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Entrada da Venezuela no Mercosul provoca crise no Uruguai

por Redação Carta Capital — publicado 03/07/2012 16h29, última modificação 06/06/2015 17h29
Vice-presidente também critica adesão venezuelana ao bloco. Oposição a Mujica convoca chanceler para prestar esclarecimentos
ARGENTINA-MERCOSUR-FERNANDEZ DE KIRCHNER-ROUSSEFF-MUJICA

Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e José Mujica antes da polêmica reunião que suspendeu o Paraguai e confirmou a entrada da Venezuela no Mercosul. Foto: Juan Mabromata / AFP

A entrada da Venezuela no Mercosul, marcada para o próximo dia 31, provocou uma crise no Uruguai. Depois de o ministro das Relações Exteriores uruguaio, Luis Almagro, afirmar que o Brasil impôs a adesão da Venezuela, o vice-presidente Danilo Astori fez coro a Almagro. Em declarações ao jornal El Observador, Astori classificou a entrada do país de Hugo Chávez no bloco como "agressão institucional ao Mercosul". Ao mesmo tempo, a oposição ao presidente José Mujica conseguiu convocar Almagro para prestar depoimento no Congresso e disse estar consultando juristas sobre a legalidade da inclusão venezuelana.

O vice Danilo Astori usou palavras duras para descrever o que ocorreu na semana passada, durante reunião de cúpula do Mercosul em Mendoza, na Argentina. Segundo Astori, a inclusão da Venezuela como membro pleno 'é uma ferida institucional muito importante, talvez a mais grave dos 21 anos do Mercosul". O vice uruguaio argumentou que as regras do Mercosul exigem que a entrada de um novo membro pleno seja aprovada por todos os integrantes atuais. Em Mendoza, os governos de Brasil, Argentina e Uruguai decidiram suspender a participação do Paraguai, cujo Senado vinha bloqueando a entrada da Venezuela, e automaticamente aprovar a entrada venezuelana. Para Astori, depois disso "qualquer coisa pode acontecer" pois "não resta nenhuma regra importante que não tenha sido violada".

Astori cogitou, inclusive, que a posição do Uruguai poderia ser revista até o dia 31. A senadora Lucía Topolansky (também primeira-dama do Uruguai) negou. Segundo ela, o "Parlamento do Uruguai há muito tempo aprovou a entrada da Venezuela no Mercosul" e a Frente Ampla, base de partidos que sustentam Mujica tem posição oficial, favorável à entrada da Venezuela no bloco. "Isso não quer dizer que algum companheiro não possa pensar outra coisa isoladamente", afirmou.

A oposição a Mujica no Uruguai aproveitou as declarações de Almagro e Astori para colocar o governo contra a parede. Nesta terça-feira, os partidos Colorado e Nacional (ambos de centro-direita), conseguiram convocar Almagro para explicar ao Parlamento a suspensão do Paraguai e o ingresso da Venezuela no Mercosul. Ao jornal local El País, o senador Sergio Abreu, do Partido Nacional, classificou de "lamentável" a explicação de Almagro sobre o que houve na Argentina. "Ele até afirmou que duvida da legalidade jurídica da decisão. E o grande escudo dos países fracos diante dos poderosos na região é a segurança jurídica", disse. Ao mesmo tempo, os partidos anunciaram o início de consultas a especialistas em Direito Internacional para determinar a legalidade da suspensão do Paraguai e a entrada da Venezuela.

Brasil e Argentina negam pressão

Na segunda-feira, Almagro destacou que o ingresso da Venezuela foi resolvido em um encontro privado entre os presidentes Dilma Rousseff, Cristina Kirchner (Argentina) e José Mujica (Uruguai), mas que a iniciativa foi fundamentalmente brasileira. O posicionamento do Brasil “foi decisivo nesta história”, segundo ele. “Não sabemos qual foi o argumento do Brasil nesta história, o presidente (Mujica) não me contou”, disse Almagro. O assessor especial da presidência brasileira para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, reagiu às declarações de Almagro afirmando que a decisão sobre a Venezuela foi adotada de forma “unânime” por Brasil, Uruguai e Argentina. “Não exercemos pressão sobre qualquer país porque não é o estilo da ‘presidenta’ Dilma Rousseff fazer pressão”, disse Marco Aurélio García no site da presidência. “A decisão foi tomada pelos três presidentes, e foi uma decisão unânime, que refletiu o consenso político”. O governo da Argentina, em nota, também negou a pressão e afirmou que a decisão de incluir a Venezuela foi tomada ainda enquanto os chanceleres dos três países estavam na reunião.