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Mitt Romney

Entre o politicamente correto e o lucro empresarial

por Gabriel Bonis publicado 16/03/2012 17h46, última modificação 16/03/2012 17h50
Pré-candidato critica China por reprimir dissidentes, mas detém participação em empresa de vigilância que presta serviços para o regime
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O ex-governador de Massachusetts prega maior abertura política aos chineses, mas detém participação em fundo de empresa que comprou companhia responsável por "monitorar" cidadãos do país asiático com sistemas de segurança. Foto: Win McNamee/Getty Images/AFP.

A fortuna de Mitt Romney, estimada em 250 milhões de dólares, colocou novamente o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos em situação delicada. O mormón foi pego em contradição entre seu discurso "politicamente correto", visando a eleição, e o lucro empresarial.

Um dos motes da pré-campanha de Romney é exigir uma posição mais firme dos EUA contra a repressão religiosa e à dissidentes políticos na China, mas o ex-governador de Massachusetts, segundo reportagem do diário The New York Times, possui participação em um fundo que comprou a empresa chinesa Uniview Technologies.

A companhia alega ser a maior fornecedora do programa do governo da potência asiática para tornar as cidades mais seguras por meio da instalação de câmeras nas ruas do país. Um projeto que, de acordo com defensores dos direitos humanos, também esconde o uso da tecnologia para monitorar dissidentes político e religiosos.

 

O sistema permite que autoridades acompanhem campus de universidades, hospitais, mesquitas de centros de controle com imagens em tempo real transmitidas pela internet.

“Qualquer política séria dos EUA em relação ao país deve confrontar o fato de que o regime continua a negar os direitos políticos e humanos básicos de seus cidadãos. Temos um papel importante para encorajar a evolução da China em direção a uma ordem politicamente mais aberta e democrática”, disse Romney em seu website.

A Uniview foi adquirida pelo fundo da empresa Bain Capital, fundada por Romney e onde ele trabalhou por 15 anos. O republicano não atua nas operações da companhia desde 1999, mas mantém participação em fundos com ativos da companhia que geraram ao menos 5,6 milhões de dólares em lucros.

Além disso, os empregados e executivos da empresa são um dos maiores doadores da campanha do pré-candidato republicano.

O gestor da fortuna dos Romney se apressou, contudo, a esclarecer que aplicou os fundos do pré-candidato na empresa antes da compra da divisão chinesa de vigilância. Ele também afirmou que o pré-candidato não escolheu seus investimentos.

Segundo o NYT, entre os empreendimentos da Uniview há um centro de emergência no Tibet com o objetivo de "ajudar a manter a estabilidade social e proteger o clima de paz". Propósito desfigurado, conforme declaração de um monge tibetano ao diário.

O religioso afirmou que os equipamentos ajudaram as autoridades chinesas a identificar e prender mais de 200 monges que participaram de um protesto em seu monastério em 2008.

A nova aquisição da Bain mostra um comportamento das empresas americanas a fornecer equipamentos de controle social a governos de países com histórico de atitudes antidemocráticas. Empresas como General Eletric e I.B.M. estão entre as fornecedoras de tecnológicos de vigilância ao regime chinês.

De acordo com NYT, o mercado chinês para câmeras de segurança era avaliado em 2,5 bilhões de dólares em 2011, e deve dobrar até 2015. Mais de dois terços desta demanda vem do governo e a empresa detém apenas 1% do mercado no país, com amplo espaço para crescimento.

Um exemplo da grandeza dos "projetos de segurança" na China é a cidade de Chongqing. O município está gastando 4,2 bilhões de dólares em uma rede de vigilância com mais de 500 mil câmeras.

A Uniview afirma que suas atividades são focadas em aumentar a segurança no país asiático, pois há um aumento da população nas áreas urbanas, e não para repressão.

Os exemplos de uso “inadequado” da tecnologia de vigilância pelo governo chinês, porém, são extensos.

Em janeiro, o ativista político e artista Ai Weiwei foi questionado pela polícia após atirar pedras em câmeras de segurança em frente a sua residência.

Advogada de direitos humanos em Xangai, Li Tiantian acusa a polícia chinesa de usar imagens gravadas do lado de fora de um hotel para tentar manipulá-la nos três meses em que esteve detida ilegalmente em 2011.

O vídeo mostrava a advogada entrando em um hotel com um homem que não era seu  namorado.

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