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Internacional

Dilma dá o recado

Nos anos 80, fizemos o mesmo erro

por Redação Carta Capital — publicado 04/10/2011 08h00, última modificação 04/10/2011 13h13
“Na América Latina, ajustes fiscais recessivos aprofundaram o processo de perda de oportunidades”, disse a presidenta na Bélgica

Há cerca de duas semanas, quando abriu os discursos da Assembleia Geral da ONU, a presidenta Dilma Rousseff fez duras críticas ao modo como a União Europeia e os Estados Unidos enfrentam os sinais de um novo ciclo de recessão econômica à semelhança do ocorrido em 2008. Assim como nos demais temas sobre os quais discorreu em Nova York, Dilma mostrou-se disposta a defender de forma objetiva as ideias do Brasil referentes à economia global, doa a quem doer. Para ficar numa frase síntese: “Não é por falta de recursos financeiros que os líderes dos países desenvolvidos ainda não encontraram uma solução para a crise. É, permitam-me dizer, por falta de recursos políticos e de clareza de ideias”.

A presidenta sinaliza que manterá o tom das críticas em encontros internacionais. Foi o que aconteceu na segunda-feira 3 em Bruxelas, numa reunião com o primeiro-ministro demissionário da Bélgica Yves Leterme. Dilma criticou a política europeia de combater a recessão econômica com “ajustes fiscais extremamente recessivos”, exemplificando que a estratégia se mostrou ineficaz quando adotada pelo Brasil e por outros países latino-americanos durante os anos 80 e 90. “A nossa experiência demonstra que, no nosso caso, ajustes fiscais extremamente recessivos só aprofundaram o processo de recessão, de perda de oportunidades e de desemprego”, argumentou a presidenta ao premier belga, em conversa que foi uma prévia da cúpula União Europeia-Brasil, que ocorre na terça-feira 4.

A turbulência econômica vivida pelos países da zona do Euro dominou a reunião dos dois mandatários. Dilma disse ainda que o aumento do consumo, do investimento e do nível de emprego são pontos-chave para a superação da crise, uma referência as medidas anticíclicas adotadas pelo governo brasileiro diante da quebradeira de instituições financeiras mundiais no final de 2008, posteriormente resgatadas pelos estados nacionais. Por mais de uma vez, a presidenta destacou que os países europeus devem agir no sentido de preservar a população dos efeitos do desemprego e da redução de garantias sociais. O recado tem endereço: desde que a Europa se viu em meio à incapacidade de alguns de seus países-membro de arcar com suas dívidas soberanas, os governantes têm anunciado uma série de cortes de beneficios sociais. Quanto ao desemprego, países como Portugal, Irlanda e Grécia lidam com taxas de desocupação acima dos dois dígitos enquanto a Espanha – caso mais emblemático – tem mais de um quinto de sua população atualmente sem trabalho.

Yves Leterme, por sua vez, admitiu que os países europeus precisam encontrar um ponto de equilíbrio entre ajustes fiscais para conter o endividamento dos estados e medidas de estímulo ao crescimento. Ele defendeu as medidas de austeridade do bloco, classificando-as de “equilibradas”, mas evitou opinar sobre a possibilidade de os países membros do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ajudarem no resgate à economias europeias debilitadas. Segundo o primeiro-ministro, essa deve ser uma decisão tomada pelo conjunto da União Europeia. Leterme chegou a pedir demissão devido à crise política que seu país enfrenta e que opõe flamengos (descendentes de holandeses) e valões (parte francófona). Mantido interinamente no cargo a pedido do rei Alberto II, o premiê espera que um acordo seja costurado entre as forças políticas para que o país volte a ter um governo após mais de um ano e meio de impasse.

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