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Manifestantes ignoram eleições e discutem feminismo em Madri

por Beatriz Borges — publicado 23/05/2011 16h17, última modificação 26/05/2011 18h30
Um dia após vitória do PP nas urnas, militantes, divididos em comissões como “saúde” e “cultura”, priorizam discussões sobre continuidade de protestos e feminismo. Por Beatriz Borges. Fotos: Luis Ansorena.
Manifestantes ignoram eleições e discutem feminismo

Após vitória do PP nas urnas, militantes, divididos em comissões, priorizam discussões sobre continuidade de protestos. Por Beatriz Borges. Fotos: Luis Ansorena.

De Madri

Todos os dias, centenas de pessoas se reúnem à saída do metrô Sol, uma das principais estações da capital espanhola, para assistir às assembleias gerais que ocorrem ao meio-dia. O local não tem palco e os microfones são precários. O silêncio, porém, ajuda durante a transmissão das mensagens apresentadas por cada comissão improvisada na praça de Madri, epicentro dos . Os grupos, com cerca de 500 pessoas ao todo, são divididos em comissões de assuntos e tarefas variados, como “infra-estrutura”, “saúde”, “cultura”, “feminismo” e até de “permanência”.

Os temas mais relevantes são votados por contraste: braços para cima, mãos agitadas, significam “sim”. Braços cruzados, no alto da cabeça, “não”. Quando querem que alguém pare de falar, nada de gritos, nada de vaias: os manifestantes apenas giram os punhos, como quem pede substituição, num gesto semelhante ao usado pelos jogadores de futebol quando querem sair de campo. Enquanto os manifestantes debatem, sentados em forma de círculos, garrafas de água passam de mão em mão. Ninguém fica sem comida ou água. O movimento se encarrega de tudo, inclusive do filtro solar, distribuído pelos voluntários da “comissão de saúde” gratuitamente.

Na segunda-feira 23, um dia depois das eleições, a preocupação com o . Em três horas de debate, sob sol de 32 graus, não houve sequer uma palavra sobre os resultados de domingo. Fechadas as urnas, que consagraram lideranças do conservador Partido Popular, os manifestantes seguem a postos com seus pedidos de mudanças – que, acreditam eles, não serão encaminhadas por quem “não nos representa”.

Uma semana desde o início dos protestos, o cenário parece ter mudado em relação aos últimos dias. Das barracas usadas para acampamento, poucas sobraram. Em compensação, os postos de informação agora têm computadores e as decisões são informadas por meio de mensagem de celulares, emails e retweets. Cada comissão tem sua barraca, feita de madeira e móveis usados.

A comissão de cultura, por exemplo, criou um espaço para as crianças. Com tatames coloridos e material plástico, os pequenos recebem a atenção de palhaços, artistas e psicólogos. Os responsáveis pela infra-estrutura prometem mudar a disposição das barracas para facilitar o fluxo de pessoas. E também a instalação de placas solares para fornecer energia elétrica a toda a praça. Os manifestantes contam até com banheiros tóxicos e uma horta. Um cartaz diz: “Se aguentamos 40 dias, comeremos alface”. A organização é a alma do 15-M, como ficou conhecido o movimento – em alusão à data em que foi indicado: 15 de maio.

A pauta dos encontros ajuda a explicar por que o movimento não se encerrou ao fim das eleições. Durante o dia, as atividades vão desde discussões sobre o uso de termos femininos na mídia até encontros com advogados que tiram as dúvidas sobre direitos civis. A lista sem fim de reivindicações encontra ressonância em cada uma das tribos que se unem no local para levantar suas bandeiras.

A comissão de resistência e coordenação interna deu instruções sobre como reagir em caso de despejo pela polícia. “Preparem uma mensagem de texto dizendo: ‘Estão despejando o acampamento. Venha defendê-lo’”, diziam. Instruíram aos participantes que levassem sempre o RG e mantivessem a calma, sem violência.

Entre os grupos, a comissão feminista é a mais criticada por conta da lista interminável de exigências lidas durante a assembleia por sua porta-voz. Sem receber a atenção da plateia, que parecia mais preocupada com o calor, ela resolveu falar mais alto: “queremos tudo e queremos agora”, fazendo referência à canção de Queen, I want it all. Conseguiu aplausos e risadas de todos.

Ao fim da fala, uma manifestante pediu a palavra para fazer um contraponto – direito de quem se opusesse às ideias ali lançadas. Foi assim que sugeriu que a comissão feminista trocasse o nome e passasse a se chamar comissão de igualdade. Os braços levantados da multidão indicavam que ela tinha razão.

Desta forma, decisões sobre diversos assuntos são tomadas de formas rápidas, com gestos de “sim” e de “não”, sem que se atropelem entre os discursos ou que se perca a razão num debate mais acalorado.

Sem prazo para terminar, a mobilização já tem encontro marcado para o próximo sábado, quando está prevista uma reunião pelos bairros de Madri. Somente no domingo, quando se completam duas semanas de protestos, é que os manifestantes se reúnem novamente para tentar chegar a um consenso sobre seguir ou não o acampamento na Porta do Sol.

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