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Crise argentina

Ex-presidente da Argentina se diz vítima de golpe por peronistas e FMI

por Opera Mundi — publicado 21/12/2010 09h28, última modificação 06/06/2015 18h17
Aos 73 anos, nove anos após a renúncia, Fernando De la Rúa não pensa em se candidatar novamente e fala com naturalidade da crise que levou seu governo ao fim, dois anos antes do previsto

Por Daniella Cambaúva, do Opera Mundi

No dia 20 de dezembro de 2001, após 740 dias de governo, o então presidente da Argentina, Fernando De la Rúa, renunciou ao cargo. O país passava por uma grave crise e a insatisfação popular foi tão forte que ele se viu obrigado a deixar a Casa Rosada, sede do governo, a bordo de um helicóptero.

Aos 73 anos, nove anos após a renúncia, De la Rúa não pensa em se candidatar novamente e fala com naturalidade da crise que levou seu governo ao fim, dois anos antes do previsto. Durante visita a São Paulo para participar de um seminário, o ex-presidente conversou com o Opera Mundi e disse ter sido vítima de um “golpe civil” orquestrado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelo então governador de Buenos Aires, o oposicionista Eduardo Duhalde.

Como hoje, quase dez anos depois, o senhor avalia a crise que levou ao fim do seu governo?
Foi uma situação muito difícil porque eu recebi o governo com uma alta dívida externa, que passava por uma recessão, e a desvalorização do Real, que afetava muito a nossa economia. Sofríamos também com o esfriamento da economia na região, no mundo. Houve também uma atitude hostil do FMI, que aconteceu a partir da chegada dos republicanos no governo dos Estados Unidos.

[De la Rúa estava se referindo à economista norte-americana Anne Krueger, vice-diretora gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional),que esteve no cargo de 01 de setembro de 2001 a 1 de setembro de 2007. Apelidada de 'Dama de Ferro' pela imprensa argentina, ela ficou conhecida por suas críticas aos governos de Carlos Menem (1989-1999) e de De la Rúa, alegando que seus planos econômicos eram irresponsáveis.]

Aconteceu o que muitos chamam de “uma tormenta perfeita”: a situação era de impaciência - tanto por parte da sociedade quanto dos políticos da oposição -, exigiam-se soluções rápidas e ignorava-se o esforço que fazíamos para tentar superar a recessão. E a oposição, o peronismo, principalmente na província de Buenos Aires, unido ao FMI, quis ganhar o país, o governo. O peronismo quis apoderar-se do governo. Foi isso que aconteceu.

Por que o senhor optou pela renúncia?
Porque as ruas já estavam tomadas pela violência, a oposição dominava o congresso e havia anunciado a rejeição ao orçamento, sem o qual eu não tinha argumentos para a defesa financeira internacional. E também para evitar a saída da Argentina de organizações internacionais que exigem a continuidade democrática.

Havia muitos protestos, a população tinha muito medo de perder o dinheiro que estava nos bancos, havia muitas demandas. Eu fui à TV fazer um discurso para tentar convencer de que é preciso ter paciência, mas não consegui. Em menos de um ano, a situação seria outra. Teríamos evitado a moratória, e o tombo não teria sido tão forte. Sete meses depois da minha renúncia, o cenário já era outro. Começaram a mudar os preços por causa da China [em crescimento como país exportador de produtos com baixo custo] no comércio internacional. Se você analisar, uma situação parecida acontecia no Brasil e no Uruguai. Só que o FMI apoiou e, nesses casos, a oposição foi construtiva. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, foi falar com Lula, e o Lula deu apoio. Na Argentina, somos mais duros. Isto repercute negativamente até hoje. Como consequência, houve a moratória, houve uma desvalorização traumática, e os efeitos ainda são sentidos.

Se pudesse voltar atrás hoje, poderia ter sido feito algo diferente?
Eu me pergunto todos os dias se eu fiz bem ou mal em renunciar, mas era isso que o golpe queria. Mas essa é uma pergunta que você tem que fazer aos outros, aos que deram o golpe institucional, e que não se arrependem de tê-lo feito. E causaram muitos danos.

Quem deu o golpe?
O Partido Justicialista, principalmente Eduardo Duhalde, e o FMI. Eu estava tentando mudar uma situação que eu não havia criado. Reduzi os gastos públicos em 3 bilhões de dólares em 2000. Mas 2001 foi um ano difícil, pois havia muitos vencimentos da dívida e todos os fatores da economia estavam contra nós. A crise econômica já não podia ser controlada, superada, e isso foi se agravando.

A situação política já estava instável, o peronismo não nos deixou governar. Temos um sistema bipartidário [UCR (União Cívica Radical), de De la Rúa e Raúl Alfonsín, e PJ, peronista] em que o peronismo é muito agressivo se não está no poder.

O senhor acredita que o FMI não deu apoio à Argentina?
O FMI acabou de oferecer 30 bilhões de euros à Grécia. Para mim, recusaram 1 bilhão de dólares. O FMI apoiou o Brasil e negou apoio à Argentina. Isso foi fundamental, marca os caminhos e as diferenças, porque o Brasil conseguiu se recuperar. A Argentina, não.

Em sua avaliação, a paridade entre o dólar e o peso argentino era sustentável, ou foi um fato que contribuiu para a crise?
A conversibilidade [política de câmbio fixo] era sustentável porque tínhamos reservas, mas era uma prisão, um obstáculo, uma herança do governo Menem. Eu queria criar as condições para sair desse modelo, mas era preciso ter uma condição econômica mais favorável para não acontecer o que aconteceu quando Duhalde desvalorizou a moeda. Houve aumento da pobreza e desemprego.

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