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Tensão

Ex-repúblicas soviéticas temem expansionismo russo

por Deutsche Welle publicado 13/03/2014 04h49, última modificação 13/03/2014 09h37
Moscou justifica a intervenção na Crimeia com seu papel de defender cidadãos de origem russa. Argumento gera preocupações entre países vizinhos, sobretudo no Báltico
YURY KIRNICHNY / AFP
ucrânia

Em Kiev, pôster com suástica na bandeira russa protesta contra a ingerência de Moscou na Ucrânia

Em Riga, capital da Letônia, manifestantes depositam rosas e buquês nas grades da embaixada da Ucrânia, como forma de expressar sua indignação com a intervenção russa. Muitos letões sentem a proximidade da crise na Crimeia e se preocupam com os possíveis desdobramentos.

"Fomos ameaçados por tanques soviéticos em 1991", lembra um transeunte. A manobra militar foi uma última tentativa de Moscou de impedir que o país declarasse a independência, em pleno colapso do bloco soviético.

A situação da Letônia é comparável à da Ucrânia em diversos aspectos, histórica e etnicamente. O país possui uma minoria russa significativa, de quase 27% da população; em Riga essa proporção chega a 50%. A maioria desses cidadãos veio para o país durante a era soviética.

Letões divididos

Hoje em dia, a Letônia é uma sociedade dividida, afirma o sociólogo letão Arnis Kaktins. Existem escolas letãs e russas, cada nacionalidade tem seu teatro próprio e sua mídia independente, que cobre a crise da Crimeia de acordo com suas próprias interpretações.

Enquanto a imprensa de idioma russo, predominantemente financiada por Moscou, exalta a intervenção do país na península do Mar Negro, os veículos letões noticiam sobre os protestos em Riga contra o presidente russo, Vladimir Putin. "Os russos neste país admiram Putin e amam a Rússia. Os letões, em contrapartida, temem a Rússia devido à história comum traumática", explicou Kaktins em entrevista à DW.

"As lembranças e a memória coletiva dos letões sobre a política da União Soviética, a partir de 1940, ainda estão bem vivas. Sobretudo os mais velhos as associam às ações russas na Crimeia, e formulam isso bem claramente", comenta Norbert Beckmann-Dierkes, diretor da sucursal em Riga da alemã Fundação Konrad Adenauer. Por outro lado, o fato de a Letônia ser membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia dá uma certa segurança e o povo "confia que as alianças são úteis".

UE e Otan como segurança

Além disso, a situação básica dos demais Estados bálticos é bem diferente da da Crimeia. "A população que fala o idioma russo afirma claramente: 'Somos pela Rússia'. Mas também: 'Queremos permanecer na Letônia, não queremos de forma alguma voltar à Rússia'", observa Beckmann-Dierkes. Também os russos locais não querem perder as vantagens que traz a filiação da Letônia à UE.

Sabine Fischer, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e Segurança (SWP), avalia que são improváveis acontecimentos semelhantes aos da Crimeia nos países bálticos. "Justamente pelo motivo de esses Estados serem membros da Otan desde 1999 e da UE desde 2004. Aqui se estabeleceram fatos que tornam uma intervenção nos países bálticos muito perigosa para a Rússia."

Diferente é a situação na Moldávia, ressalva a cientista política. Para o ex-país satélite da União Soviética no Leste Europeu, há 22 anos já é realidade o possível resultado, para a Ucrânia, da crise na Crimeia. Em 1992, separatistas russos deflagraram uma guerra de secessão nesse território da Moldávia a leste do Rio Dniester, afluente do Mar Negro, criando um Estado próprio, a República da Transnístria, não reconhecida internacionalmente.

Até hoje a Rússia lá mantém seu 14º Exército, oficialmente definido como missão de paz. O território, de cerca de 200 quilômetros de comprimento e menos de seis quilômetros de largura, é também economicamente dependente de Moscou.

Os choques na Ucrânia, especialmente na Crimeia, "trarão efeitos negativos para a situação da segurança na Moldávia e no conflito da Transnístria", antecipa Fischer. "É muito provável que nos próximos meses Moscou vá tentar mais uma vez explorar mais ainda esse conflito. Isso se deve em grande parte ao acordo de associação que a República da Moldávia pretende assinar em agosto com a União Europeia."

Novos temores na Moldávia

Essa avaliação é compartilhada pelo presidente do Comitê Permanente de Inteligência do Congresso dos Estados Unidos, Mike Rogers. Ele acredita que Putin almeja reforçar e estender o cinturão de proteção em torno da Rússia. "Seu próximo alvo será a República da Moldávia, além de outras regiões", afirma. Após os acontecimentos na Ucrânia, crescem na capital moldava, Chisinau, os temores de uma nova intervenção russa.

Isso também se deve aos eventos na região autônoma da Gagaúzia, no sul da Moldávia. Num referendo realizado em fevereiro, uma maioria esmagadora de 98.5% optou a favor da união alfandegária com a Rússia. O resultado remete aos tempos da União Soviética, e observadores não descartam que Moscou possa tê-lo influenciado. E se os russos da Gagaúzia pedirem proteção às Forças Armadas russas, então a crise da Crimeia poderá se tornar o modelo para uma nova política expansionista do Kremlin.

O governo em Moscou está cogitando sobre uma lei que facilitaria a obtenção da nacionalidade russa para todos os cidadãos de idioma russo nas ex-repúblicas soviéticas – fato que estas interpretam como um sinal de alerta.

O cientista político letão Andris Spruds, da rede N-Ost, de reportagens sobre o Leste Europeu, alerta que a comunidade internacional não deve assistir impassível às ações da Rússia na Crimeia. Pois isso poderá encorajar o Kremlin a "defender" a população de idioma russa em todos os países, "segundo o lema: já que ninguém reage, então vamos ocupar o próximo país".

Autoria Wulf Wilde (rc)

Edição Augusto Valente

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