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Faz de conta que não é com a gente

por Gianni Carta publicado 09/03/2011 10h22, última modificação 25/10/2011 11h51
Nicolas Sarkozy muda o Ministério do Exterior, antes ocupado por Michèle Alliot-Marie, e se afasta dos déspotas árabes
Faz de conta que não é com a gente

Nicolas Sarkozy muda o Ministério do Exterior, antes ocupado por Alliot-Marie (foto), e se afasta dos déspotas árabes. Por Gianni Carta. Foto: Georges Gobet/AFP

Este deveria ser o ano em que Nicolas Sarkozy, a liderar o G-8 e o G-20, traria a França de volta à ribalta da diplomacia mundial. No entanto, as revoltas no mundo árabe revelaram uma diplomacia francesa desnorteada. Após mais de dois meses de silêncio, desde o início das manifestações tunisianas e da deposição do ditador Zine el-Abidine Ben Ali, Sarko fez um gesto inesperado: tomou a iniciativa e posicionou-se na liderança do Conselho Europeu na campanha para impor sanções a Muammar Kaddafi. A Franca enviou, ainda, dois aviões para Bengazi, a leste da Líbia. Os aviões transportaram médicos, enfermeiras e medicamentos.

Dia 27, Sarko fez uma intervenção televisiva. No mesmo dia forçou a ministra das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, a se demitir e colocou no cargo o ex-primeiro-ministro e atual prefeito de Bordeaux, Alain Juppé. Aproveitou para fazer mais um remanejamento do gabinete (o último datava de novembro) para, segundo ele, melhor lidar com os tumultos árabes.

Alliot-Marie teria iniciado a sucessão de gafes na Tunísia. Escassos dias antes de Ben Ali fugir do país, a ministra, de 65 anos, ofereceu ao ditador auxílio policial para lidar com os manifestantes. Outras revelações vieram à tona. Enquanto passava férias de Natal na Tunísia e protestos reverberavam em Túnis, a ministra aceitou uma e depois mais outra oferta para viajar nos jatos de Aziz Miled, empresário de 71 anos que fazia parte do comitê central do RCD, o partido de Ben Ali. As contas de Miled na Suíça estão congeladas.

Os pais de Alliot-Marie, com a filha na Tunísia, aproveitaram para comprar uma propriedade de Miled. Interrogado sobre a demissão de sua colega, Patrick Ollier, ministro das Relações com o Parlamento, também passageiro nos jatos de Miled, repetiu as palavras da companheira: a mulher não fez nada de ilegal. Ollier, responsável pela reaproximação de Sarkozy e Kaddafi, em 2007, foi mantido no cargo.

Outro a continuar foi François Fillon. Motivo: é mais popular que Sarkozy. Foi o primeiro a anunciar: “A França está quebrada”. Enfim, o homem certo em tempos de austeridade. Contudo, em fevereiro o semanário satírico Le Canard Enchaîné revelou que Fillon e a família receberam tratamento especial do governo egípcio no ano-novo. Cairo pagou hotel, viagem de barco no Nilo e outra num jato para sobrevoar a capital. Fillon contra-atacou. O Estado francês bancou o voo de Paris ao Cairo, e mais a conta de seus guarda-costas e pilotos no hotel, afirmou.

Por sua vez, Juppé, ex-premier de Jac-ques Chirac (1993-1995), é outro ficha-suja. Em 2004, foi condenado a 14 meses de prisão com sursis (suspensão condicional da pena), e a um ano sem poder ocupar cargos públicos. Acusação: corrupção política. O caso de criação de empregos fictícios remonta aos tempos em que Chirac era prefeito de Paris, e o leal Juppé, agora com 65 anos, trabalhava para ele. Chirac, contudo, obteve imunidade política durante seus dois mandatos na Presidência. Ironia das ironias, o julgamento de Chirac começa, 15 anos após os fatos, no dia 7.
Apesar de suas falcatruas, 55% dos franceses confiam no premier Juppé. Ele é tido como o homem que poderia ameaçar Fillon, no caso de uma disputa entre os conservadores pela Presidência em 2012. De qualquer forma, uma coisa é clara: a nomeação de Juppé revela a fragilidade de Sarko. Às vésperas das presidenciais, menos de 30% dos franceses confiam no seu presidente.

Diante do marasmo econômico e de reformas impopulares, como a da aposentadoria, Sarko precisa angariar pontos na área de política exterior. Nomear- Juppé- implica riscos. Sarko teve de colocar seu braço direito, o ex-secretário-geral do Élysée, Claude Guéant, no Ministério do Interior. Essa foi uma das condições impostas por Juppé, já que Guéant tem sido bastante influente na política exterior – e ele não quer um rival no seu ministério.
Nomeação de Juppé à parte, nenhuma dessas mudanças convenceu a extrema-direita e legendas de esquerda. Até diplomatas formaram grupos numa campanha contra o presidente. Escreveram no vespertino Le Monde que a política exterior do presidente é “amadora” e baseada na sua “impulsividade” e preocupação em capturar a atenção da mídia. Mais: “A Europa está sem poder, a África nos escapa, o Mediterrâneo não fala conosco, a China nos menospreza e Washington nos ignora”. O grupo de diplomatas, por ora anônimo, assinou “Marly”.

Que os “saltimbancos” da esquerda ataquem o presidente, argumentou o semanário satírico Le Canard Enchaîné, é “rotina”. Mas quando embaixadores começam a se reunir nas “adegas dos bistrôs chiques para criar redes clandestinas” é sinal de percalços pela frente.

É importante lembrar que na Quinta República a diplomacia francesa é domínio reservado ao presidente. Sar-kozy impôs sua imagem pessoal como fio condutor da política exterior do país. Quando eleito, em 2007, prometeu uma política “engajada ao lado dos oprimidos”. No mesmo ano, recebeu Kaddafi com tapetes vermelhos. O coronel acenou com a possibilidade de comprar aviões Airbus, um reator e outros equipamentos nucleares. Sarko anunciou, à época, estar “muito contente” em receber o líder líbio para encorajar seu retorno a uma “respeitabilidade internacional”.

Crítica, Rama Yade, então secretária de Estado dos Direitos do Homem e de Relações Estrangeiras, foi convocada pelo presidente a comparecer no Élysée. Yade manifestou seu desconforto com a chegada do líder líbio em 10 de dezembro, quando se celebram os direitos do homem. Para um vespertino, Yade havia dito: “E me incomodaria ainda mais se a diplomacia francesa se contentasse em assinar contratos comerciais sem exigir de Kaddafi garantias em termos de diretos do homem. É um dever: a França não é uma balança comercial”. Sarkozy deu uma lição de realpolitik a Yade.
A Líbia não fechou nenhum negócio com a Franca após a visita de Kaddafi. Certamente por isso, ao contrário da Itália e do Reino Unido, que mantinham sólidas relações comerciais com Trípoli, foi mais fácil para Sarkozy exigir as atuais sanções contra o coronel.

O presidente francês culpa as embaixadas por não terem previsto as revoltas no mundo árabe. Diplomatas alegam que Sarko não escuta o que lhe dizem os embaixadores. A bola está no campo de Juppé. É ele quem deverá estabelecer uma política exterior da França. Enquanto isso, o Partido Socialista opina: os problemas da política exterior foram provocados por Sarko.

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