tenra idade para o jogo, Nadal sofre de tendinite, Djokovic padece de entorses nos joelhos e tornozelos e sofre em quase todos os jogos. Murray, o mais novo do trio, surge, por ora, como o mais resistente.

Revelação do ano, o britânico está mais forte fisicamente, é dono de um serviço brilhante e de uma das melhores esquerdas do circuito. Sua direita poderia ser mais agressiva, e com uma melhor devolução de serviço Murray tem chances de ser o primeiro da ATP.

Isso seria ótimo. O miúra espanhol apresenta, com suas camisas regata, um jogo robótico, pontilhado por grunhidos e gestos um tanto bizarros. Djokovic, espécie de prima-dona, é, com razão, detestado por vários tenistas. Embora irritadiço, com sua barba rala e olhar de menino mimado, pelo menos Murray tem o repertório de golpes mais cativante dos três. Perspicaz, elegante, o jovem britânico disse que Federer é provavelmente o melhor tenista de todos os tempos. De fato. E mesmo quando Federer não está no seu auge.