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Cartilha polêmica

"É a sociedade que inspira esse comportamento"

por Gabriel Bonis publicado 07/06/2011 14h41, última modificação 06/06/2015 18h16
Para psicólogo Enrique Maia, propostas do Reino Unido para evitar a sexualização precoce de adolescentes não podem reverter padrões incorporados pela sociedade

Na segunda-feira 6, foi publicado no Reino Unido um polêmico relatório que propõe mudanças nos códigos de conduta da mídia e do comércio para . O documento, encomendado pelo primeiro-ministro David Cameron e elaborado pelo chefe-executivo da União das Mães Cristãs, Reg Bailey, é uma espécie de “carta de intenções”, que alerta os varejistas sobre a venda de roupas com cortes adultos para pré-adolescentes (faixa que abrange jovens de até 16 anos), incluindo sutiãs de enchimento, pede a retirada de anúncios com conteúdo sexual explícito das redondezas de escolas e aconselha a classificação de vídeos musicais por faixa etária.

Medidas, que segundo o psicólogo comportamental Enrique Maia, podem não ter o efeito desejado. “Há sempre um cenário maior a ser analisado, afinal é a sociedade que inspira esse ambiente e o comportamento que o governo mostra preocupação em diminuir”, diz, em entrevista a CartaCapital.

O documento ainda pede a diminuição de imagens sexuais e violentas na televisão antes das 21h e medidas efetivas de controle de conteúdo para adultos na internet, com sistemas robustos de verificação de idade.

Veja abaixo a entrevista completa:

CartaCapital – O senhor acredita que esse relatório em formato de carta de intenções do governo britânico pode influenciar o desenvolvimento sexual dos adolescentes no Reino Unido?

Enrique Maia - Essa medida certamente tem um impacto na comunidade, mas é difícil dizer se vai funcionar nas crianças, que estão muito expostas a diversos meios de comunicação, como a internet. Em relação a essa última mídia, cada vez mais surgem programas que dão aos pais poderes de controlar os sites que os filhos acessam. No entanto, isso não impede que as pessoas vejam os assuntos que elas querem, pois vão encontrar uma forma de fazê-lo, assim como acontece na China ou Cuba, que possuem diversos temas bloqueados pelo governo. Mesmo com o controle é difícil imaginar que haja uma retroação nos comportamentos que já desenvolvemos.

CartaCapital – Uma possível adesão da mídia e do comércio de roupas às propostas pode alterar o comportamento dos jovens britânicos?

Enrique Maia - O impacto sob a formação da criança pode ser maior conforme a quantidade de mídias abrangidas, porem há outros aspectos a serem avaliados. Entre eles está a maneira como a família aceita certo tipo de comportamento e se a sociedade engloba isso. Com mais controle da temática sexual e da violência na mídia maior o impacto, mas talvez isso não tenha o efeito pretendido. Há sempre um contexto social que vai fortalecer ou não uma atitude. Para surtir efeito essa medida tem que afetar o dia-a-dia.

Quanto à moda, ela tende a ser abrangente e buscar aquilo que vende, se baseando nas tendências dos adultos, sem se importar com essas questões. No entanto, se o governo pretende coibir essas roupas, certamente vai haver alguma uma influência.

CartaCapital – Qual papel o senhor atribui à mídia e a indústria da moda na mudança do comportamento sexual  da população nas últimas décadas?

Enrique Maia - Há três níveis de comportamento na psicologia: o biológico, que influi nas nossas relações desde o nascimento, e outros dois que se sobrepõem ao primeiro, a história de vida do indivíduo e seu nível cultural, que depende das condutas do nosso século, facilitando certos padrões.

O que mudou o perfil sexual dos jovens não foi apenas a propaganda, isso está relacionado também com o mercado de trabalho e a chegada das mulheres nesse ambiente, a invenção da pílula anticoncepcional, entre outros aspectos, por exemplo.

Há um cenário maior a ser analisado, afinal é a sociedade que inspira esse ambiente. Medidas mais eficazes para evitar essa sexualização precoce com a qual o governo mostra preocupação poderiam incluir investimentos em uma melhor construção social e educacional, com projetos para orientação sexual.

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