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Política Monetária

Europa: que delírio é este?

por Revista Forum — publicado 07/12/2010 10h00, última modificação 07/12/2010 10h07
Uma tal regressão social, de uma violência inédita, desencadeia um processo de destruição das sociedades e conduz ao desmembramento da União Europeia

Uma tal regressão social, de uma violência inédita, desencadeia um processo de destruição das sociedades e conduz ao desmembramento da União Europeia
Por Michel Husson
A política de austeridade orçamental está realmente demente. Não faz mais do que reduzir o crescimento, sobretudo os procedimentos que foram adotados. Afirmar o contrário é ir contra a teoria econômica ("O bom momento para a austeridade é o 'boom' não a recessão", dizia Keynes) mas também ao balanço das experiências passadas. Um recente estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma que uma “consolidação orçamental” de um ponto no Produto Interno Bruto (PIB) conduz à baixa do PIB em 0,5%, podendo chegar a 1% se tal política é estendida a um grande número de países.
Um relatório parlamentar veio fazer as contas da França. Segundo o governo, o déficit passará de 7,6% do PIB em 2009 para 2,5% em 2014. Mas este resultado repousa em hipóteses otimistas: retoma do crescimento (2% em 2011, 2,5% nos anos seguintes) e da frágil progressão das despesas (+0,8% em volume por ano contra uma média de 2,3% entre 2000 e 2008). Com hipóteses mais realistas (crescimento de 1,5% e progressão das despesas em 1,1%), o déficit será ainda de 6,3% do PIB em 2014, e a dívida pública continua a aumentar mais rapidamente que o PIB. Travar o crescimento é também travar as receitas orçamentais.
O pessimismo é ainda reforçado pela generalidade da austeridade ao conjunto da Europa. Que um país leve a cabo tais políticas é uma coisa. Mas é outra quando todos os países europeus o fazem ao mesmo tempo. No entanto, o mecanismo multiplicador não é tido em conta, ou é muito parcialmente, nas previsões de onde elas vêm.
Poderá a Europa ser salva pelo resto do mundo? Esta solução está também bloqueada. Os EUA estão presos num frágil crescimento e Obama não poderá fazer nada mais que estímulos (no melhor caso). A política econômica está bifurcada em direção à injecção de liquidez (quantitative easing) que é favorável aos especuladores e que risca alimentar a próxima bolha financeira. Em todo o caso, poderá ter um efeito imediato de baixar o dólar e, portanto, a competitividade das exportações europeias.
E os países emergentes? De fato, eles contribuem para a procura mundial. Mas todos os países europeus não estão assim tão bem situados e como tal não podem mais do que acentuar a divergência das trajetórias na Europa. Mesmo no caso da Alemanha, as exportações para os emergentes não poderão compensar um acentuado abrandamento do mercado europeu: os países da Europa Central e Oriental e a China não representavam em 2009 mais do que 16% das exportações alemãs, e estas dependem ainda em grande parte – cerca de 63% - do mercado europeu.
Por que é que a austeridade se torna brutal? A pressão dos mercados financeiros é frequentemente invocada. Mas esta pressão só existe na medida em que os governos europeus não fizeram nada para eliminá-la desde o início. As razões de fundo são outras, e em primeiro lugar está a recusa em ir além do "cada um por si" na coordenação das políticas nacionais. Mas a crise é sobretudo uma oportunidade e o pretexto para uma terapia de choque que visa fazer pagar a crise por aqueles que não são seus responsáveis e também fazer emagrecer o Estado Social. É suficiente constatar que os planos de austeridade obedecem a dois grandes princípios: reduzir a despesa, sobretudo a despesa social, e aumentar as receitas. E quando as aumentamos apesar de tudo, como é o caso do IVA, o imposto socialmente mais injusto, estamos perante uma desvalorização camuflada.
Uma volta rápida pela Europa mostra que os governos de esquerda e de direita não distinguem em nada neste projeto que consiste em atordoar os povos, e todos eles explicam que não há alternativa. Uma tal regressão social, de uma violência inédita, desencadeia um processo de destruição das sociedades, e conduz ao desmembramento da União Europeia. Esta arrisca-se a entrar novamente em recessão, a menos que as resistências sociais forcem os seus governos a recuar.

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