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Israel: Netanyahu em busca de aceitação

por Clara Roman — publicado 14/10/2011 09h43, última modificação 14/10/2011 17h17
Premier do país negocia com Hamas, consegue liberdade de soldado preso há cinco anos e tenta deixar o isolamento internacional
giladshalit

O soldado israelense, capturado pelo grupo em 2006, deve voltar a Israel em poucos dias, segundo o primeiro-ministro Benamin Netanyahu. Foto: Arquivo/AFP

As negociações entre Israel e Hamas apontam que Gilad Shalit, soldado israelense sequestrado pelo grupo islâmico em 2006, voltará para casa na próxima quarta-feira 19. Em troca, Israel libertará 1027 prisioneiros palestinos. Mediado pelo Egito, o acordo encerra um dos principais impasses do conflito entre Israel e Palestina e um processo de negociações iniciado em 2007.

Shalit foi sequestrado pouco depois de ingressar no serviço militar obrigatório, em uma base a poucos quilômetros de Gaza. Na época, não tinha 20 anos completos. À medida que seu cárcere se arrastava, Shalit foi tornando-se um mártir, uma espécie de filho da nação. O próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu usou essa expressão ao anunciar o acordo. “Nosso filho estará em casa nos próximos dias”, disse ele. Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a atitude condiz com o discurso israelense de que trará de volta seus soldados, custe o que custar.  “Israel sempre diz que prima por isso e que vai às últimas consequências para defender seus cidadãos e seus soldados em particular”, afirma Nasser.

Até anunciar o acordo, portanto, as Forças Armadas estavam em débito com seus combatentes. Há mais de um ano, os pais de Shalit, Noam e Aviva, acampavam em frente à casa do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, um protesto diário para que trouxessem seu filho de volta. Noam encontrava-se cada vez mais prostrado. Em agosto, quando Shalit completaria 25 anos, sua família escreveu uma carta ao filho em que expunha sua dor, saudades, e principalmente, descrédito em relação ao governo. Em julho, Noam declarou que não confiava no exército israelense.

E em meio a descrença, terá seu filho de volta. A decisão, segundo Nasser, faz parte de uma estratégia de Netanyahu

para recuperar sua popularidade, dentro e fora do país. Com a modificação no cenário político do Egito, que mantém acordo de paz desde 1979 com o vizinho, o rompimento de relação econômicas e políticas com a Turquia – historicamente, o único aliado da nação judaica no Oriente Médio – e o apoio à Palestina na ONU pela maioria dos países, Israel encontra-se cada vez mais isolado na política internacional. Seu único aliado é os Estados Unidos, que tem lutado para conseguir apoiadores de sua posição nas Nações Unidas. Mesmo dentro de Israel, a negação do reconhecimeto do estado palestino tem gerado insatisfações das alas mais progressistas.

Além disso, Netanyahu procura aumentar a sua popularidade, abalada depois de inúmeros protestos contra o aumento de preços dos alimentos nos últimos meses.

“Netanyahu está tentando mostrar uma face de negociador e de que, para proteger a sociedade israelense, faz negociações até com o Hamas”, diz Nasser. Na terça-feira 11, quando foi anunciado o acordo, manifestantes comemoraram decisão em frente à barraca da família de Shalit.

A recuperação do soldado servirá como um respiro para o primeiro-ministro. “É um paliativo”, diz Nasser. Setores mais conservadores, no entanto, discordam do acordo. O ministro de relações exteriores Avigdor Lieberman votou contra a troca. “A direita vai criticar que negociaram com terroristas”, comenta Nasser.

O Hamas foi um dos grandes beneficiados do acordo. Dentre os 1027 prisioneiros que serão libertados em duas operações – a primeira, com 477 presos, dos quais 280 ex-condenados à prisão perpétua pela morte de civis israelenses e 27 prisioneiras e a segunda com os outros 550 – está o líder Marwan Barghouti, do Fatah, principal parceiro do Hamas. A Autoridade Nacional Palestina, no entanto, manifestou seu descontentamento com o acordo. O ministro das Relações Exteriores da ANP, Riyad al-Malki que lamenta negociação pois muitos palestinos libertados não poderão retornar às suas casas. Calcula-se que 178 presos serão expulsos e não poderão voltar a Csjordânia.

Shalit será levado de Gaza até o Egito. Já os prisioneiros palestinos serão libertados na cidade fronteiriça de Eilat, ainda no território de Israel.

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