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Eric contra os bancos

por Gianni Carta publicado 15/12/2010 11h27, última modificação 25/10/2011 11h53
Cantona, ex-jogador de futebol, artista e "briguento", convoca os franceses a tirar o dinheiro das instituições financeiras e critica o sistema. Por Gianni Carta, de Paris. Foto: Vincent Beaume/AFP
Eric contra os bancos

Cantona, ex-jogador de futebol, artista e "briguento", convoca os franceses a tirar o dinheiro das instituições financeiras e critica o sistema. Por Gianni Carta, de Paris. Foto: Vincent Beaume/AFP

Cantona, ex-jogador de futebol, artista e “briguento”, convoca os franceses a tirar o dinheiro das instituições financeiras e critica o sistema

A

revolução de Eric Cantona, cuja meta era colocar de joelhos o sistema bancário global, revelou-se um fiasco. Na terça-feira 7, escassos entre os milhares de partidários do apelo feito pelo ex-atacante do Manchester United retiraram ninharias de suas contas. Banqueiros, empresários e políticos respiraram aliviados.

O próprio Cantona, de 44 anos, não apareceu para resgatar os anunciados 1,5 mil euros da agência do BNP Paribas em Albert, na Picardia, ao norte de Paris, onde atualmente atua ao lado de Isabelle Adjani no filme De Force.

Dias antes, Canto, como é conhecido, transferiu 750 mil euros do banco exclusivo Leonardo para uma conta no Crédit Agricole. O recado: melhor manter seu dinheiro num banco com maioria de clientes agricultores e trabalhadores.

Mas, se por um lado, a proposta de uma retirada de somas maciças de bancos é fantasiosa, ela reflete os humores da vasta maioria nas ruas. E, é evidente, o protagonista do excelente filme Looking  for Eric, de Ken Loach, está em sintonia com o povo. Reponsáveis pela atual crise econômica, e pelas subsequentes medidas de austeridade a afetar de forma significativa cidadãos mundo afora, os bancos estão na mira.

O motivo pelo qual a iniciativa não rendeu frutos é fácil de compreender. Olivier Besancenot, carteiro e líder do Nouveau Parti Anticapitaliste, resumiu: “Gosto da ideia de uma revolução. Mas as pessoas prontas a participar de tal evento não têm dinheiro suficiente nas suas contas bancárias”.

Por sua vez, um editorialista do vespertino Le Monde escreveu que o ex-atacante precisaria de vários caminhões para retirar sua fortuna do banco. Nos últimos anos, Cantona tornou-se garoto-propaganda de várias marcas: Nike, Bic, Renault. Usa desodorantes da L’Oréal. Sua fortuna não o impede, porém, de se posicionar à esquerda do tablado político. O gol contra foi o fato de sua mulher, a atriz e diretora de cinema Rachida Brakni, ser garota-propaganda do Crédit Lyonnais.

O temor de uma miríade de dirigentes políticos reside na popularidade de Canto. Para se ter uma ideia, a página do Facebook para a sua causa conta com 40 mil integrantes. O clip da entrevista de Cantona para o diário Presse Océan foi reproduzido por websites de periódicos e pelo YouTube.

Ante à pergunta sobre seu parecer a respeito das manifestações contra as medidas de austeridade tomadas pelo governo, Cantona retruca: “O sistema é construído a partir do poder dos bancos. Portanto, ele pode ser destruído pelos bancos. Em vez de 3 milhões de pessoas irem demonstrar com panfletos, esses 3 milhões de pessoas (podem) ir às suas agências bancárias, retirar seu dinheiro, e aí os bancos desabam’’.

A iniciativa de Canto não é nova. Foi adotada nos anos 1990 na Rússia e Argentina. E vale lembrar: a falência de bancos resulta na espoliação dos clientes. Nesse sentido, a secretária-geral do Partido Socialista Martine Aubry tem razão ao comparar o projeto de Canto a um “gol contra” – e contra a França.

