Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Europa: a deriva direitista

Internacional

Poder

Europa: a deriva direitista

por Envolverde — publicado 23/02/2011 10h52, última modificação 28/02/2011 16h02
O mundo está em rapidíssima transformação e a União Europeia, nos últimos anos, perdeu a orientação
Europa: a deriva direitista

O mundo está em rapidíssima transformação e a União Europeia, nos últimos anos, perdeu a orientação. Por Mario Soares

O mundo está em rapidíssima transformação e a União Europeia,  nos últimos anos, perdeu a orientação
Por Mario Soares*
Lisboa, Portugal, fevereiro/2011 – Na década de 1970, a Europa era governada pela família do socialismo democrático, ou, como o chamávamos, do socialismo em liberdade (socialistas, social-democratas e trabalhistas) e pela família democrata-cristã, que era essencialmente europeísta e partidária da doutrina social da Igreja Católica.

Após o colapso do comunismo e a chegada do neoliberalismo norte-americano, as duas famílias, de acordo com os sinais do tempo, se deixaram convencer pela “terceira via” e pelo domínio dos mercados que têm como único valor o dinheiro e não as pessoas.

Resultado: a maior parte dos partidos da área socialista perdeu o poder, já que para os que preferem um governo de direita é mais lógico votar nos conservadores, enquanto os democrata-cristãos, salvo raras exceções, se esqueceram da doutrina social da Igreja e, transformados em Partidos Populares, colocaram-se na direita do espectro político. As duas famílias perderam a influência que tiveram em seus bons tempos, e em alguns países europeus pura e simplesmente desapareceram. Eram os anos nos quais os especialistas políticos norte-americanos proclamavam o “fim da história” e a “morte das ideologias” (com exceção, claro, da neoliberal).

Porém, as circunstâncias, por mais contraditórias que pareçam, podem nos impor transformações inesperadas. Creio que isto poderia ocorrer em consequência da crise global que nos afeta, obrigando a União Europeia, a contragosto, a mudar o modelo de desenvolvimento, para usar a expressão do presidente Barack Obama.

Não falarei da família democrata-cristã, à qual não pertenço, mas apenas da família socialista, à qual, apesar de tudo, me sinto ligado. O dilema é simples: ou muda de rumo, o que implica compreender as inquietudes do tempo presente e dar respostas às necessidades dos trabalhadores, dos desempregados e dos desfavorecidos, ou perde sua razão de ser. Se não o faz, o risco não é como alguns creem, que dê lugar à esquerda radical, que está duas ou três décadas mais atrasada do que o socialismo democrático (trate-se de comunistas, trotskistas ou anacrônicos maoístas), mas que beneficie uma espécie nova de populismo de direita que é extremamente perigoso, precisamente pela ausência de ideologia e de valores éticos.

Creio, por outro lado, que o socialismo democrático tem outra oportunidade, se for capaz, de se renovar e adaptar-se às mudanças contemporâneas nos campos da ciência, tecnologia, informação, dos direitos individuais e coletivos, e dos Estados em suas relações com a sociedade.

O mundo está em rapidíssima transformação e a União Europeia, baluarte das nações democráticas e dos Estados de Direito, nos últimos anos perdeu a orientação, já que seus dirigentes não se mostram capazes de reagir, seja por não compreenderem as mudanças, seja por falta de coragem. No entanto, a crise global continua e corroi o prestígio europeu, o que representa para todos os seus povos um terrível desafio.

Chegou a hora de o socialismo europeu refletir coletivamente sobre o que representa hoje ser socialista, não apenas de nome, mas nas esferas das realizações e dos comportamentos. Deve se desprender definitivamente o lastro do conservadorismo neoliberal, descobrir novos horizontes sociais que deem esperança às pessoas, retomar os valores éticos, dignificar o trabalho e colocar-se na vanguarda das mudanças necessárias e possíveis. E que se dedique a erradicar a pobreza, em particular dos emigrantes, que são os que mais sofrem, bem como reduzir substancialmente as inaceitáveis desigualdades sociais, principalmente nos Estados periféricos da União, como Portugal.

É indiscutível que os partidos da família socialista estão paralisados, como as organizações internacionais que os incluem: a Internacional Socialista – quem a viu e quem a vê – e o Partido Socialista Europeu. É preciso injetar-lhes uma rajada de ar fresco, que os obrigue a empunhar a bandeira dos valores dos quais se descuidou, incluindo aquele ingrediente de utopia que falta para que as sociedades progridam. A família socialista é hoje indispensável para o avanço institucional da União Europeia e para que possa ocupar o lugar que merece no cenário internacional. Envolverde/IPS

*Mário Soares é ex-presidente e ex-primeiro-ministro de Portugal.
(IPS/Envolverde)

registrado em: