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Estado Palestino: uma nova onda de reconhecimentos internacionais?

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 09/12/2010 10h29, última modificação 13/12/2010 12h18
Em entrevista à CartaCapital Saman Khoury, um dos fundadores da iniciativa de Genebra, que propõe a criação de um estado palestino em paz com Israel, diz que Palestinos esperam reconhecimento dos czares do mundo: EUA, Europa, China e Índia
Estado Palestino: uma nova onda de reconhecimentos?

Em entrevista à CartaCapital Saman Khoury, um dos fundadores da iniciativa de Genebra, de criar um estado palestino em paz com Israel, diz que Palestinos esperam reconhecimento dos czares do mundo: EUA, Europa, China e Índia. Por Viviane Vaz, de Jerusalém. Foto: José López Catañeda

Em entrevista à CartaCapital Saman Khoury, um dos fundadores da iniciativa de Genebra, que propõe a criação de um estado palestino em paz com Israel, diz que Palestinos esperam reconhecimento dos czares do mundo: EUA, Europa, China e Índia

Mais do que reconhecer a Palestina como Estado, Brasil e Argentina estariam admitindo que Israel ocupa um estado soberano e os dois países do cone sul poderiam começar uma onda de reconhecimentos internacionais. É o que considera um dos fundadores da iniciativa de Genebra e integrante do Fórum para a Paz e Democracia, Saman Khoury, sobre a decisão dos dois estados em reconhecer as fronteiras do estado palestino. O próximo da lista a adotar a medida seria o Uruguai, que confirmou esta semana que reconhecerá a Palestina em 2011.

Na América Latina, Cuba, Nicarágua, Venezuela e Bolívia integram a centena de países que já reconheceram a Palestina. No entanto, Brasil e Argentina são os primeiros a destacar “nas fronteiras existentes em 1967”, anteriores à guerra dos Seis Dias. Para o Itamaraty, “a iniciativa é coerente com a disposição histórica do Brasil de contribuir para o processo de paz entre Israel e Palestina” e “está em consonância com as resoluções da ONU”.

Khoury, que vive na parte leste de Jerusalém, onde se concentram bairros árabes e assentamentos judaicos, foi diretor do jornal palestino Al-Fajr. Nesta entrevista ele explica à CartaCapital que a iniciativa de Genebra nasceu em 2001 e propõe a criação de um estado palestino em paz com Israel. A sugestão leva em conta os anseios de palestinos e israelenses em fazer Jerusalém sua capital e parte do pressuposto que Jerusalém poderia se manter indivisível, com soberania compartilhada. A ideia, segundo o jornalista, é que o centro antigo de Jerusalém --a cidade antiga, importante para as três principais religiões monoteístas do mundo-- tenha portais de passagem livre de acesso dentro da cidade.

CartaCapital: Esta semana os governos do Brasil e da Argentina reconheceram oficialmente o Estado Palestino com base nas fronteiras de 1967. Como podemos explicar esta medida levando em conta que entre o povo palestino existe uma divisão entre a Autoridade Palestina (AP) e o Hamas na Faixa de Gaza. A quem se dirige este reconhecimento?

Saman Khoury: A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) é para mim até hoje o legítimo representante do povo palestino. Não é a Autoridade Palestina em Ramalah, ou as pessoas que tomaram o controle de Gaza. E, ao contrário do reconhecimento que tivemos nos últimos trinta anos, desta vez o Brasil e a Argentina disseram: nós reconhecemos o Estado Palestino com as fronteiras de 1967. Portanto, a diferença agora é que Israel está ocupando outro país soberano. E se houver uma centena países seguindo o passo de ambos, estamos falando de metade da ONU. Agora, não somos ingênuos. Sabemos que é essencial que tal reconhecimento venha dos czares do mundo --Estados Unidos, os países europeus, China, e talvez a Índia. Esperamos recebê-lo.

CC: O reconhecimento veio em resposta a uma carta do presidente Mahmud Abbas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 24 de novembro. O senhor considera que o povo palestino também estaria de acordo com este reconhecimento das fronteiras de 1967?

SK: Sim. Mahmud Abbas representa duas coisas: a autoridade palestina em Ramalah e também é o chefe da OLP que representa a todos os palestinos. E além disso representa ao Hamas e a OLP. O Hamas diz que aceita a criação do Estado palestino nos limites de 1967, mas diz que não vai negociar de maneira alguma com os israelenses. E eles também dizem: nós aceitamos o estado palestino de 1967, mas também dizem aos americanos que falem com eles e não com as pessoas que estão em Ramalah. Lula da Silva e o Brasil não têm nenhum problema em aceitar esta noção.

CC: O senhor já disse que, pela paz, os palestinos estariam dispostos a ceder uma porcentagem das terras a que teriam direito. Aceitar o reconhecimento das fronteiras de 1967 não seria dar um passo atrás no processo de negociação de paz e voltar à estaca zero?
SK
: Não. Na verdade, os negociadores quando pensam em troca de territórios, seria 2% ou 3% do território, são coisas que podemos chegar. Então Argentina e Brasil reconhecem o princípio, mas não podem se recusar caso os dois países cheguem a um acordo para aceitar um intercâmbio de terras.

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