De qualquer forma, não surpreende o fato de a iniciativa do bank run tenha sido feita, desta vez, pelo atípico ex-atacante do Manchester United. E a iniciativa demonstra uma busca por soluções para combater injustiças. Homem de poucas palavras – por vezes justas –, Canto sempre foi um rebelde.

Ele começou a jogar futebol na sua Marselha natal aos 6 anos. O pai, Albert, filho de sardos, enfermeiro e goleiro amador, inspirou o filho a jogar sob as traves. Logo Canto trocou o gol pelo ataque. Praticava na garagem pela manhã antes de ir à escola, no recreio, após o almoço e a escola. E aos sábados e domingos. Seu ídolo era Johan Cruyff.

Em 1981, quando a equipe francesa eliminou a holandesa nas eliminatórias para a Copa do Mundo, Cantona entrou em parafuso. Ele escolhia seus ídolos independentemente de sua origem. Da mesma forma, a Marseillaise nunca o fez vibrar. “Por que eu deveria respeitar os hinos?” Ele diz não ser soldado, não gostar da ordem. O futebol não é um desfile de militares. Mas Canto aprecia paletós e brasões. “São elegantes”, disse para o semanário L’Express.

Menino, ficava a ver o pai pintar, enquanto desenhava. Além de ir a jogos de futebol com Albert, pedia para levá-lo a exposições. Aos 22 anos fez sua primeira mostra de telas pós-impressionistas, em Marselha. E sempre fotografou. Segundo o Le Monde, Canto viu todos os filmes e leu todos os livros de Pasolini. Devorou Hermann Hesse, Oscar Wilde e Ezra Pound.

Como futebolista briguento, foi sempre desprezado na França, apesar de ter colecionado títulos. Já aos 18 anos foi excluído do time nacional por “instabilidade de caráter”. Quatro anos mais tarde, ao não ser escalado para a Copa de 1988, chamou o técnico da seleção nacional, Henri Michel, de “saco de merda”. Em 1991, jogando pelo Nimes, arremessou a bola no árbitro. “Estou cheio da França”, disse a um amigo fotógrafo antes de partir para o Reino Unido.

Passou pelo Sheffield, mas no Leeds ganhou seu primeiro título britânico. No Manchester ganhou fama mundial. Em cinco temporadas, “King Eric” venceu quatro campeonatos e duas copas inglesas. Recebeu o título de melhor jogador de todos os tempos do time. Cabeça elevada e raspada, peito empinado, e golas da camisa rubra levantadas viram seus símbolos.

Ao ser expulso num jogo contra o Crystal Palace (janeiro de 1995), deu uma voadora com chute kung fu num torcedor do time rival que o desacatou. “O chute incrementou sua imagem de rebelde”, diz o jornalista de futebol Matt Barker.

Após a voadora, Cantona foi forçado a dar uma coletiva. “Quando as gaivotas seguem o pescador com rede de arrasto, é porque elas pensam que as sardinhas serão lançadas no mar.” Um tanto hermético e kitsch – e, por isso, os tabloides adoraram. Após ter sido banido pelo chute, King Eric voltou ao campo em grande forma. Melhor ainda para sua imagem: abandonou os gramados no auge (em parte porque não seria escalado para a Copa de 1998).

No início de sua carreira como ator, Canto arrancava sorrisos dos fãs. Em 2007, o divorciado pai de dois filhos conheceu Rachida Brakni, sua coadjuvante num filme. E Brakni, segundo o ex-jogador, o teria deixado mais relaxado. Hoje ele sorri mais.

Certa vez, Cantona disse que começou a jogar melhor futebol quando deixou de esperar muito de si mesmo. “Foi então que me liberei.” Possivelmente, Brakni o deixou mais solto para atuar no teatro e no cinema. Graças ao filme Looking for Eric, Canto voltou a ser um cult hero no Reino Unido. E agora na França. Seu ex-técnico, Alex Fergusson, foi visionário ao dizer em 1994: “Eric é um artista e todos artistas precisam de um palco”.

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