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Entrevista: militar brasileiro comanda missão de paz no Líbano

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 13/01/2011 17h27, última modificação 17/01/2011 17h45
Em entrevista à Carta Capital, Caroli contou sobre a relevância da missão para o Brasil e os desafios de inspecionar a entrada de armamentos ilegais em águas libanesas
Entrevista: militar brasileiro comanda missão de paz no Líbano

O Contra-Almirante Luiz Henrique Caroli chefia o comando naval da ONU com a missão de inspecionar a entrada de armas ilegais em águas libanesas. À Viviane Vaz, de Jerusalém. Foto: Marinha do Brasil

O Contra-Almirante Luiz Henrique Caroli recebeu nesta terça-feira 11 o convite oficial da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil) para assumir a Força-Tarefa Marítima (FTM) da missão. Depois da liderança na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), este será o segundo papel de peso das Forças Armadas Brasileiras em missões de paz. Caroli acredita que até o início de fevereiro os nove integrantes do Estado Maior convidados para a missão da ONU no Líbano (ele, quatro oficiais e mais quatro praças) estarão no país. Em entrevista à Carta Capital, Caroli contou sobre a relevância da missão para o Brasil e os desafios de inspecionar a entrada de armamentos ilegais em águas libanesas. Um dos objetivos da força naval da Unifil é evitar atritos entre Israel e Líbano, impedindo a entrada de armamento ilegal.

CartaCapital: Alguns meios de comunicação divulgaram que seriam enviados 300 militares brasileiros para o Líbano. O senhor confirma este número?

Luiz Henrique Caroli: A Marinha está estudando a possibilidade de enviar um navio. Eu não tenho conhecimento do envio de 300 militares. Pode ser um assunto que esteja sendo tratado no Ministério da Defesa, mas não tenho conhecimento de que isso vai acontecer.

CC: Como o senhor encara o desafio de liderar a força marítima da Unifil?

LHC: É um tremendo desafio... muito positivo! É um desafio grande, é uma missão delicada, o objetivo dela não é simples, em uma área conturbada que é o Oriente Médio. Mas eu e as pessoas que irão comigo pensamos que nos dará uma recompensa em termos de realização profissional muito grande.

CC: Qual é a importância do Brasil participar desta missão?

LHC: O Brasil tem como objetivo de política externa contribuir com a paz e a segurança internacional. E há um segundo objetivo importante que é dar projeção ao país. O Brasil aspira a ser um ator global e tem de alguma forma contribuir para estes processos de paz no mundo. Uma questão no Oriente Médio, numa primeira análise, pode não afetar o Brasil. Mas se consideramos que qualquer coisa que afete a paz naquela região, pode, por exemplo, mexer no preço do petróleo e no preço de tudo, uma crise lá, nos afeta aqui.

CC: Muitos utilizam a distância geográfica para criticar o envolvimento do Brasil em questões no Oriente Médio. O que o senhor responde aos críticos?

LHC: Isso decorre da visão que cada um faz do papel do Brasil no concerto das nações. Se entendermos que o Brasil tem que ser um país de atuação regional na América do Sul, realmente fica sem sentido contribuirmos para a paz no Oriente Médio. Mas, se considerarmos que há um mundo globalizado e que o que acontece lá nos afeta e que o Brasil quer participar dos fóruns multilaterais e estabelecer as normas que regulam a sociedade internacional, aí vemos que tem todo o sentido. E esta segunda visão do problema é a que o país entende como certo e regula sua politica externa. Quanto mais pacífico for o mundo, melhor para todos nós. Além disso, buscamos o consenso e somos bem-aceitos por todas as partes.

CC: O senhor visitou algum país do Oriente Médio?

LHC: Estive em dezembro no Líbano, para fazer uma visita de reconhecimento. Dois dias no sul do país, na base da Unifil e três dias com o embaixador brasileiro e outros representantes e autoridades do governo libanês. Não dá para conhecer o país profundamente em uma semana, mas já deu para ter uma ideia do que vamos encontrar.

CC: O coordenador especial da ONU para o Líbano, Michael Williams of Baglan, disse na segunda-feira que estaria disposto a ajudar o país a demarcar as fronteiras com Israel para proteger as reservas de gás recém-descobertas. Os militares brasileiros também deverão colaborar neste tema marítimo?

LHC: Estamos muito atentos a esta questão, que envolve um interesse econômico real, concreto e imediato. As reservas que os israelenses descobriram no campo de Leviatã são enormes. Então, recaímos na questão da fronteira marítima destes países – não só entre Israel e Líbano, mas também Síria e a Faixa de Gaza. O mandato da Unifil para a FTM não menciona a tarefa de demarcação e para estabelecer a fronteira marítima, é necessário um trabalho científico. No Brasil, é feito pela Marinha-- não pelas unidades de combate, mas por outros órgãos com especialistas. Alguns integrantes do governo libanês defendem que a FTM poderia estabelecer esta fronteira, só que são medições científicas, baseadas no Direito do Mar e a FTM não tem essa função. O que pode acontecer é que a ONU faça gestões políticas para que Israel não comece a perfurar antes de ter resolvido esta questão. Os navios da FTM que estão lá são para fazer trabalho de interdição marítima, que é uma outra função.

CC: E quais são as tarefas do comando naval da Unifil?

LHC: A tarefa principal é evitar a entrada de armamentos e materiais relacionados em águas libanesas, desde que não sejam autorizados pelo governo libanês. Mas, se o governo libanês autorizar e disser que são dele, temos que liberá-los, não é ilegal. Se o governo disser: “isso não é meu”, temos a inspeção e apreensão. A Unifil é usada como um auxilio à marinha libanesa para evitar a entrada de armento não-autorizado. Essa é a principal tarefa. E a segunda é contribuir para o treinamento da marinha libanesa, para que eles um dia assumam todas estas obrigações e a missão da MTF esteja concluída.

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