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Internacional

Coluna Econômica

Europa empurrando a crise com a barriga

por Luis Nassif publicado 12/12/2011 12h25, última modificação 12/12/2011 12h25
Com a economia norte-americana andando devagar, com a moeda chinesa desvalorizada, toda a produção europeia será desovada em países com moedas fora do lugar – como o Brasil
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Militantes protestam contra medidas dos governos diante da crise. Foto: Pascal Guyot/AFP

Até a Segunda Grande Guerra, havia dois centros de articulação da ordem mundial: uma, o próprio capital financeiro, organizado em torno do Banco da Inglaterra; outra, os estados nacionais, em torno da Liga das Nações.

A Primeira Guerra praticamente liquidou a Pax Britânica, que se organizava em torno dos bancos centrais dos grandes países europeus; a Liga das Nações não tinha nem estratégia nem legitimidade para impor a sua ordem.

O resultado foi a desorganização posterior, nos anos 30, que acabou levando à Segunda Guerra.

Guerra, noves fora, o que ocorreu hoje com a União Europeia é um processo parecido.

Havia uma ordem financista, que impôs uma ampla desordem não apenas fiscal como nas contas externas de diversos países. Sem espaço para ajustes nas suas moedas, diversas economias passaram a incorrer em déficits externos crescentes.

Houvesse uma ordem econômica racional, as autoridades máximas da União Europeia teriam imposto limites a esse déficit. Ocorre que se constituíam, também, em grandes mercados para bancos, sequiosos por adquirir títulos públicos nacionais. Aliás, desde o século 19, o mercado de dívida pública é um dos focos preferidos das ações dos grandes bancos.

A complacência do Banco Central Europeu levou a déficits crescentes, financiados com aumentos exponenciais dos endividamentos nacionais. É esta a conta que deve ser paga.

Há a dívida e a capacidade de pagamento do devedor. Há duas maneiras de se ajustar ambas as contas: a primeira, reduzindo o valor da dívida (prática bancária habitual); a segunda, exigindo o sangue do devedor.

A fim de não impor perdas aos tomadores de títulos públicos, os países europeus chegaram a um arranjo inconsistente.

Primeiro, definem uma união fiscal. A partir dela, a União Europeia responderá pela dívida de cada parte. Para dar certo, os países terão que ajustar suas contas públicas às novas metas definidas em conjunto. Haverá punições automáticas para países cujo déficit exceda o teto de 3% do PIB ou 60% da dívida.

Ocorre que os valores envolvidos não fecham.

A UE aportará US$ 200 bilhões ao FMI. Apenas  a Itália rolará dívidas de US$ 300 bi no próximo ano.

Haverá o FMI para amparar aqueles em situação mais precária; e um fundo administrado pelo BCE, para dar liquidez a bancos em dificuldades.

O pior é que, para se adequarem às normas fiscais do acordo, países terão que mergulhar em recessões profundas, com implicações sobre a economia global. Mesmo assim, não há uma saída para os desequilíbrios externos.

Com a economia norte-americana andando devagar, com a moeda chinesa desvalorizada, toda a produção europeia será desovada em países com moedas fora do lugar – como o Brasil.

Sem mudanças cambiais, o ajuste externo exigirá um grau inédito de recessão, em países que enfrentam revoltas cada vez maiores dos seus cidadãos.

O acordo de sexta dá apenas um pequeno fôlego adicional, enquanto a União Europeia não decide repartir o sacrifício com bancos e investidores.

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