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Europa e Estados Unidos: Nas antípodas

por Envolverde — publicado 13/08/2010 11h49, última modificação 13/08/2010 11h49
EUA atacam as causas da crise enquanto União Europeia pensa apenas em reduzir os deficits de orçamento

EUA atacam as causas da crise enquanto União Europeia pensa apenas em reduzir os deficits de orçamento

Por Mario Soares*

Lisboa, Portugal, agosto/2010 – As duas maiores famílias político-ideológicas que em maior medida contribuíram para a unidade europeia foram, indiscutivelmente, a socialista democrata (trabalhistas, socialistas e social-democratas) e a democrata cristã. Acontece que estas famílias estão – há muito tempo – em decadência. A primeira, desde o colapso do universo comunista, entre 1989 e 1990, e a “colonização” neoliberal à qual se submeteu. A segunda, desde as transformações que se seguiram ao Concílio Vaticano II, a partir da década de 70.

Contudo, o Tratado de Maastricht, de 1992, constitui o ponto mais alto da construção europeia. Porém, o Tratado de Nice, que o seguiu, acabou em enorme fracasso. Em lugar de avançar com denodo para uma Europa Política no caminho para os Estados Unidos da Europa, a União Europeia optou pela ampliação, integrando os países do Leste na medida em que foram se libertando das ditaduras comunistas. Sintomaticamente, os novos membros preferiram sempre a Otan e a Comunidade Europeia, por motivos de segurança. Para eles, salvo honrosas exceções, uma União Política não tinha sentido. O que lhes interessava de fato eram os apoios financeiros e econômicos comunitários.

A frustrada tentativa de uma Constituição Europeia, que representasse um avanço em sentido federal, foi obstruída pelo veto francês (e depois holandês). E é preciso reconhecer que nisso influiu o Partido Socialista Francês com suas lutas internas. Desde então, a União Europeia ficou paralisada. E o remendo que in extremis representou o Tratado de Lisboa, de 2007, de inspiração econômica neoliberal, não fez a União avançar, nem em termos institucionais nem políticos, apesar de representar um passo adiante em matéria de direitos humanos.

Os partidos da família democrata-cristã europeia perderam muita força com sua conversão em Partidos Populares, sem preocupações sociais. Na Itália, Espanha e Portugal, as democracias cristãs praticamente desapareceram. A alemã se manteve, mas evoluiu perigosamente para a direita, sobretudo desde que se associou no governo com os liberais.

Na família socialista, o New Labour de Tony Blair com a chamada Terceira Via não só se tornou vassalo da política belicista de Bush como causou estragos na Internacional Socialista em termos de ideologia e de valores éticos e políticos. Na Itália, o partido socialista batizado Democrático perdeu identidade e representatividade. Em toda a União Europeia os governos desta família caíram um após outro. O eleitorado deve ter compreendido que, para fazer uma política de direita, é melhor votar em partidos de direita. Assim, dos 15 governos que a União chegou a ter no final do século passado hoje restam três, em Portugal, Grécia e Espanha, todos Estados do sul, já que na Áustria, embora o primeiro-ministro seja socialista, o governo é de uma coalizão que integra a direita.

Entretanto, o mundo está mudando aceleradamente. Surgiram os Estados Emergentes, que pesam muito e têm visões diversas. Os Estados Unidos têm como presidente uma figura carismática, Barack Obama, cuja visão de mundo e valores é oposta à de seu antecessor Bush, de triste memória. É humanista, pacifista e legítimo herdeiro dos grandes presidentes norte-americanos como Jefferson, Lincoln, Roosevelt e Kennedy.

Um mundo, que atravessa uma crise de extrema complexidade e em plena evolução do fato de a política norte-americana estar dando uma guinada de 180 graus, não parece ser compreendido e certamente não é acompanhado pelos dirigentes políticos europeus. Ao mesmo tempo em que os Estados Unidos estão atacando paulatinamente as causas da crise de maneira que esta não se repita, a União Europeia pensa apenas em reduzir os déficits de orçamento, enquanto ignora os efeitos restritivos sobre o crescimento econômico e a sorte das pessoas.

Com as coisas dessa forma, não é de estranhar que os cidadãos europeus se afastem cada vez mais de seus atuais dirigentes e que comecem a questionar a União Europeia, já que está sendo comprometido o projeto político de paz, de bem-estar e de justiça social que forma a essência de sua identidade. Veremos a volta ao auge dos egoísmos nacionais que nos conduziram a duas terríveis guerras mundiais? IPS/Envolverde

* Mário Soares é ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.