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Carta de Portugal

Eleições por cá

por Eduarda Freitas — publicado 02/10/2010 11h16, última modificação 02/10/2010 11h55
Nossa colunista portuguesa conta suas experiências com eleições de hoje e de outrora

Apenas três coisas me deixavam colada à televisão: o Festival da Canção, os Jogos Olímpicos e a noite das eleições.
No quente, entre o meu pai e a minha mãe, ficava noite dentro a ouvir os pontos para a canção de Portugal. A frase mágica “Portugal, one point” era esperada com ansiedade. A nossa canção era sempre triste e quando ficava acima das três últimas classificadas, a vitória era quase absoluta, pelo menos, dizíamos, não ficávamos em último.
Depois, os Jogos Olímpicos. Elas no ringue de gelo, às voltas nuns patins, em danças coreografadas encaminhadas por homens vestidos com fatos brilhantes, eu no sofá, a sonhar em ser elas, a encher-me de certezas que o mais parecido que havia com princesas e contos de fadas eram aquelas mulheres em rodopios perfeitos.

Mais tarde, as eleições. Domingos especiais. De manhã, a missa. Depois o almoço. E logo a seguir, o percurso entre a casa e a escola primária, onde ir às urnas de voto era pretexto para conversas entre vizinhos. Eu acompanhava a minha mãe. Depois o meu pai, mais ao fim da tarde, quando ele chegava do futebol. E antes disso, entre o chá de cidreira e o pão torrado com manteiga, acompanhava a minha avó. E um tio ou uma tia que apanhasse a jeito. A minha prima chamava-me por volta do meio da tarde e eu aproveitava e seguia com ela que por sua vez acompanhava outros. E levávamos o cão para passear.
Domingo esticava-se tanto que quando chegava a hora de nos sentarmos para jantar parecia que já tínhamos corrido por muitas tardes, muitas vidas. A mãe servia a refeição, restos do almoço aquecidos no forno. Era o tempo em que o tempo obedecia ao tempo certo. Em que as projecções não davam certezas e em que contar os votos nas urnas demorava algumas voltas ao relógio. Era o tempo em que uns ganhavam e outros perdiam. O tempo em que a minha irmã estava quase a nascer e em que o slogan “Soares é fixe” soava a música. E em que o resto da rima “o resto que se lixe” criava raízes no quotidiano. Estávamos em 1986.

O Presidente da República Ramalho Eanes dava lugar ao socialista Mário Soares. Como Soares faz anos no mesmo dia que eu, ganhou-me o voto de coração. Porque o outro, ainda não era para mim. Na escola votávamos o chefe de turma. Ganhou o Henriques. Mas como ele não tirava as fotocópias a tempo, foi destituído e ascendi de subchefe a chefe. Passava intervalos a tirar fotocópias, verificar trabalhos de casa e a organizar festas de turma. Ganhei a amizade do Henriques por tê-lo livrado de tarefas que não tinha imaginado e, no ano seguinte, até me ajudou a vencer mais uma eleição. Fizemos campanha à hora de almoço, nas intermináveis filas da cantina. Entre senhas e promessas que as filas iam diminuir. Aprendi que às vezes as promessas ultrapassam a velocidade da razão…

Com Soares veio a minha irmã já a crescer, as amigas mais amigas, os rapazes, o piano, as brigas com a minha prima precedidas de eternas juras de amizade e a filiação numa juventude partidária. Tudo por impulso de coração. E por impulso distribui cartazes e autocolantes, segui em caravanas de vitórias, chorei derrotas. Mário Soares ficou velho, a minha irmã cresceu, o meu pai perdeu cabelo. Jorge Sampaio venceu as presidenciais de 1996. Depois veio a Universidade, a seguir o trabalho e os domingos de eleições a transformarem-se em domingos de trabalho e em sábados de insónias com medo de adormecer e de não ter tempo para votar. Sampaio, que tantas vezes se emocionava nos discursos, deu lugar a Cavaco Silva.

Em 2010, a caminho de outras eleições, a minha mãe continua a servir o jantar fim de almoço, mas eu já não consigo ficar sentada no sofá. Há textos para fazer, reacções para acompanhar. Nestas eleições dos dias que correm, às oito da noite já se sabe quem ganha e quem ganha, porque nas eleições em Portugal, todos ganham! O que tem mais votos ganha porque tem mais votos, o que tem menos votos a seguir, ganhar porque roubou votos ao primeiro e o que tem menos votos de todos, ganha porque tem mais votos do que nas últimas eleições.

Só não percebo porque é que num país com tantos vencedores, andamos todos perdidos.

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