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Vazamento

Papéis secretos: o almoço do general Félix com o embaixador dos EUA

por Felipe Corazza — publicado 29/11/2010 16h26, última modificação 29/11/2010 17h24
Documento revelado pelo site WikiLeaks traz relato do encontro feito pela própria embaixada americana; governo brasileiro pediu à comunidade árabe no país que mantivesse vigilância
Papéis secretos: o general Félix e o embaixador dos EUA

Documento revelado pelo WikiLeaks traz relato de almoço com o chefe do Gabinete de Segurança Institucional feito pela própria embaixada americana; governo pediu à comunidade árabe que vigiasse possíveis terroristas. Foto: Agência Brasil

O vazamento de milhares de documentos secretos do governo dos Estados Unidos pelo site WikiLeaks promete ser um momento de mudança na história mundial. Os dados - comunicados trocados entre embaixadas ao redor do mundo e o governo americano - estão sendo publicados continuamente desde o domingo 28. No total, serão cerca de 251 mil documentos.

Entre os comunicados já publicados, quatro tratam do Brasil. Um deles, em tom mais informal, relata um almoço do embaixador americano John Danilovich com o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Jorge Armando Félix. Danilovich foi o representante dos EUA no Brasil até novembro de 2005. O encontro - narrado pelo comunicado de código 05BRASILIA1207 - aconteceu no dia 4 de maio do mesmo ano. Segundo o cabeçalho, o documento deveria permanecer em segredo até maio de 2015, não fosse a "falta de discrição" do WikiLeaks.

O embaixador começou a conversa com o general falando sobre a preocupação com a ameaça da presença de terroristas na região da tríplice fronteira. Danilovich diz que "o general Félix admitiu haver sérios problemas na região com um movimento ilegal de armas, dinheiro e drogas". O general garantiu ao embaixador que a trílice fronteira era um dos assuntos de maior preocupação do governo à época.

"Félix disse que tanto a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) quanto a Polícia Federal empregam efetivo reforçado e recursos extraordinários para tentar resolver o problema na região", diz o embaixador no documento.

Partindo das fronteiras com Paraguai e Uruguai, o assunto evoluiu para o combate ao terrorismo em geral no país. O general Félix contou, então, ao embaixador que o país já tem operações de cooperação com outros governos para monitorar possíveis movimentações de terroristas no país. Além disso, o governo brasileiro, à época, conversou com descendentes de árabes no país - "muitos deles, bem sucedidos homens de negócios". A intenção era pedir que ficassem atentos a outros árabes que por ventura estivessem em contato com terroristas. O pedido foi o mesmo que havia feito o ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri à comunidade no Brasil.

Após falarem de terrorismo, Félix e o embaixador conversaram sobre o presidente venezuelano Hugo Chávez. O diplomata americano disse que "Chávez estava minando os esforços brasileiros para assumir uma posição de liderança na América do Sul". O chefe do GSI, então, meneou a cabeça e pensou muito antes de responder, conforme nota o texto do comunicado. Félix disse ter uma posição pessoal sobre Chávez, diferente da governo, que não poderia ser relatada. Ele foi melancólico ao encerrar o assunto, dizendo que "sendo a favor ou contra Chávez, o fato é que ele já se tornou parte da realidade latino-americana."

O documento da embaixada cuida de avisar ao governo americano que o general Jorge Félix é amistoso, muito cooperativo e que sua gestão à frente do Gabinete de Segurança Institucional é compatível com os interesses dos Estados Unidos no país.

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