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Resenha

Escobar, da vingança à conciliação

por Thiago Domenici — publicado 31/08/2016 05h02
Em livro, o filho de Pablo Escobar relata a trajetória do capo colombiano e fala sobre como liderou com o legado de seu pai
Wikimedia Commons
Escobar-colômbia

Escobar marcou a história da Colômbia

Em 1976, aos 27 anos, Pablo Emilio Escobar Gavíria já era o chefe do Cartel de Medellín, na Colômbia, e responsável por produzir e criar as rotas mais seguras e lucrativas para traficar o “ouro branco”, que tinha nos EUA seu principal destino, onde se estima que até 15 toneladas diárias da substância entravam, sobretudo, pela costa da Flórida.

El patrón”, como era conhecido, controlou nas décadas de 1980 e 1990 até 80% da droga no mundo e, ao morrer, em dezembro de 1993, Juan Pablo Escobar, seu único filho homem, jurou se vingar dos detratores do pai, mas desistiu em seguida.

“Chegou um momento de reflexão que seria providencial, pois dois caminhos se apresentaram à minha frente: tornar-me uma versão mais letal de meu pai ou deixar de lado para sempre o seu mau exemplo. Naquele instante [após sua morte], vieram-me à mente os muitos momentos de depressão e tédio que vivemos com meu pai nos esconderijos. Então, pensei que não poderia percorrer o caminho que tantas vezes havia criticado”, diz no livro Pablo Escobar – meu pai, lançado no ano passado pela Editora Planeta.

Juan, que é arquiteto e mudou o nome para Sebastián Marroquín Silva, tem 38 anos, 21 dos quais exilado na Argentina. O livro tem méritos de juntar de forma envolvente fatos históricos com detalhes íntimos, e desnuda um Pablo Escobar que amava a família de forma tão contundente quanto contundentes eram seus rompantes de violência com quem se metesse no seu caminho. Um de seus lemas era “plata o plomo” (pagar ou chumbo), que levou a cabo até o fim.

A versão da vida de Escobar por Juan já havia sido esmiuçada no documentário Pecados de mi padre (2009), do diretor Nicolas Entel, que registra a reaproximação de Juan com os filhos de políticos mortos por ordem do capo, fato também registrado na obra. No documentário, o arquiteto aparece pedindo perdão a todos. O livro é uma continuação dessa reconciliação com o passado.

“Este livro deixa pior o meu pai do que já estava, porque conto coisas que ninguém sabia. Não o escrevi para o justificar, mas sim para deixar clara a história sobre os acontecimentos, depois de todas as versões que se contaram. Eu sou o último que falou. Esperei 21 anos para falar. Deixei primeiro que todos contassem as suas mentiras”, afirmou em uma entrevista à agência portuguesa Lusa. Em seu relato, ele cita relações do pai com grupos guerrilheiros colombianos e do cartel até com um astro da música internacional.

O autor relata que era contrário a toda a violência empreendia pelo seu pai, mas que de que nada adiantavam os apelos, seus ou de sua mãe, que após a morte do marido teve de lidar com todos os principais chefes do cartel de Cali e outros traficantes, repartindo o que sobrou da fortuna para garantir a vida de sua família.

Um dos capítulos mais interessantes do livro diz respeito às excentricidades da família, cujo auge se deu na Fazenda Nápoles, batizada em homenagem ao pai de Al Capone, que nasceu na cidade italiana de mesmo nome. Ali, todo tipo de maluquice que o dinheiro podia comprar se tornava realidade. “Por conta da opulência, mergulhamos num turbilhão de excessos, gastos extravagantes e desperdícios”, conta Juan.

Para se ter ideia, a fazenda Nápoles tinha posto de gasolina próprio, oficina mecânica e funilaria para carros e motos; 27 lagos artificiais; cem mil árvores frutíferas; a maior pista de motocross da América Latina; um parque com dinossauros em escala real; dois heliportos e pista de pouso de novecentos metros; 1,7 mil trabalhadores; três mil hectares; três zoológicos com animais trazidos de várias partes do mundo e uma coleção de arte com obras de Fernando Botero, Salvador Dalí e Auguste Rodin.

O arquiteto relata que aos nove anos ganhou de presente uma caixa com as cartas que o revolucionário Simón Bolivar recebeu de sua amante, a também revolucionária Manuelita Sáens. Sua lendária espada também foi parar nas mãos do garoto, que não deu muita atenção para o presente, que teria sido dada a Escobar pelo grupo guerrilheiro urbano Movimento 19 de Abril (M-19).

Em 1988, aos 11 anos, Juan possuía uma coleção de quase 30 motos de alta velocidade, triciclos, quadriciclos, karts e 30 jet skis. Aos 13, seu pai lhe deu um apartamento com “espelhos no teto, um bar meio futurista e um tapete de zebra”.

