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Escândalo da carne de cavalo é atribuído a fraude de máfia internacional

por The Observer — publicado 18/02/2013 10h24, última modificação 18/02/2013 10h24
Testes de DNA nos alimentos serão reforçados após temores de atividade criminosa em escala internacional

Por Jamie Doward



Grupos criminosos organizados que atuam em escala internacional são suspeitos de uma importante participação no escândalo da carne de cavalo, que deixou as prateleiras dos supermercados vazias de diversos produtos e causou temores sobre a contaminação da cadeia alimentar no Reino Unido.

Fontes próximas ao Departamento do Meio Ambiente, Alimentos e Assuntos Rurais e da Agência de Padrões Alimentares (FSA na sigla em inglês) disseram que, aparentemente, a contaminação de hambúrgueres, lasanhas e outros produtos foi consequência de uma fraude de "dimensão internacional".

Especialistas na indústria de abate de cavalos disseram ao Observer que há evidências de que grupos criminosos da Polônia e da Itália têm esquemas milionários para trocar carne bovina por equina durante a produção de alimentos. Há alegações de que veterinários e outras autoridades que trabalham em abatedouros e fábricas de alimentos são intimidados a certificar a carne como bovina, quando na verdade se trata de alternativas mais baratas como suína ou equina.

Na tentativa de tranquilizar o público de que a cadeia alimentar da Grã-Bretanha não sofre uma fraude sistemática, o secretário do Meio Ambiente, Owen Paterson, se reuniu no último sábado com representantes dos quatro maiores supermercados, de órgãos comerciais e principais produtores de alimentos para traçar um plano para aumentar o volume de testes de DNA em alimentos.

"Os comerciantes se comprometeram a realizar mais testes e, no interesse da confiança do público, eu lhes pedi para publicá-los trimestralmente", disse Paterson. Ele salientou que ainda não há evidências de que o escândalo se tornou uma questão de segurança pública. Paterson insistiu que os comerciantes têm de assumir o papel principal na solução do problema. "A responsabilidade final pela integridade do que é vendido com sua marca tem de ser do comerciante."

A última vez em que o governo aprovou testes de carne de cavalo em produtos animais foi em 2003, quando DNA equino foi encontrado em salame.

Os primeiros resultados de uma nova série de testes para DNA equino que a FSA chama de "produtos de carne pulverizada" --, em que materiais sólidos são reduzidos de tamanho por meio de esmagamento ou moagem -- serão publicados na sexta-feira. "Precisamos estar preparados, porque haverá mais resultados ruins", disse Paterson.

Ele confirmou que o governo está aberto para acionar a Agência contra o Crime Organizado se, como parece evidente, a fraude tiver escala internacional. Ele disse que a polícia de Londres foi instada a investigar o escândalo e que está em contato com órgãos de outros países. Paterson sugeriu que o escândalo é potencialmente uma questão "mundial".

"Estou preocupado que seja uma conspiração criminosa internacional, e realmente precisamos chegar até o fundo dela", ele disse.
A deputada trabalhista Mary Creagh disse que transmitiria à polícia informações que sugerem que várias companhias britânicas participaram do comércio ilegal de carne de cavalo. "Espero que essa informação permita à polícia agir rapidamente para conter esses criminosos que estão pondo em risco o futuro da indústria alimentar."

Preocupações sobre a substituição de carne bovina por equina surgiram pela primeira vez em meados de janeiro, quando redes de supermercados recolheram várias marcas de hambúrgueres. Temores de contaminação levaram centenas de empresas alimentícias europeias a realizar testes de DNA em seus produtos, e a gigante alimentícia Findus descobriu que um de seus produtos, uma lasanha de carne bovina congelada, continha quase 100% de carne equina.



Soube-se que a Findus realizou três testes de seus produtos em 29 de janeiro, os quais sugeriram que havia contaminação por carne de cavalo. A revelação levantou questões sobre por que demorou vários dias para que os produtos fossem retirados das gôndolas.
A Findus indicou que estava pronta para processar quando a companhia anunciou que na segunda-feira apresentaria uma denúncia contra uma parte não identificada.

Em uma declaração, a firma disse: "A Findus está recebendo assessoria jurídica sobre as bases para abrir um processo contra seus fornecedores, considerando o que ela acredita ser uma falha dos fornecedores ao cumprir obrigações contratuais sobre a integridade dos produtos. Os primeiros resultados da investigação interna da Findus no Reino Unido sugerem fortemente que a contaminação por carne de cavalo na lasanha de carne bovina não foi acidental".

A rede de supermercados Aldi confirmou ter descoberto que duas de suas marcas de refeições prontas produzidas pela Comigel, uma fornecedora francesa também usada pela Findus, continham entre 30% e 100% de carne de cavalo.

A Comigel alega que sua carne é comprada na Romênia, país que foi submetido a restrições de exportação devido à prevalência da doença viral anemia infecciosa equina. A empresa francesa Spanghero, que forneceu a carne para a lasanha da Findus, anunciou que também processará seus fornecedores romenos.

O escândalo levantou perguntas sobre o que acontece com os 65 mil cavalos transportados pela União Europeia todo ano para abate. O grupo ativista World Horse Welfare disse que milhares de animais sofrem em consequência das longas viagens entre vários países. Em parte devido a preocupações com o bem-estar da população, o comércio de cavalos vivos caiu drasticamente. Em 2001, 165 mil animais foram remetidos através da Europa.

O declínio no comércio interfronteiras de cavalos vivos levou a um aumento na venda de carne equina resfriada e congelada, grande parte da qual vai para a Itália. No ano passado a Romênia aumentou de maneira significativa suas exportações de carne de cavalo congelada para os países do Benelux.

A atenção hoje se concentra no leste da Europa, grande fornecedora de carne equina para a França e a Itália. Parte da carne que foi para a Irlanda veio de fornecedores na Polônia, que exporta cerca de 25 mil cavalos para abate por ano. Fontes da indústria também sugeriram ao Observer que grupos criminosos que atuam na Rússia e nos países bálticos participam do comércio fraudulento de carne.

Outras empresas alimentícias descobriram, por meio de investigações, que seus suprimentos foram contaminados. A FSA confirmou que a carne armazenada em frigoríficos no norte da Irlanda foi apreendida quando se descobriu que continha DNA equino. Uma empresa sediada em Londres, a 3663, encontrou carne suína em parte da carne halal (de acordo com os preceitos islâmicos) que fornece ao serviço de prisões.

Agora surgem perguntas sobre a carne fornecida para uma série de organizações do setor público, incluindo o Serviço Nacional de Saúde (NHS). "Cada organização do NHS e de atendimento de saúde tem circunstâncias locais diferentes, e essas organizações devem se certificar de que o alimento que fornecem supre as necessidades de seus pacientes", disse o Departamento de Saúde. "Qualquer investigação sobre a proveniência desses suprimentos também seria feita localmente."

Os pecuaristas britânicos manifestaram preocupações de que o escândalo possa afetar a confiança do consumidor na carne britânica. "Nossos membros estão logicamente irados e preocupados com os recentes fatos relacionados à contaminação de produtos de carne processada", disse o presidente da União Nacional dos Agricultores, Peter Kendall. "A contaminação ocorreu além dos portões das fazendas, o que os fazendeiros não podem controlar."

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