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Equador ancestral

por Rota Inca — publicado 09/08/2010 12h22, última modificação 11/08/2010 16h20
O pequeno país sul-americano possui um dos movimentos indígenas mais ativos do continente
Equador ancestral

Ritual no Parque Pumapungo Foto: Vitor Taveira

O pequeno país sul-americano possui um dos  movimentos indígenas mais ativos do continente

Na passagem da Ruta Inka 2010 pelo Equador, os expedicionários puderam conhecer melhor parte dos costumes, rituais e organização dos povos indígenas. O pequenino país localizado na costa do Oceano Pacífico é um dos dois países sul-americanos que não têm fronteira com o Brasil. Porém, possui um dos movimentos indígenas mais influentes e ativos em toda América Latina.

Na parte histórica e arqueológica, a bela cidade de Cuenca oferece um bom atrativo. De arquitetura tipicamente colonial, Cuenca também possui em região central um grande parque inca chamado Pumapungo, que preserva ruínas dos tempos incaicos, réplica de uma casa inca, um jardim com plantas medicinais e um museu. A cerca de 2h de Cuenca estão as ruínas de Ingapirca, principal sítio arqueológico do país, localizado no departamento de Cañar. O local apresenta uma arquitetura mestiça entre a cultura local kañari e a cultura inca que a conquistou.

Outro lugar visitado foi a pequena cidade de Chibuleo, parte de uma das regiões pioneiras na organização indígena equatoriana. Ali tiveram palestras com anciões locais sobre história, plantas medicinais e cosmovisão andina. Entre os sábios estava José Nazário Caluña, um senhor de 73 anos vestindo a roupa típica local: chapéu, calça branca e camisas brancas e poncho vermelho. Ele conta que foi um dos primeiros da cidade a aprender a ler e escrever na primeira escola da região, criada ao final dos anos 40.

Seu Nazário é pesquisador dos costumes do seu povo e escreveu um livro sobre os chibuleos. “Desde pequeno percebi que nas cidades maltratavam nossos pais por serem indígenas. Quis estudar para entender isso e comecei a abrir os olhos. Aprendi mais e mais e comecei a lutar pelos indígenas.” Aí se dava o início de uma importante história de um líder local que ajudaria a fundar o movimento indígena regional e nacional, que exerceu importante protagonismo político nas últimas décadas. Chibuleo foi uma das comunidades pioneiras na aplicação da justiça indígena como forma de resolver os problemas de criminalidade. Também possui uma escola de educação bilíngüe, onde os expedicionários ficaram alojados. Ali se ensina em espanhol e quéchua, além das aulas de inglês.

Tanto em Chibuleo como em Cañar e Cuenca, os viajantes participaram de cerimônias espirituais coordenadas por taytas (xamãs) andinos. As celebrações costumam ser parecidas não somente no Equador mas em toda região da Cordilheiras dos Andes, onde os povos originários compartilham muitas coisas em comum. Geralmente as oferendas são feitas com produtos locais como milho e batata, e se saúda ao sol (um dos principais deuses da cultura andina) e aos quatro cantos do continente, em referência aos outros povos indígenas sul-americanos. Cerimônias como o Inti Raymi (Festa do Sol), no final de junho, conectam espiritualmente as diferentes etnias e culturas aborígenes. O tayta Yaku Samay conta que em Cuenca e em outras regiões onde se havia perdido o costume dessa celebração, a festa está sendo retomada e revitalizada nos últimos anos.

Para finalizar a passagem pelo Equador a Ruta Inka foi à região de Otavalo, onde se realiza a maior feira indígena do mundo. Ali foram recebidos pela comunidade de Espejo onde além de danças e palestras puderam saborear um típico almoço comunitário, a pampa mesa. O diretor da expedição Rubén La Torre ressaltou a importância de eventos como esse, em que cada pessoa contribui com um pouco para o bem de todos.  “Essa vivência é importante para que esses jovens de vários países aprendam a ser felizes sem dinheiro. Vivemos num mundo capitalista onde quem tem dinheiro come e quem não tem passa fome. Essa pampa mesa é uma experiência vital para que percebam que se pode compartilhar a comida e todos estarem satisfeitos e agradecidos à Terra Mãe.

Ainda que tenham ficado poucos dias no Equador, foi uma oportunidade de conhecer um pouco da história e, sobretudo, da ancestralidade e atualidade do pensamento indígena, que resiste ao longo dos séculos de colonização. Dolores Cacuango, uma importante líder indígena equatoriana dizia: “Somos como a palha do monte, que se corta e volta a crescer. E de palha do monte cobriremos o mundo”.

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