A leitura do livro é, sem dúvida, um ingrediente significativo para o caldeirão de histórias sobre Escobar, com a diferença de que Juan se propõe a esclarecer fatos históricos que ouviu do próprio pai, e que checou na confecção da obra. É o caso da revelação da estratégia de Escobar, definida meses antes de ser morto: juntar-se a outro grupo guerrilheiro, este com atuação nas áreas rurais, o Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), recuperar forças e retomar as rédeas do seu negócio. “Já tenho contato direto com eles. Vão me dar um pelotão para comandar. Vou comprá-lo por 1 milhão de dólares. Na selva, ninguém me pega”, teria dito ao filho.

Outras revelações do livro dão conta de que Frank Sinatra, o famoso cantor americano, era sócio do Cartel de Medellín em Nova York e de que um plano para sequestrar a filha do cantor Julio Iglesias fora por água abaixo. Em vários momentos, a narrativa transporta o leitor para as cenas de fuga durante a caça ao capo, promovida pelo Exército, no chamado “Grupo de Busca”, e a polícia da Colômbia, com apoio significativo dos EUA e de ex-colegas do crime – “Os Pepes” – e também de familiares.

No primeiro capítulo, “A traição”, o autor detalha como seu tio Roberto Escobar, um dos braços direitos de seu pai, homem responsável pelas finanças do cartel, pactuou com o governo para entregá-lo já no declínio do império escobariano.

Como se sabe, o traficante fora responsável por sequestros, assassinatos, bombas em edifícios comerciais, redações de jornais e aviões. Os detalhes acerca dessas decisões e as circunstâncias íntimas estão contadas na obra. “Desde o dia do meu nascimento até o dia em que ele morreu, meu pai foi meu amigo, guia, professor e conselheiro. Uma vez, lhe pedi que escrevesse sua verdadeira história, mas ele não quis: ‘Filho, primeiro a gente faz a história, só depois é que escreve sobre ela’”.

Desde sua morte, Escobar se tornou um produto cada vez mais lucrativo para o showbizz, tanto que sua vida foi retratada em diversos filmes de ficção, documentários, séries, novelas e será representada em filmes ainda inéditos de Hollywood. A série colombiana Escobar, el patrón del mal, de 2012, por exemplo, teve uma das maiores audiências da TV colombiana, e mais de 10 milhões de pessoas em 20 países já a assistiram.

São 113 episódios que recontam a história de Escobar desde sua infância, como filho de um fazendeiro com uma professora, até sua morte, aos 44 anos de idade. A série foi criada por Camilo Cano, filho de um jornalista morto por Escobar, e Juana Uribe, filha de Maruja Pachón, sobrinha do candidato presidencial Luis Carlos Galán, que foi sequestrada a pedido de Escobar e morta em 1989.

Também o canal de streaming Netflix lançou a segunda temporada da série Narcos, que tem o ator brasileiro Wagner Moura interpretando o traficante, que em vida fora responsabilizado diretamente pela morte de mais de 4 mil pessoas, segundo cálculos oficiais. “Essa série é mentirosa, não respeita a verdade. Eu desconfiaria de qualquer coisa que fala sobre a vida de alguém sem que seus familiares tenham sido ouvidos”, criticou Juan, em entrevista ao jornal O Dia.

De fato, a série tem fatos não comprovados, como quando Escobar decide entrar para a política e chega ao Congresso, em 1982, como deputado. O livro, diferentemente da série, afirma que não foi ele que procurou os políticos, e sim o contrário.

Escobar, um homem de hábitos inusitados, tomava banhos de até três horas, acordava sempre após as 10h, escovava os dentes por 45 minutos, utilizando uma escova de criança, e era responsável por cortar o próprio cabelo. Pequenas intimidades ao longo do livro dimensionam – e até humanizam – o mais temido dos traficantes, que teve a fortuna estimada em 30 bilhões de dólares, estreou na lista de bilionários da Forbes em 1987 e lá ficou por sete anos seguidos.

Por fim, Juan garante que Escobar se matou – e não foi morto – em um telhado de Medellín durante uma perseguição, após ser entregue pela própria família. “Ele disse que, no dia que se encontrasse com seus inimigos, dispararia catorze dos quinze tiros de sua pistola Sig Sauer e guardaria o último para si. Na fotografia em que aparece o corpo de meu pai sobre o telhado, é possível ver que a pistola Glock está no cinto de munições e a Sig Sauer, muito próxima. É visível que foi utilizada. (…) Nunca esqueci a frase que ele disse a um de seus homens. ‘Nunca vão me capturar vivo nessa porra desta vida’”. E assim aconteceu.

*Thiago Domenici é jornalista